Cultura

Sonata inacabada: a vida de António Fragoso, um génio do século XX

Pianista culto e virtuoso, António Fragoso tinha tudo para se tornar o maior compositor português do século XX. Mas a epidemia de pneumónica apanhou-o oito dias antes de partir para Paris, onde ia estudar com os maiores professores daquele tempo. Cem anos depois, o seu sobrinho recorda esta figura de culto da música portuguesa.

Em janeiro de 2009, quando começava a pensar na reforma, Eduardo Fragoso Martins Soares e os irmãos reuniram-se em conselho familiar. Em cima da mesa estava a escolha de quem iria presidir à associação criada para cuidar do legado do seu tio, o compositor António Fragoso, prematuramente desaparecido em 1918. «Eu tinha tido um enfarte há pouco tempo, estava para me reformar, e disse: ‘Vou ter tempo livre e quero dedicar-me a isto’».

E é o que tem feito. No início de 2011 o antigo administrador da Bertrand e da Difusão Cultural mudou-se para a Pocariça (concelho de Cantanhede), a aldeia natal do compositor – «foi a melhor coisa que fiz nos últimos anos». Desde então tem-se dedicado de corpo e alma a promover concertos, a formar jovens músicos na Academia Aquiles delle Vigne, que ajudou a fundar em 2012, e a divulgar a obra do tio. O último ano tem sido especialmente intenso, com 114 eventos espalhados por todo o país. Mas em julho último tanto empenho e dedicação quase lhe saíam caros.

«Eu estava muito cansado», recorda. «Tinha tido três concertos – sexta-feira, sábado e domingo às seis da tarde. Às oito horas fui para a Pocariça. Estava tão cansado que nem ia depressa, mas de repente... Não sei o que passou – quando dei por mim estava dentro de uma rotunda, o pneu esquerdo bateu no passeio e estoirou. Depois nunca mais parei».

O automóvel derrubou seis eucaliptos e ficou em tão mau estado que foi parar à sucata. Mas Eduardo saiu incólume, apenas com um arranhão num dedo. Dali a alguns dias estava a receber convidados, pessoas da terra e amantes de música no Concerto de Janelas Abertas, uma tradição anual que reconstitui os serões de antigamente em que Fragoso juntava os amigos na Pocariça e punham-se a tocar. As pessoas da aldeia aproximavam-se com curiosidade e ficavam na rua a escutar a música que saía pelas janelas.

Agora que se aproxima o centenário da morte do compositor, o ritmo volta a ser acelerado. Para o dia 13 de outubro está prevista uma missa solene na capela de S. Miguel da Universidade de Coimbra – Fragoso era católico praticante – e o concerto de encerramento do ciclo. «O concerto vai abrir com um noturno inacabado, que foi a última peça que descobrimos dele. Chama-se La Ville – automne. Segue-se a Petite Suite, o Concerto Romântico em quatro andamentos, o noturno por ele orquestrado e acabamos com a sonata tocada por orquestra e piano. Por aquilo que já vi e ouvi, vai ser um concerto...» – Eduardo tem até dificuldade em encontrar um adjetivo adequado. Ainda no dia 13 vai passar na RTP2 um documentário de 55 minutos de Laurent Filipe dedicado ao compositor.

Mas há mais. «De repente começaram a chover pedidos de partituras, sessões em que solicitam a minha presença para falar. O conservatório dos Caetanos fez um mês dedicado ao Fragoso. O Museu Nacional da Música quer que o lançamento do disco de piano, um álbum duplo com 15 temas inéditos, seja lá». O sobrinho do compositor não tem mãos a medir.

Além dos concertos, das sessões e do lançamento do disco, está a ser preparada a publicação de três livros. O primeiro é de ficção e tem a assinatura de Fragoso. Chama-se Cartas a Maria e Outros Escritos, e inclui um conto que o compositor escreveu quando tinha apenas 12 anos. O segundo é um volume de Correspondência – 650 cartas que Fragoso escreveu para o pai enquanto estava a estudar fora de casa. O terceiro é uma biografia.

 

‘Dou-lhe 20 valores porque não tenho mais’

António Fragoso nasceu na Pocariça a 17 de junho de 1897. «A primeira parte da casa da família é de 1615. Ainda antes de António Fragoso ser concebido, o meu avô começou a fazer obras para transformar as cavalariças em salas e foi viver para uma casa a 50 metros dali, onde vai ficar o futuro museu multimédia. Foi nessa casa que o meu tio nasceu», explica Eduardo.

Desde muito novo que António Fragoso começou a revelar-se um menino diferente dos outros. «Ele era um génio, uma pessoa de culto e um perfeccionista. Gastava tudo o que conseguia poupar ou em partituras ou em livros. O nível cultural dele era impressionante. E é curioso que só temos uma fotografia com ele ao piano e com ele a ler temos várias. Na Pocariça fazia os concertos de janelas abertas mas o tempo era passado sobretudo a ler e a escrever».

No campo musical, Fragoso teve três mestres na vida. «O primeiro foi um médico de Cantanhede casado com uma tia dele, o António José Tovim, que aos cinco ou seis anos lhe deu o ‘bê-à-bá’ do piano, principalmente a leitura de partituras», refere Eduardo Fragoso. «Depois, quando vai para o liceu, para o Porto, fica na casa de um tio materno que também era médico e professor catedrático de Medicina, uma pessoa de posses. Esse tio, José Oliveira Lima, deu-lhe um professor fantástico, hoje esquecido, o Ernesto Maia. E percebeu que Fragoso gostava era da música por isso convenceu o meu avô a deixá-lo ir para o Conservatório em Lisboa».

Com a preparação recebida em casa do tio, António «faz quatro anos do Curso Superior de Piano num ano. Depois quis que o exame final ficasse na história. Entrou com uma das mais difíceis sonatas de Beethoven, e acabou com uma peça ainda mais difícil, um Estudo de Execução Transcendental, a Mazeppa, de Franz Liszt. O Salão Nobre estava cheio, com gente em pé. Ele acabou a Mazeppa, palmas por todo o lado. O júri pediu para se calarem, levantou-se e disse: ‘Sr. Fragoso, dou-lhe 20 valores porque não tenho mais!’».

A sua fama de virtuoso espalhou-se e António começou a ser requisitado para tocar nos salões da alta sociedade. «Um dia foi convidado para tocar na casa de uma duquesa», conta Eduardo. No dia seguinte, escreveu uma carta ao pai: «Ontem fui convidado para animar uma soirée da duquesa. Estive toda a noite a tocar e no fim ela deu-me cinco mil réis». «Era uma fortuna naquela altura!», comenta o sobrinho. «Às nove da manhã do dia seguinte eu estava na Rua Augusta na parceria António Maria Pereira a comprar partituras de Poulenc, Debussy, Ravel, Fauré, todos aqueles que os meus bafientos professores não me deixam tocar lá», escreveu o jovem pianista.

 

Um enorme malão cheio de manuscritos

Chegado aos 21 anos, com o curso superior de piano terminado, António Fragoso já tinha decidido o futuro: «Ia apanhar o Sud Express para Paris, para ir estudar composição na Schola Cantorum em Paris, com o Vincent d’Indy e o Fauré. A grande prioridade dele era ir para o sítio que lhe permitisse aprender mais».

Havia motivos para acreditar, como escreveu o maestro Pedro de Freitas Branco, que «Fragoso tinha a envergadura para se tornar o maior compositor português de todos os tempos». Mas o destino tinha outros planos. «Os meus avós tiveram quatro filhos seguidos: António com 21, a Maria do Céu, com 19, o Carlos com 18 e a Maria Isabel com 16». Depois havia uma menina de apenas dois anos, a mãe de Eduardo. «Quando constou que a pneumónica já estava em Coimbra, esse meu tio lá do Porto que era médico agarrou na minha mãe e disse: ‘Tratem vocês dos miúdos que eu trato dela’. E foi o que a salvou». Todos os outros tios de Eduardo sucumbiram à doença numa questão de dias. Incluindo o compositor.

«Fragoso deixou uma sonata inacabada. No dia 12 de outubro, a véspera da sua morte, ainda tentou ver se conseguia escrever mais umas notas. Queria muito acabar aquela peça. Mas já estava cheio de febre. Subiu as escadas com dificuldade, sentou-se ao piano e a criatividade... não aparecia. Ao lado tinha uma pasta. Abriu, tirou de lá uma partitura, tocou, foi para o quarto, que era no fim do salão, e morreu no dia seguinte. Quando quiseram saber o que tocou, foram ver a pauta. Estava aberta numa composição chamada ‘A Morte de Aase’, da suíte Peer Gynt, do Grieg».

O legado de Fragoso encontra-se num enorme malão que fará lembrar a arca de outra figura de culto do século XX português. «É um baú de couro muito bonito, castanho, estava lá tudo. O meu avô, quando o filho morreu, fez aquilo que se fazia nos tribunais: coseu os manuscritos todos, pôs-lhes uma capa e fez uma numeração em cores diferentes, para se perceber a sequência. Esse é hoje o chamado Livro dos Manuscritos», continua o sobrinho do compositor.

Dos cinco irmãos, só a mãe de Eduardo sobreviveu, graças aos cuidados do tio médico. Também não teve uma vida fácil. «Ficou viúva com 34 anos. Seis filhos, o primeiro com nove anos, a última com 17 meses. Tinha dois fitos: dar-nos ferramentas para singrarmos na vida e divulgar a música do seu irmão. Tinha o curso superior de piano mas nunca tocou em público».

Maria Isabel de Sá Lima «moveu montanhas», segundo o filho, para publicar as partituras de António Fragoso. Conseguiu. Conseguiu também transmitir aos filhos o amor pela música. Eduardo, que cresceu a ouvir histórias sobre o tio, teve formação musical e chegou a cantar num coro barroco durante alguns anos. A música deu-lhe ainda outras alegrias. «Conheci a minha mulher na compra dos bilhetes para a Gulbenkian. Ela estava com uma amiga comum e comprámos bilhetes para os três. Acabámos por namorar cinco meses, casámos em outubro». Um ano depois, nascia um casal de gémeos, um rapaz e uma rapariga. Fátima teve um AVC no parto que a deixou praticamente tetraplégica, uma condição que viria a conseguir reverter graças à prática da acupuntura. Eduardo viu-se, de um momento para o outro, a ter de cuidar da mulher e dos filhos recém-nascidos. «Mudámos para o Porto porque a minha cunhada era solteira e a minha sogra divorciada, portanto podiam dar uma ajuda. Entrámos numa outra luta», resume. Como todas as restantes, para vencer.