Cultura

Changuito: ‘Para se gozar uma liberdade radical é preciso levar uma vida de samurai’

Vai ser preciso desenterrar um dos nossos mais jovens mitos no movediço território dos livros. Tão recente ainda, o corpo mal teve tempo de arrefecer, e acomodar-se ao túmulo, para que a baba da memória lhe perlasse os ossos. Depois de uma primeira incursão, que teve na Rua Cecílio de Sousa (Príncipe Real) o porto de tantas partidas como chegadas, a Poesia Incompleta regressa dez anos depois, agora na Rua de São Ciro, na Lapa. Com mais espaço para crescer, não pretende ficar-se por um eco combalido do grito original. Uma das poucas livrarias em todo o mundo devotada inteiramente ao tão minoritário quanto resiliente género, viria a encerrar em 2012, sem dívidas e – ao contrário do que se supôs – não por algum fracasso, ou pela batida noção de que a poesia não vende. Simplesmente, porque o livreiro se apaixonou. E foi-se. 

Changuito, como as ruas o conhecem – Mário Guerra, como se lerá nalgum cartório –, figura destacadamente entre o punhado de tratantes de livros ao comando de navios insurrectos nas águas cada vez mais chocas do setor livreiro. Começa a tornar-se evidente que, perante a vertigem de uniformização – com o encerramento das últimas livrarias históricas, e consequente gangrena no que toca à diversidade dos catálogos, bem como a desaparição dos espaços vocacionados para o convívio e o ócio –, os grandes responsáveis por segurar a linha têm sido alguns briosos livreiros. Ocupando posições estratégicas, em modestas lojas ou esconsos, redefinindo a geografia literária, e andando pelo país como os antigos vendedores ambulantes, atentos às rotas desenhadas com apreciável autonomia por alguns leitores, partilhando o conhecimento dos astros e as cartas de navegação. A ênfase volta a estar no trato pessoal, não em orientações gerais sobre o mercado e preferências ordinárias. 

Ao entusiasmo de um romântico desses, como Deus manda, passados de moda, Changuito alia a insuperável intuição de um voraz leitor, um autodidata cujos excecionais dotes teatrais o tornam um infeccioso cicerone no que toca a esses lugares recuados a que só pelo cultivo do espírito se acede. É como guia dessa comunidade de fantasmas, desse universo de textos, vastas e longínquas memórias, que pôs novamente de pé um espaço de babélica imponência, que faz de nós viajantes entre tantos idiomas, lugares e épocas, contra o frouxo encantamento pela novidade que se mostra cega para todo o futuro que só o passado sabe decifrar.

Tens muita experiência a servir copos, e chegaste a ponderar abrir uma casa de vinhos que também vendesse livros.

Sim. Mas ainda sei menos de vinhos do que de poesia. E com a tendência para o alcoolismo que tenho era muito provável que passasse a beber mais mercadoria do que a que vendia. Portanto, esta opção é uma medida preventiva ao nível hepático. E acho que este sítio fisicamente é melhor do que o da primeira livraria, que ficava na Cecílio de Sousa. Tem este micro-palco que construímos aqui, e irá haver ‘eventos’, como as pessoas gostam de dizer. 

Isso é uma grande diferença em relação ao outro espaço.

Sim. Isto vai estar fechado [mostra uma divisória que se corre encerrando a zona do palco], e a ideia é que haja três tipos de atividades: leituras, que serei eu a fazer (não tenho dinheiro para contratar ninguém e também não o faria se tivesse); lançamentos (já há um marcado) e umas conversas cuja periodicidade ainda não sei, mas que se chamarão Tédio Talks, e já umas 20 pessoas aceitaram o convite. Serão conversas com a superficialidade que me caracteriza. Não se aprofundará nada mas é uma marrada leve às TedTalks, que era uma coisa ótima, mas que hoje em dia até o Nilton tem uma. 

O Nilton, o piadista?

Sim, já vi uma TedTalk do Nilton. Nada contra o Nilton (risos).

Mas tens alguma coisa a favor do Nilton?

Nada a favor nem contra. Nada mesmo. Mas é a nossa marradinha nas Ted Talks, que obviamente não a sentirão. E é também um piscar de olho ao Baudelaire, já que spleen é tédio. Falaremos longamente de tudo, ou não. Mas acho que com a morte de figuras como o Cavaco Silva, o Marques Mendes, o Jorge Lacão, acho que as pessoas precisam de poesia, de conversas, porque deixámos de ter a que nos agarrar, não é?

Sim, sim. 

E acho que o fim de 2018 vai ser um período marcante porque, mais ou menos na mesma altura, reabrem a Poesia Incompleta e o Elefante Branco. É uma prova de que a cidade não tem só terceiros andares para oferecer para o Booking. Tem também coisas começadas por p.

Entretanto, houve uns anos em que levaste a livraria para o Brasil. E por cá pouca gente sabe o que se passou lá…

Não se passou grande coisa.

Quem te conheceu na Poesia Incompleta ou até na Barraca fazia de ti um embaixador não-oficial do Brasil, e sobretudo um fã dos cariocas. Puseste os papéis para te libertares dessas funções ao vir de lá?

Continuo achar aquilo maravilhoso. Se fores velho e tiveres dinheiro. Para morrer é ótimo. Se fores jovem e tiveres dinheiro é ótimo. Se fores de meia-idade e tiveres dinheiro é ótimo. Acho que para férias é maravilhoso. Para o tipo de personalidade que eu tenho – aquela coisa do Henri Michaux, ‘eu que por ti enfrentei toda uma cidade’... Quando tu estás contra o funcionamento de uma cidade não podes estar nessa cidade. És tu que estás mal. Agora, em termos de lazer, em termos de: vou apanhar sol, vou conversar com umas pessoas ótimas para beber cerveja… Nisso é imbatível. Tenho um grande fascínio por aquele lado do mundo: México, Colômbia, Uruguai… Acho que há ali um mundo mais engraçado, mais telúrico... E mais leve, no Brasil, o que apela a pessoas como eu – que somos pesadas… 

Comparando realidades: Portugal também parece estar a querer encarnar uma cultura festiva, ser um destino, um atraente postal para estrangeiros. Hoje, tudo se passa na base dos eventos, dos happenings… Mas se as coisas até são muito bem organizadas, mas depois parece que as coisas não chegam realmente a acontecer. 

Estamos sempre à espera do próximo acontecimento. Estou a comer este hambúrguer, que é maravilhoso, mas o cabrito em Carnide é que é... São uns tempos muito doidos. E acho-os muito engraçados. A próxima coisa é que vai ser. Depois há aquela frase do Erik Satie: «Quando eu era jovem diziam-me: quando tiver 50 anos é que você vai ver. Tenho 50 anos. Não vi nada.» O Herman num sketch também já dizia: «Os portugueses são muito hospitaleiros, gostam muito de hospitais.» Acho que isto tem de tudo. Lisboa está na berra. 

À distância a que estavas daqui quando estavas no Brasil, como foi pensar sobre os quatro anos de vida da Poesia Incompleta?

Eu sou um galgo. Põem-me a correr num bosque e eu corro e vou contra as árvores, magoo-me e continuo a correr, que é uma coisa que os galgos fazem. Não aprendem. À distância, falava disso no Rio. Não é uma coisa saudosista, pois não tenho nada aquela ideia – «the older I get, the better I was». Não é uma coisa para que me dê, mas já em Lisboa tinha essa noção… Primeiro era a liberdade, do ponto de vista individual… liberdade absoluta! Já no Brasil, por comparação, tinha essa noção clara: de que fiz uma coisa importante… Se excesso de modéstia é vaidade, consigo dizer isto objetivamente sem achar que é vaidade: é uma coisa rara no mundo. É uma questão de variedade, uma questão de não compromisso com o paroquialismo…

Em que sentido?

Acidentalmente, nasci em Lisboa... estava para nascer no estrangeiro. Mas o facto de estar em Lisboa não me obriga a ter só poesia portuguesa. Nem me obriga sequer a achar que a edição portuguesa é a mais importante, ou que a poesia portuguesa é a mais importante. E até acho que a poesia portuguesa é muito boa. Acho que está quase sempre acima do nível das nossas outras artes. Tivemos melhores poetas do que pintores, que arquitetos, que ensaístas. A nossa poesia é melhor do que o teatro, é melhor que o cinema, é melhor que a música. E acho que isto é mais ou menos objetivo. Tu tens, no século XX, ao mesmo tempo, muita gente boa a escrever. Não tens tantos compositores assim tão bons a compor música. Mas, para lá disso, não tenho nenhuma obrigação para com a poesia portuguesa, não tenho nenhum contrato com o Instituto Camões. Portanto, recomeço não ainda como fechei – porque fechei com 59 línguas, e isso é mesmo algo de que me orgulho muito… Coreano, vietnamita, búlgaro, náuatle… E quero voltar a fazer isso. E provei – não é ao mercado, não é ao instituto de Meteorologia, não é à Manuela Eanes –, é a mim mesmo –, que se pode viver disto e que as pessoas compram essas coisas, porque não as encontram fisicamente e porque também procurar o que não se conhece na internet é difícil. «Ah, não conheço nada de poesia da China. Vou ver se me aparece no Google poesia da China de prostitutas do século VI.» Ninguém se lembra disto. Mas há. E eu tinha, e vou voltar a ter. E vou tentar que a experiência seja a esse nível igual ou melhor. Mais diversa ainda se conseguir. Ter uma amostra substante da poesia do mundo. Poesia e correlatos: biografias sobre poetas, ensaios sobre poetas, ensaios de poetas, traduções de poetas… 

Além do que a Poesia Incompleta era como um espaço para uma pessoa que nela entrava e o descobria, esta teve também um papel importante pela tua capacidade de...

De agregar? 

De criar um espaço de tertúlia, um lugar onde muitas pessoas se conheceram. O Vitor Silva Tavares passava por ali, o Alberto Pimenta, o Rui Caeiro, o António Barahona, para falar só nos mais velhos…

Sim, velhos, novos, homens, mulheres.

E o que é que gostarias que se repetisse e que não se repetisse dessa experiência?

É a tal coisa do galgo… Há umas pessoas que fazem umas afirmações sobre mim (como haverá outras que as farão exatamente ao contrário) e falam dessa coisa agregadora. Eu não a sinto. Na minha vida pessoal não me sinto agregador. Uma coisa que a sociedade tem como uma excrescência desnecessária, para quem está dentro dessa razão, e necessita muito dela, como é a poesia, como é… Dou sempre este exemplo, e as pessoas, normalmente, pensam que estou a gozar: Quando eu era miúdo havia uma loja de aeromodelismo. Ficava na Amadora. 

Aeromodelismo?

Sim, aquela coisa que o Júlio Isidro adora: construir aviõezinhos telecomandados, construir carrinhos e tal. E aqueles dementes iam todos para Amadora. Epá, eu se fosse do aeromodelismo não sei se me ia meter na Amadora. Renovar o passaporte, trocar dinheiro para me ir meter na Amadora… Mas eles iam todos. E acho que há uma necessidade de quem é expelido, de quem ou não é do centro ou não quer estar no centro, de encontrar nas paralelas espaços em que se reconheça, em que pense: aqui falam a mesma língua. Há uns bisontes, depois uns suricatas que correm ao lado. E quem é expelido do centro, quem não se sente bem a querer comprar um livro e dar com um computador, com uma batedeira, com uma bimby… se calhar, depois, encontra nesses sítios um poiso, um sítio onde sabe que vai conversar, onde sabe que vai encontrar o que não encontra noutros sítios. Um sítio com uma velocidade diferente, com uma luz menos desagradável, com uma música mais agradável... a lista continua.

Queres dar exemplos desses espaços?

A Letra Livre [Calçada do Combro 139], que para mim é a melhor livraria de Lisboa, senão de Portugal. Acho que as pessoas vão lá por várias razões que têm a ver com os livros e também têm a ver com o lado humano, e também tem a ver com o que eles sabem. O Carlos, a Eugénia, o Eduardo. É o que eles sabem sobre os livros, sobre as edições, e depois, ainda por cima, conseguem o livro. E isso leva a que quem esteja permanentemente a ser enxotado, a ouvir: «Não temos. Está esgotado. Foi descontinuado. Não temos mas podemos encomendar...», que é aquela coisa irritante. A dificuldade hoje de comprar um livro diretamente. «Tem?» «Não, não tenho mas posso encomendar. Quer?» – «Não, eu queria ter o livro, estava-me mesmo a fazer falta ler isto…» 

Estava a ler no outro dia um relato do Baptista-Bastos sobre esses outros tempos, os anos 50, 60... Dizia que foram anos muito difíceis, muito tristes, mas que depois, nos tempos novos, já não encontrava os amigos nos cafés, na rua… só encontrava o deserto.

Também tendo para o catastrofismo. A catástrofe é uma coisa que nos dá a mão mais seguramente do que o sucesso. Empresarialmente, também. Mas acho que há outras pessoas, noutros cafés. Isto não é dizer bem dessas pessoas nem bem dos cafés. É achar que o tempo mudou. Percebo que um homem inteligente como o Baptista-Bastos faça uma glorificação dessas no meio da merda, porque para ele aquele tempo era a merda. Uma ditadura; respirava-se mal, o teto estava baixo, toda a gente tinha razão para estar triste. Agora temos todos razões para estar alegres e também não estamos muito. Talvez não seja, por isso, uma coisa da época mas do homem. Como diz o Millôr [Fernandes], «a raça humana é uma experiência que não deu certo».

Já fizeste algum cálculo de quantos livros precisas de vender por dia para aguentar isto?

Já… mas essas coisas são muito chatas… É ter uma vida de samurai, como tinha no outro sítio. É reduzir os custos ao máximo…

Ainda fumas dois maços por dia?

Sim. Mas já fumei quatro, portanto, já foi uma redução. E tenho de fumar menos por causa do dinheiro. Está muito caro. Ou então tenho de comprar cigarros albaneses ou guatemaltecos. 

Então, se isto começar a ter sucesso pode haver uma relação inversamente proporcional do ponto de vista da tua saúde?

(Risos) A nossa saúde está sempre a deteriorar-se. Misteriosamente, fui fazer exames e está tudo bem. Na espirometria até me deram remédios para eu ficar pior. A senhora disse-me: «Não vai apresentar esta espirometria ao médico. Ele quer ver como é que estão a funcionar os seus brônquios estando mal, como estão óptimos…» E eu: «Mas e precisa de me estar a pôr doente?» E ela deu-me quatro ou cinco bombadas de uma coisa em que três minutos depois já estava a arfar aflito, cheio de gatos cá dentro. Um remédio maravilhoso para o mal. Vou comprar aquilo só para dar a inimigos.

Há alguma hipótese da Poesia Incompleta voltar a meter-se na edição?

Deixa lá estabilizar as contas… Estou aqui há seis meses, e já paguei mais três meses de renda. Deixa lá ver como é que isto corre. Há sempre coisas boas para editar. No outro dia, em discussão com um editor que me pedia sugestões, perguntei-lhe se tinha de ser poesia, se tinha de ser de poetas vivos, e às tantas dei-lhe uma resposta de que eu próprio gostei: «Os poetas mortos estão a escrever cada vez melhor.» Há sempre coisas para editar: novas, velhas, portuguesas, estrangeiras…

Quantos livros é que mantiveste da primeira livraria..? Porque os teus livros chegaram a ser enviados para o Brasil num contentor não foi?

Foi uma tonelada. Mas não voltaram. Não veio um livro. Ofereci tudo à Valeska [de Aguirre, poeta brasileira e a sua ex-companheira].

Então o que já tens aqui de livros é um acervo que começaste a agora a comprar?

Sim. Comecei em agosto porque só em agosto é que pude abrir atividade. Comprei alguns lotes de livros manuseados, livros esgotados, mas de resto é tudo novo. É mais engraçado, é mais arriscado. As livrarias (a maior parte) têm, hoje em dia, uma atitude muito estranha... Uma espécie de aversão ao risco: «Nós não temos nada de arriscar. Os editores e os escritores é que têm de arriscar. Nós não. Temos aqui o livro 30 dias, 60 dias, se não se vender, devolvemos. Até o devolvemos estragado. Devolvemos ainda embalado…» Isto faz-me uma grande impressão, porque acho que a função de uma livraria também é arriscar, também é pôr em destaque o que não está destacado à partida. Quer dizer: pores o Dan Brown em destaque é uma coisa para meninos. É uma livraria feita por pessoas com quatro anos. 

Há um conceito que hoje já começa a ser extraterrestre para as pessoas que só frequentam as Bertrands e as Fnacs, que é razão pela qual te recusas a fazer descontos, a tentar ser competitiva baixando os preços…

Isso é aquela conversa que me interessa muito pouco… Fazem colóquios, fazem certames, fazem debates sobre o livro e a crise do livro e o nhó-nhó-nhó do livro… Há uma lei. Uma lei escrita e em vigor, que se chama Lei do Preço Fixo, e depois há umas cadeias que praticam uma coisa horrível: para não poderem ser acusadas de fazerem dumping (que é ilegal também), exigem uma parte leonina aos editores e, de facto, depois podem fazer 10 e 20% de desconto. Até fazem saldos de livros que ainda nem pagaram, que é uma coisa absolutamente insana. Livros a 1 euro que eles ainda vão pagar. Faz pensar na composição da rua em que estamos. Uma rua que tem um Centro de Saúde, um sapateiro e o Doutor [Eduardo] Catroga, acho que lhe faltava uma livraria de poesia. Estes quatro pilares podem ancorar a sociedade portuguesa. Mas essa conversa do livro chateia-me muito. Primeiro porque há um lado que é quase pedir desculpa… «Temos aqui um livro, mas estamos a fazer 30% de desconto para você o levar, leve-me esta merda. Por amor de Deus, que isto está aqui a ocupar-nos espaço. Até fazemos uma atençãozinha redobrada… Tem cartão cliente? Damos-lhe pontos e ainda lhe fazemos uma colonoscopia no fim. Se comprar 10 livros fazemos-lhe um exame à próstata de graça. Portanto, leve, leve este livro daqui, por favor!». Não acredito nisso. Não tem lógica que um bem tão precioso como um livro seja logo desvalorizado à partida. Saiu – já está com 10% de desconto! Eu até posso oferecer o livro a uma pessoa – e fi-lo várias vezes –, mas não faço descontos.