Sociedade

A polémica das crianças e os beijinhos. "Usei o exemplo do avô e da avó e não o fiz por acaso"

Daniel Cardoso, autor da frase polémica no Prós e Contras, falou sobre o que aconteceu no programa

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Daniel Cardoso tem estado no centro de muitas discussões nas redes sociais. Em causa estão as suas declarações no programa ‘Prós e Contras’, na RTP1, sobre o consentimento sexual. Num entrevista ao Diário de Notícias, assumiu já ter dito coisas “muito mais chocantes” e explica por que razão, no seu ponto de vista, este episódio causou tanto rebuliço na Internet.

:"É preciso falar de educação de forma concreta. A educação é quando a avozinha ou o avozinho vai lá a casa e a criança é obrigada a dar o beijinho à avozinha ou ao avozinho. Isto é educação, estamos a educar para a violência sobre o corpo do outro e da outra desde crianças. Obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa como obrigação coerciva é uma pequena pedagogia que depois cresce." Esta foi a frase que Daniel, doutorado em ciências da comunicação e professor universitário, disse no programa e que tanta gente chocou.

Ao DN, disse que a sua opinião é defendida por muitos e está explicada em muitos livros sobre parentalidade. “Porque é que isto chegou aqui? Porque eu usei o exemplo do avô e da avó, e não o fiz por acaso. Usei aquelas figuras a quem no nosso imaginário atribuímos (pelo respeito, pela idade) uma série de poderes e direitos. É uma tradição muito arreigada, de tal forma que já perdi a conta às vezes que vi uma mãe dizer "se não dás um beijinho à avó vais ver o que te acontece" ou "dá um beijinho ao avô e ganhas o brinquedo". É contra este tipo de fenómeno que eu estou a falar e isto perturba as pessoas, porque mexe com a sensação de pureza e da naturalidade das relações familiares”, explicou.

Daniel Cardoso falou também sobre o papel das crianças e como estas permitem exercer a “tirania dos pequenos poderes”.: “Ainda há uns meses publiquei um artigo científico no Brasil sobre o significado da criança na nossa cultura. E a criança, regra geral, não é vista como um sujeito com direitos e deveres, mas sim como um objeto a ser administrado por interesses superiores. A criança permite às pessoas exercer aquilo a que se chama a tirania dos pequenos poderes. Porque a criança precisa de proteção acrescida e de competências que ainda não adquiriu, há a utilização desse dever parental para a imposição de obrigações que vão muito para além do cumprimento desses direitos e desses deveres”.

“Em momento nenhum me passou pela cabeça sugerir a falta de educação. Mas há a questão do respeito: o respeito deve ser uma condição mínima fundamental das interações humanas. Se ensinarmos às crianças que não se respeita um não e - atenção a isto - que pela utilização da violência ou da coerção ultrapassamos este não, estamos a dar um exemplo. E é um exemplo que elas vão levar ao longo da vida toda. E esse exemplo diz que se tiveres poder suficiente, podes passar por cima do não do outro”, acrescentou.

@jornalsol