Sociedade

Comandos. Hugo Abreu caiu e “não se mexeu mais”

Testemunho de um dos recrutas

Um dos instruendos do 12º curso de Comandos, no qual morreram dois recurtas, afirmou esta quinta-feira em tribunal que, quando tentava subir para uma viatura, Hugo Abreu caiu e “não se mexeu mais”. Este momento foi presenciado e ignorado por um dos instrutores, afirmou a testemunha.

Hugo Abreu, de 20 anos, e Dylan Silva, da mesma idade, morreram no dia 4 de setembro de 2016, durante a Prova Zero, a primeira prova do curso, que decorreu em Alcochete. Outros nove recrutas sofreram lesões graves e acabaram por ser internados.

Um dos instruendos, Rodrigo Seco, revelou hoje em tribunal que os dois instrutores responsáveis pela Prova Zero ignoraram pedidos para poderem beber água e desvalorizaram todos os sinais de cansaço e mal-estar. Quando os recrutas pediam para parar e beber água, eram “castigados” e obrigados a passar por provas físicas, como saltar em cima de silvas e fazer flexões, revelou a testemunha, citada pela agência Lusa.

Rodrigo Seco foi um dos recrutas que passou por estes momentos. É assistente no processo e reclama 400 mil euros do Estado e dos 19 arguidos do Regimento de Comandos.

Em tribunal, Rodrigo recordou o momento em que estava deitado na zona da carreira de tiro, por se estar a sentir mal. Foi nessa altura que Hugo Abreu apareceu: "Estava vermelho, só cuspia saliva e ria-se", relatou.

A certa altura, de acordo com o testemunho de Rodrigo, o sargento Rodrigues colocaou-se “de cócoras” à frente de Hugo Abreu a dizem “cospe lá agora, cospe lá agora”. A testemunha não soube precisar o que o argento fez naquel momento, dizendo apenas que, quando este se afastou, Hugo Abreu parecia estar a "engasgar-se e com falta de ar". De seguida, o enfermeiro apareceu e atirou água para a zona da boca. Rodrigo diz que viu terra "à volta da boca" de Hugo Abreu e não no interior.

Mais tarde, quando se preparava para entrar numa viatura militar, Hugo caiu no solo "e já não se mexeu mais". Rodrigo garante que o sargento Rodrigues assistiu ao momento da queda. Hugo Abreu foi colocado no interior da viatura por outros recrutas. Durante a viagem, Hugo estava deitado, com a cabeça amparada nas pernas de outro recruta. Rodrigo diz que o recruta "começou a revirar os olhos" e não reagia. Outro instruendo colocou os dedos na boca de Hugo Abreu para que "não enrolasse a língua", contou a testemunha, citada pela Lusa.

Rodrigo Seco diz que, amtes de chegar à zona das tendas, a viatura parou e o sargento Ricardo Rodrigues foi para junto dos recrutas, mas "não ajudou em nada".
Quando chegaram, Hugo foi retirado pelos restantes recrutas e colocado no solo. "Foi a última vez que vi o Hugo Abreu”, afirmou Rodrigo. Hugo Abreu viria a ser declarado morto na tenda médica do Campo de Tiro de Alcochete às 21h45 desse dia.