Política a Sério

A mentira de Tancos

Quem nos diz que as armas ‘devolvidas’ não vieram mesmo de Santa Margarida, e a entrada da PJ naquela altura poderia denunciar o embuste?

Um novo facto veio reforçar a explicação que avancei há 15 dias para aquilo que se passou em Tancos.

Soube-se agora que o general Rovisco Duarte, então chefe do Estado-Maior do Exército, deu ordens para não deixar entrar a Polícia Judiciária em Santa Margarida.

Os inspetores da PJ estiveram seis horas à espera à porta do campo militar.

Note-se que isto aconteceu logo após o aparecimento das armas roubadas em Tancos.

Os homens da Judiciária foram a Santa Margarida e impediram-nos de entrar.

Porquê?

Por teimosia?

Por razões corporativas?

Para esconder alguma coisa?

Há duas semanas defendi a seguinte ideia: as armas recuperadas não são as mesmas que foram roubadas em Tancos.

Essas armas ‘devolvidas’ vieram doutro lado, e o seu aparecimento destinou-se a calar os políticos e em particular o Presidente da República.

Ora, a proibição da entrada da PJ em Santa Margarida, após a ‘devolução’ das armas roubadas, levanta neste quadro as maiores suspeitas.

Quem nos diz que as armas ‘devolvidas’ não vieram mesmo de Santa Margarida, e a entrada da PJ naquela altura poderia denunciar o embuste?

Aliás, por que razão após o aparecimento das armas os homens da PJ foram ao campo de Santa Margarida?

Que suspeitas os teriam levado lá?

A forma como o roubo de Tancos está a ser contado tem demasiadas incongruências para ser aceite de ânimo leve.

Pelo contrário: tudo conduz a que sejam colocadas outras hipóteses.

Diz-se, por exemplo, que o suspeito do roubo é o traficante de armas João Paulino, que as devolveu porque estava a ser ‘apertado’.

Ora isto é inverosímil.

Primeiro, um roubo desta dimensão não é feito por uma única pessoa – é feito por várias, por um grupo organizado.

Depois, quem planeia um assalto a uma base militar tem forçosamente de contar com cúmplices dentro das instalações.

Por outro lado, um roubo de armas pesadas tem à partida destinatário.

Resulta de uma encomenda que especifica o material pretendido e estabelece o preço a pagar.

Se se tratasse de um roubo de pistolas-  -metralhadoras, ainda se poderia dizer que eram roubadas para depois serem vendidas a retalho.

Mas tratando-se de material de guerra, isso não é crível.

O roubo foi encomendado, e ao sair da base já tinha um plano para ser entregue ao cliente – e, provavelmente, para sair do país.

Não ficou dentro das caixas à espera de ser recuperado pela Polícia…

Entretanto, quando se deu pelo desaparecimento do material e as coisas politicamente se complicaram, foram buscar a qualquer sítio caixas com material idêntico ao roubado e puseram-nas num barracão, simulando uma ‘devolução’.

Assim se explica que tenha aparecido uma caixa a mais.

Essa caixa veio de onde?

De um paiol militar, supostamente, pois eram munições de armas militares.

Ora, o normal é que as outras tenham vindo do mesmo sítio.

E o compasso de espera em Santa Margarida pode ter que ver com isso.

É tempo de rever o que tem sido escrito sobre Tancos.

O roubo, em minha opinião, foi feito ao longo do tempo (e não de uma vez só) por um grupo que atua no tráfico de armas, com cumplicidades no interior da base.

As armas tinham à partida destinatário e desapareceram logo.

Quando a vozearia nos media subiu de tom, com o assunto a não sair da agenda, resolveram simular uma ‘recuperação’ das armas para calar os políticos.

Estas armas só poderiam vir de outro paiol militar, visto serem armas de guerra.

Mas quem fez a devolução teve o azar de devolver uma caixa a mais, levantando naturais suspeitas.

Finalmente, a PJ foi a Santa Margarida, talvez com a suspeita de que as armas ‘recuperadas’ tivessem vindo de lá – mas foi impedida de entrar.

Dito isto, só resta saber quem deu a ordem para esta farsa.

Quem mandou buscar as armas a outro paiol, colocá-las num barracão e telefonar a indicar o local.

Foi o diretor da PJM, por não ser capaz de decifrar o enigma do desaparecimento em Tancos e pretender assim sacudir a água do capote e resolver o problema?

Foi o ministro da Defesa, para ver se arrumava o assunto que começava a ser politicamente muito incómodo, sobretudo pela insistência de Marcelo Rebelo de Sousa?

Foi o próprio António Costa, pelas mesmas razões?

Esta última hipótese parece-me difícil, pois, a saber-se a verdade, isso significaria o seu fim.

No máximo, Costa dispôs-se a ‘fechar os olhos’.

Assim, o principal suspeito é mesmo o então ministro da Defesa – pois os militares dificilmente atuariam sem uma cobertura superior.

Os militares respeitam a hierarquia e não executariam uma manobra destas sem receberem ordens de cima, direta ou indiretamente.

Mas isto é só uma hipótese.

Quanto ao resto, tenho praticamente a certeza de que o material roubado não é o mesmo que foi ‘recuperado’ – e que as coisas se passaram como as descrevi.

Procurem bem e encontrarão.