Opiniao

«Pois gente que tem…»

Este mural cita um excerto de um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen: «Pois gente que tem / o rosto desenhado / por paciência e fome / É a gente em quem / um país ocupado / escreve o seu nome».

E, nesse mesmo poema, Sophia afirma sobre «Esta gente»: «Ora me lembra escravos / Ora me lembra reis». E assim porque todas as pessoas poderiam ser escravas ou reis, porque cada um de nós pode sentir-se aprisionado ou sentir-se livre, não fora as condições em que se nasce e as circunstâncias da vida que empurram as pessoas para situações de que, muitas vezes, não conseguem escapar.

É preciso, ainda, ter em consideração o momento histórico em que Sophia escreveu o poema. Escrito antes do 25 de Abril, Sophia anseia por «um país liberto», «uma vida limpa» e «um tempo justo», o que veio a acontecer e possibilitou que todos pudéssemos, livremente, expressar os nossos pensamentos e ser aquilo que gostaríamos de ser. Infelizmente, o «tempo justo» não chegou a acontecer, porque a vida, em si mesma, não é justa, não garante que todos vivam com condições dignas. Muito há ainda a fazer, mesmo que o País permita já a liberdade.

E o rosto pintado neste mural, no Parque da Saúde, em Lisboa, é o de uma pessoa desenhada «por paciência», um rosto de alguém resignado, que olha o passado, sem grande esperança no futuro, talvez porque o seu passado lhe traga ainda as recordações que a alimentam no presente. E, como escreveu Lobo Antunes: «Envelhecer é ficar cheio de ontens».

Mas, como diz Miguel Torga: «nenhum fruto pode dar o que a semente promete», nenhum produto acabado pode conter a esperança de algo por nascer. Cada nova vida é, pois, uma esperança, sempre mais «limpa», mais clara, mais viva. Cada nova criança que nasce renova em nós a esperança de sermos melhores e de darmos um melhor futuro aos que nos sucedem, cada nova geração pode, à partida, fazer sempre mais e melhor.

Talvez seja por isso que temos filhos, para que possamos ter esperança de o mundo vir a ser melhor. E talvez porque, assim, não nos sintamos sós. Como disse Jorge de Sena: «Nasceu-te um filho. Não conhecerás, / jamais, a extrema solidão da vida».

E é essa sensação de não estar só que renova a esperança de, a cada dia, vivermos o presente de forma plena e total, porque, como conclui Lobo Antunes: «Posso estar cheínho de ontens até cima mas haverá sempre aquele hoje a adoçar-me os dias». É com esta certeza que continuamos, mesmo sem saber para onde. E agora?

 

Maria Eugénia Leitão