Opiniao

População: salve, Penamacor!

Nascem poucas crianças, como as estatísticas comprovam, e a vinda de estrangeiros até é bem abençoada pelo Governo que a vê como uma das medidas possíveis para corrigir esta situação

Outro dia vi na televisão um programa bem interessante sobre Penamacor, onde cerca de 10% da população do concelho é estrangeira. Não os fui contar, mas que são já muitos isso não há qualquer dúvida. 

Este tema veio de encontro a uma preocupação que tenho desde há muito: a natalidade em Portugal (ou, melhor dizendo, a falta dela). Nascem poucas crianças, como as estatísticas comprovam, e a vinda de estrangeiros até é bem abençoada pelo Governo que a vê como uma das medidas possíveis para corrigir esta situação - que poderá ser desastrosa a prazo para Portugal.

 Há uns anos, a propósito da evolução da população em França, vi um curioso artigo em que comparava a evolução da natalidade entre países europeus e muçulmanos. 

As diferenças eram abissais - no estilo de 1,2 para 4. Lembrei-me disto por causa de Portugal. Com uma taxa de natalidade entre 1,2 e 1,3, não surpreende que se diga que, dentro de duas gerações, a população portuguesa diminua cerca de 15-20%. Com a agravante de, como reflexo disso, a população envelhecer, com todas as consequências sociais inerentes - como já comprovam as estatísticas do INE, com reduções na população na idade ativa e nos jovens, e com aumento dos idosos. 

 

Outra das consequências óbvias é esta: enquanto em 1974 haveria entre 5 e 6 trabalhadores no ativo por cada pensionista na Segurança Social, hoje o rácio será cerca de um trabalhador e meio a descontar para cada pensionista (entre invalidez, velhice e sobrevivência), o que põe em risco a sustentabilidade do sistema de reformas dos trabalhadores portugueses.

Os estudos publicados referem que em 2051 seremos cerca de 8,4 milhões, ou seja, menos que em 1950! Assim, vai haver muito menos gente no mercado do trabalho. Mas não vejo este Parlamento de maioria de esquerda a preocupar-se com o assunto. Pelo contrário, soube que há escassas semanas o CDS apresentou diversas medidas de natureza estrutural visando exatamente corrigir estes rácios a médio e longo prazo, e logo estas propostas foram cortadas cerce pela esquerda, sem ser apresentada qualquer alternativa. 

 

A cegueira política sempre me confundiu, sobretudo quando colide com interesses nacionais. Para remediar a situação, o Governo pretende atrair imigrantes, sobretudo para áreas qualificadas, propondo-se regularizar a situação de todos aqueles que trabalhem em Portugal há pelo menos um ano. Parece óbvio que, se não se consegue aumentar a natalidade - porque não se criam condições para tal e/ou porque os jovens casais não se sentem ‘seguros’ para gerar em média 2 filhos -, a solução terá de ser aquela, que até quantifica em 50 mil por ano as entradas mínimas de imigrantes para estabilizar a população nos 10,4 milhões (salve Penamacor!). 

Os setores a captar para integrar esses imigrantes serão o turismo, a indústria e a agricultura. Vamos ver se o conseguem e como. Sobretudo, se serão mesmo pessoas qualificadas que tragam valor acrescentado à nossa sociedade (sobretudo vontade de se integrarem e de trabalhar), até porque a realidade mostra que muitos dos que entram se vão embora na primeira oportunidade. 

 

Donde, tenho de regressar ao Parlamento e a esta maioria claramente desalinhada com o interesse nacional - e até, como se comprova pela realidade, com o Governo que apoia. 

Será que, ao invés de criticar as propostas do CDS por serem ‘de direita’, não poderia subscrever outras ‘de esquerda’ com objetivos idênticos? 

Os nascimentos atuais são cerca de 85 mil crianças por ano, e dizem os especialistas que precisaríamos de 130 mil para o equilíbrio geracional. Estes são os factos, não são interpretações de esquerda nem de direita. Quem confunde e ilude esta realidade apenas prova a sua própria mediocridade e incapacidade de nos representar no Parlamento.

 

P. S. - o Instituto Português de Corporate Governance celebrou 15 anos! Um trabalho meritório de incentivar boas práticas de gestão que tanta falta nos fizeram nos anos mais recentes em que, sobretudo no setor financeiro, vários gestores atuaram ‘ao arrepio’ das mesmas. Sendo difícil provar o contrário, acredito que a existência de administradores de facto independentes nos conselhos de administração, bem como reguladores como os que hoje exercem essas funções, poderiam ter evitado (ou, pelo menos, atenuado) os efeitos devastadores de tais práticas. Infelizmente muitos portugueses pagaram ‘com língua de palmo’ estas lacunas, dado terem perdido, no todo ou em parte, as suas poupanças. E, nunca é demais relembrar, se não fosse a troika disponibilizar verbas para salvar alguns bancos, teria sido bem pior!