Viver para Contar

As maravilhas tecnológicas

A proliferação de armas atómicas e outras também é fruto do progresso e não é uma coisa positiva. É preciso perceber que o ‘progresso tecnológico’ e o ‘progresso humano’ não andam a par.

A VINDA PARA Portugal da Web Summit durante 10 anos provocou, naturalmente, reações desencontradas. Mesmo aqui, no SOL, Mário Ramires e Manuel Boto defenderam posições opostas. Há quem ache que o Governo e a Câmara de Lisboa pagaram demais para um acontecimento que, no fundo, funciona sobretudo como propaganda política; outros acham que o retorno é maior do que o investimento, quer em dinheiro quer em prestígio para Portugal e a sua capital.

Pondo de lado as contas de ‘deve e haver’, que não sei fazer neste caso - alguém sabe? -, cinjo-me a outros aspetos deste festival tecnológico.

LOGO À PARTIDA, a palavra ‘evento’, geralmente usada para designar este tipo de iniciativas, é para mim detestável. Hoje fazem-se ‘eventos’ por tudo e por nada. Multiplicam-se as feiras, as conferências, os debates, os almoços-debate, os work- shops, os lançamentos dos mais variados produtos, etc. etc., que representam quase sempre perdas de tempo. Não me lembro de uma conferência onde tenha aprendido alguma coisa com verdadeiro interesse.

Hoje os ‘eventos’, na esmagadora maioria dos casos, limitam-se a ser fontes de angariação de receitas para quem os organiza. Convidam-se meia dúzia de experts, em geral de graça - com exceção de um estrangeiro a quem se paga bem -, e depois cobra-se um dinheirão pelas inscrições. Há empresas especialistas nestas operações, que no fundo só servem para enganar os parolos.

OUTRA COISA que me levou a ‘dessimpatizar’ com a Web Summit foi o ‘desconvite’ a Marine Le Pen para participar na sessão do ano passado. Não por Marine Le Pen ou pelo interesse daquilo que ela teria para dizer. Mas porque mostrou que o organizador do ‘evento’ é um homem sem coragem, pronto a ceder a pressões. Ora, no mundo atual, uma pessoa sem coragem, sem capacidade para suportar pressões políticas ou outras, não me merece grande respeito. Assim como cedeu a esta, cederá a outras, de diferentes naturezas.

INDO AGORA à questão de fundo - as novas tecnologias -, trata-se de um tema muito sério. As novas tecnologias invadiram a nossa vida e estão em toda a parte. Enquanto eram apenas acessíveis através do computador, ainda se circunscreviam a um determinado universo. Mas quando passaram a estar acessíveis no telemóvel, foi uma verdadeira revolução. Olhamos as pessoas na rua, novas e velhas, e vão de olhos vidrados no pequeno ecrã do smartphone. Os jovens, rapazes e raparigas, passam os portões das escolas e já vêm de aparelhinho na mão, a lerem as mensagens e os emails, sem olharem para nada, indiferentes ao que os rodeia. 

Já houve atropelamentos por causa disso. E que dizer dos automobilistas que recebem e enviam mensagens enquanto conduzem? Quantos acidentes já não terão tido lugar em consequência dessa prática?

MAS O ASPETO mais grave nem será esse. Será a perda do contacto humano. As pessoas deixam de se relacionar umas com as outras para só o fazerem através das máquinas. Perde-se o contacto físico - que, no limite, começa a ser visto como ‘repugnante’. Os meninos já não devem beijar os avós porque isso pode provocar-lhes repulsa e traumatizá-los… Os contactos físicos são vistos com suspeita. Para que sociedade caminhamos? Um dia, Clara Pinto Correia escreveu uma crónica que me impressionou muitíssimo: uma colega que ia fazer uma autópsia congratulava-se com o facto de ir ter contacto físico com uma pessoa, embora fria e morta. Porque os contactos entre os humanos eram cada vez mais raros. 

Ora a Web Summit e outras feiras do género contribuem exatamente para o afastamento dos seres humanos uns dos outros e da natureza. E com isso teremos uma sociedade cada mais mecanizada, mais tecnocrática, mais impessoal, mais fria, mais egoísta, mais desumanizada. 

DIR-SE-Á QUE ISSO é inevitável, porque representa o ‘progresso’. Só que o progresso nem sempre é bom. A proliferação de armas atómicas e outras também é fruto do progresso e não é uma coisa positiva. 

É preciso perceber que o ‘progresso tecnológico’ e o ‘progresso humano’ não andam a par. Contribuindo poderosamente para o progresso tecnológico, as web summits deste mundo contribuem também, ao mesmo tempo, para a desagregação e destruição das sociedades humanas. 

E aqui têm três razões pelas quais a Web Summit, trazida para Portugal pela direita e adotada pela esquerda, não me suscita grande simpatia. E muito menos sou capaz de experimentar o entusiasmo quase histérico que provoca em certos meios.