Opiniao

Setúbal dos meus encantos…

«Setúbal dos meus encantos/Minha terra de eleição/Onde me ficaram tantos/ Pedaços do coração!».

Foi de propósito que escolhi este poema da autoria de António Marques Crispim, meu antigo professor no então Liceu Nacional de Setúbal, para homenagear não só o autor como a cidade onde vivi toda a minha infância e adolescência. 
Falar de Setúbal é reviver um passado recheado de recordações que jamais se apagarão da minha memória. Isto vem a propósito de um fim de semana recente em que lá fui tratar de assuntos familiares ainda pendentes e que despertou em mim o desejo de hoje vir partilhar com todos algumas lembranças de outros tempos que me marcaram e que me é sempre grato recordar.

Já conhecia aquele local quando passeava a pé com a minha mãe, após o meu pai ter partido - mas desta vez vi nele, nem sei porquê, para além de muitos melhoramentos, qualquer coisa de diferente que me fez ‘tremer’. Mal cheguei à zona ribeirinha, agora recuperada, lembrei-me das visitas domiciliárias que o meu pai fazia para aquelas bandas, já lá vão muitos anos, e nada daquilo era assim. 
Quantas vezes o acompanhei e fui depois com ele à farmácia comprar os medicamentos, pois muitos doentes não tinham posses para os adquirir! É bom que os meus colegas mais novos vejam no exemplo dos mais velhos como é importante manter esse serviço. 
Um médico tem de estar preparado para atuar onde for preciso, inclusive no domicílio do doente. Faz parte da essência da nossa profissão, e de nada adianta tentar esconder essa realidade, pois a vida prova-nos que é fundamental continuar nesse caminho. Hoje em dia luta-se muito contra a falta de tempo e de médicos nos locais onde são precisos. Pelo excesso de trabalho, as visitas domiciliárias vão ficando para trás, pois o tempo quase não chega para cumprir ‘serviços mínimos’… Aqui fica de novo mais esta chamada de atenção a ter em conta na tal reestruturação do Serviço Nacional de Saúde de que toda a gente fala mas, infelizmente, ainda está por fazer.

A zona ribeirinha da cidade tem um enquadramento fantástico: o rio ao pé de nós, com a nova praia fluvial, a Troia ao fundo, a Serra de Arrábida e o velho castelo de S. Filipe em frente, árvores e relvados convidando ao descanso ou a um passeio a pé (como nós, médicos, passamos a vida a recomendar). 
Caminhar em terreno plano é fundamental para a promoção da saúde e prevenção de certas doenças, e é com agrado que registo o empenho das autarquias (hoje muito sensibilizadas para o problema) na criação destes espaços de interesse público.
Quem, como eu, conheceu aquela zona há tantos anos, quando nada existia, e a vê agora, não pode deixar de se congratular e de felicitar a autarquia na pessoa da sua presidente, Dra. Maria das Dores Meira, pelo excelente trabalho realizado, cumprimentando-a afetuosamente com os meus mais sinceros parabéns!

Ao contemplar o Sado (onde cheguei a ter aulas de natação), que naquele dia me pareceu ainda mais azul, veio-me à memória o poema do meu saudoso amigo Laureano Rocha cuja letra diz bem da beleza e do fascínio por esse rio azul: «Onde é que existe um rio azul igual ao meu?/ E nalguns dias tem a mesma cor do céu/ Minha cidade é um presépio, é um jardim…».
Acresce ainda a existência naquela ponta da cidade de numerosos restaurantes que nos oferecem a tão necessária ‘comida saudável’, em especial o peixe fresco, que nós insistentemente tentamos incutir nos doentes de todas as idades, em especial nos mais novos. 
Com o devido respeito por outros tipos de alimentação, é preciso ter cuidado com a chamada fast food nos adolescentes. As doenças do colesterol combatem-se em primeiro lugar com uma dieta alimentar, são mais graves nos jovens e não param de aumentar. Depois vêm as consequências, por vezes irremediáveis, e algumas evitáveis.
Sei que sou suspeito nesta questão, mas recomendo vivamente um passeio a Setúbal, com uma visita à zona ribeirinha, onde terão um local acolhedor à vossa espera - e que por certo não irão esquecer.
Fazendo minhas as palavras da quadra final do poema com que iniciei o artigo, também eu me revejo nas emoções de quem o escreveu: «Setúbal terra querida/ Onde eu um dia vivi/Anos bons da minha vida/Ai como eu gosto de ti!».