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Nem uma mulher na equipa de transição de Bolsonaro

Entre os 28 escolhidos pelo presidente eleito está o deputado eleito Julian Lemos, que tem três queixas por agressão à ex-mulher e irmã


Simbologia deste tempo: a Avenida da Legalidade e da Democracia, em Porto Alegre, recuperou o seu anterior nome, depois de uma longa batalha na justiça. Vai voltar à denominação que lhe deram em 1973: Avenida Presidente Castello Branco, nome do primeiro chefe de Estado da ditadura militar.

Pouco tempo depois da mudança, a vereadora de Porto Alegre Mônica Leal e três oficiais na reforma posaram para a fotografia sorridentes e abraçados junto à nova placa que sinaliza uma das principais entradas na capital gaúcha. Mônica Leal, apoiante de Bolsonaro, escreve no Facebook que se tratou do fruto do trabalho do “grupo que esteve unido desde o início do projeto”.

Humberto de Alencar Castello Branco foi o presidente de uma nova era no Brasil, logo a seguir ao golpe militar de 1964, que marcou o fim do multipartidarismo e a criação de uma polícia política para perseguir, prender, torturar e matar opositores. O seu regresso agora, depois de uma decisão judicial que nem o próprio advogado que a defendeu, o general Hegel Pereira Britto, acreditava muito que pudesse ser-lhe favorável, de acordo com as suas declarações à revista “piauí”, mostra como o Brasil mudou muito, ao ponto de ter eleito um deputado que sempre defendeu a memória da ditadura militar brasileira como presidente do país.

A legalidade e a democracia são substituídas pelo primeiro general da ditadura, como se fosse um guião de orientação viária do novo governo que aí vem, liderado por Jair Bolsonaro.

Governo de transição Bolsonaro que, entretanto, já escolheu 28 pessoas para a equipa de transição encarregada de coordenar com o atual executivo de Michel Temer a transferência de dossiês para o novo governo, que toma posse em janeiro. E tal como no governo de Temer, que não tinha uma única mulher quando foi nomeado, também nesta equipa do presidente eleito não há vozes femininas. Nem plural, nem singular: nem uma.

São todos homens e entre eles está Julian Lemos, vice-presidente do PSL, o partido de Bolsonaro, deputado eleito pela Paraíba, três vezes acusado de agressão à ex-mulher e à irmã, numa delas preso em flagrante, depois de a agredir fisicamente e ameaçar com arma de fogo em 2013, conta a “Folha de S. Paulo”. Lemos, coordenador da campanha de Bolsonaro no Nor-deste (onde o deputado federal perdeu em todos os estados), acabaria por ver o caso arquivado porque a ex-mulher, Ravena Coura, afirmou em tribunal que já lhe tinha perdoado,

Em 2016 reincidiu no comportamento agressivo e a ex-companheira voltou a apresentar queixa na polícia, afirmando que Lemos “é uma pessoa muito violenta” e que a tinha ameaçado de morte. Meses depois haveria de recuar novamente na palavra dada e manifestado na audiência vontade de desistir da queixa.

A irmã, Kamila, denunciou também o irmão por violência, depois de ter sido agredida quando tentou interferir numa discussão entre Julian Lemos e a ex-mulher (tendo sido inclusivamente arrastada pelo pescoço). Os advogados do deputado eleito apresentaram a declaração da ex-mulher em defesa do arguido mas, diz a “Folha”, o juiz decidiu que pretende ouvir Ravena Coura no tribunal. O vice-presidente do PSL negou as acusações ao jornal, garantindo que “nunca” agrediu, “nunca, nunca”.

Lemos está integrado na equipa liderada por Onyx Lorenzoni, o futuro ministro da Casa Civil, que entretanto foi formalmente nomeado ministro extraordinário por Temer, para poder ter acesso aos dados do governo e ao local das reuniões, o Centro Cultural Banco do Brasil.