Opiniao

Haja um pouco de humildade

Os brasileiros estavam equivocados, não entendiam nada do que estava a passar-se, e os portugueses é que percebiam. 

Acompanhei as eleições presidenciais brasileiras entre divertido e estupefacto.
Não ouvi nenhum comentador elogiar Bolsonaro – e ouvi muitos chamarem-lhe todos os nomes: fascista, racista, machista, misógino, indivíduo desqualificado, sem a mínima categoria.
O que não se percebia, ouvindo os comentários, era o porquê de Bolsonaro liderar todas as sondagens (o que acabaria por se confirmar nas urnas).
O papel dos comentadores políticos não é propriamente darem as suas opiniões – é explicarem às pessoas o que se passa.
Mostrarem-nos a razão de ser dos acontecimentos.
Neste caso, interessava-nos pouco saber o que pensava este ou aquele comentador – o que importava é que nos explicassem o sucesso de Bolsonaro, independentemente de gostarem mais ou menos dele.
Era levarem-nos a perceber como um indivíduo com aquelas características se perfilava como o favorito à vitória nas eleições brasileiras.
Ora, a este respeito, os comentadores não explicaram nada.
E no dia das eleições, depois de conhecidos os resultados, em vez de os tentarem interpretar, apareceram vestidos de luto, de cara fechada, dizendo que o Brasil tinha praticamente acabado.  

Ridículo!

Mas os jornalistas, de uma forma geral, também não fizeram bem o seu trabalho.
Como notou Pacheco Pereira, os jornais e sobretudo as televisões nacionais fizeram uma cobertura pouco séria da campanha.
As manifestações contra Bolsonaro tiveram sempre cobertura mediática, as manifestações a favor de Bolsonaro foram ignoradas.
Chegámos ao ponto de ver o semanário Expresso, que ao longo dos seus 45 anos nunca tinha tomado partido numas eleições, romper essa tradição e apelar abertamente ao voto contra Bolsonaro, dando a esse ‘grito’ boa parte do espaço da 1.ª página. 
Como é óbvio, esse apelo não teve qualquer consequência. 
Nem no Brasil nem aqui – onde Bolsonaro ganhou em todas as mesas de voto.
Ou seja, a isenção do jornal foi posta em causa para nada.
E o mais surpreendente é que os seus responsáveis possam ter pensado que o seu gesto ‘heroico’ teria alguma influência no curso dos acontecimentos...
Julgar-se-ão assim tão importantes?

A propósito, causa estranheza o facto de os jornalistas e os comentadores portugueses acharem que eles é que sabiam o que convinha aos brasileiros.
Eles é que sabiam o que os brasileiros deviam fazer.
Os brasileiros estavam equivocados, não entendiam nada do que estava a passar-se, e os portugueses é que percebiam. 
Comodamente sentados nos seus sofás, a milhares de quilómetros de distância, com um mar pelo meio, os portugueses é que iam dizer em quem os brasileiros deveriam votar.
Ora, além de outras considerações, a nossa situação é tão diferente da deles que qualquer veleidade de pensarmos pelas suas cabeças representaria sempre um enorme atrevimento.
Basta pensarmos no seguinte: enquanto em Portugal há 8 assassínios por mês, no Brasil há 5.500.
Ou seja: no Brasil há 700 vezes mais assassínios do que em Portugal.
Tendo em conta que a população brasileira é 20 vezes superior à nossa, conclui-se que no Brasil há 35 vezes mais crimes violentos do que em Portugal.
Não é o dobro, nem três vezes mais, nem dez – são 35 vezes mais assassínios!
Dizem-me que as pessoas nas grandes cidades só querem viver em condomínios fechados onde há tudo – o supermercado, a cafetaria, a tabacaria – porque têm medo de levar um tiro se atravessarem a rua para ir fazer uma compra.
Ora, quando se chega a este ponto, a necessidade de segurança passa à frente de qualquer outra conjetura.
E quando um candidato promete enfrentar pelos cornos esse flagelo, mesmo que não se acredite muito no que diz, há uma grande tentação de votar nele.
É uma esperança, mesmo que ilusória.

Isto ajuda a explicar o que se passou no Brasil.
Mas longe de mim dizer se os brasileiros votaram mal ou bem.
Limito-me a registar esta questão da falta de segurança, porque é gritante.
De resto, acredito na democracia – e essa convicção passa por respeitar a vontade das pessoas que votam nos seus países. 
Até pode ser que se enganem – e isso acontece algumas vezes.
Mas não tenho a pretensão de me substituir a elas e saber como deveriam votar. 
Se tenho por vezes dúvidas sobre o que se passa na política portuguesa, como posso pretender opinar sobre a política de um país onde não vivo, onde só estive como turista, cujos problemas não sinto na pele?
Se não há a consciência do ridículo, haja ao menos um pouco de humildade!