Opiniao

A coabitação segue dentro de momentos…

O verniz estalou nas relações entre S. Bento e Belém por causa de Tancos, e dão-se alvíssaras a quem for capaz de prever o desfecho da querela, que ameaça comprometer o regular funcionamento das instituições. 

Convenhamos que não é normal o primeiro-ministro em exercício aconselhar o Presidente da República – que tem sido o ‘bombeiro de serviço’ nas suas fugas à realidade – a «ser mais contido» na sua «ansiedade», perante o mistério (adensado) à volta das armas e munições saídas à socapa dos paióis de uma unidade militar, supostamente de elite. Só faltou a António Costa prescrever um ansiolítico...  

Do mesmo modo, não era expectável que, no desfile militar comemorativo do centenário do Armistício, o chefe do Estado tivesse sentido necessidade de afirmar que «não toleraremos que se repita o uso das Forças Armadas, ao serviço de interesses pessoais ou de grupo, de jogos de poder», depois de se desdobrar em declarações aos jornalistas, repetindo sobre Tancos que «se pensam que me calam, não me calam». Com tantos recados e avisos, a quem se dirigia Marcelo Rebelo de Sousa?

Escrevemos há uma semana, nesta mesma coluna, que Tancos poderia ser uma ‘bomba’ ao retardador. Os episódios que se seguiram, vertiginosamente, nos últimos dias, reforçaram essa convicção e não auguram nada de bom. Que se segue?
É certo que não foi a primeira vez que Governo e Presidência andaram de ‘candeias às avessas’. 

Quem não se lembra do caso da CGD e da polémica contratação de António Domingues, quando o então deputado António Galamba ‘malhou forte e feio’ em Marcelo por este ter criticado o imbróglio, tomando as dores do Governo e afirmando que «está tão implicado como Centeno»?

Galamba (hoje secretário de Estado, sem nada que o recomende para o cargo) recuou depois no destempero contra Marcelo. Mas ficou a advertência, tão ao gosto de Jorge Coelho, de que «quem se mete com o PS, leva».

A crise repetiu-se agora, com outros contornos e bem mais graves do que a controvérsia em redor do finca-pé de Domingues em não entregar a declaração de rendimentos no Tribunal Constitucional, fiado numa promessa de Centeno. 
Se a coabitação institucional entre Belém e S. Bento ‘ficar em cacos’ – apesar de Costa ter tentado emendar a mão com a fantasia da «convergência» de posições –, não sobram ao Presidente muitas alternativas. 

Já se viu que querem envolver a Presidência, como se a Casa Militar estivesse a par da manobra no alegado ‘encobrimento’ da ‘devolução’ de armamento de Tancos. A revelação surgiu (por acaso?), no programa Sexta às 9, da RTP. E a bola de neve foi aumentando. Afinal, o PR sabia de tudo? Não sabia de nada? 

Com este ‘upgrade’, António Costa deslocou os incómodos para outra sede e ficou a ‘assobiar ao cochicho’, contornando as suspeitas de que estaria tão a par do memorando da PJM como o seu impagável ministro da Defesa Azeredo Lopes, que acabou demitido. Em Belém, há quem ande distraído com as curvas de popularidade e não se aperceba de algumas ‘minas’ plantadas no terreno…

No segundo tomo das memórias políticas, agora editado, Cavaco Silva teve o condão de irritar novamente as esquerdas (e o PS, em particular), o que lhe valeu ser acusado por Carlos César, em nome da confraria, de «falta de sentido de Estado», entre outros ‘mimos’ que o decoro deveria desaconselhar. Ficou-lhe mal. 

Cavaco não tem entre os seus defeitos o ser redondo no que escreve ou diz, com uma economia de palavras que contrasta com a exuberância prolixa dos nossos dias. Pode discordar-se, mas não deixa ninguém indiferente, desde os tempos em que escreveu, invocando a lei de Gresham, que «a má moeda expulsa a boa moeda». 

O texto foi publicado pelo Expresso em novembro de 2004 e, para desespero da oligarquia, continua flagrantemente atual e certeiro, ao apontar que «a qualidade dos agentes políticos tem vindo a baixar». Basta olhar para as bancadas parlamentares. Sobram os que só assinam o ponto. Ou fingem.  

As maiorias absolutas que teve como primeiro-ministro, e os dois mandatos em Belém, eleito à primeira volta, constituem para Cavaco um património único e incomum. E uma prova de que o país não está assim tão à esquerda, como se teima em apregoar. 

Mas que lhe falte ‘sentido de Estado’ por ter considerado António Costa um «mestre em gerir a conjuntura política» é algo que já se inscreve num domínio patológico. 

A propósito da charada de Tancos e das suas sequelas, Costa garantiu que o Governo será «um livro aberto». Não explicou, contudo, quantas páginas deixará em branco… 

Convenhamos, no entanto, que Cavaco exagerou ao atribuir tal ‘mestria’. Em boa verdade, quando as coisas aquecem, Costa ausenta-se e haja alguém que apague os fogos. Marcelo, por exemplo.