Opiniao

O Brasil de Bolsonaro

«Houve uma radicalização de identidade. As pessoas ficaram mais de direita, mais conservadoras, mais antifeministas».
Pablo Ortellada

A eleição de Jair Bolsonaro como Presidente da República Federativa do Brasil para o quadriénio 2019/2023 continua a provocar reações para todos os gostos.

Depois de uma campanha atípica, onde pouco ou nada se debateu em termos programáticos, onde as campanhas negativas foram ‘rainhas’, com fake news para todos os ‘gostos’ e ‘feitios’, e onde as clivagens pessoais imperaram, ‘ajudadas’ pela mistura de política com Justiça, os media do Ocidente, cultores do ‘politicamente correto’ e da parcialidade (quando corporativamente lhes convém), continuam ainda hoje a tratar a eleição e a pós-eleição do novel Presidente brasileiro como algo de incompreensível. 
Para alguns, até de repugnante. 

Jair Bolsonaro, aliás como foi visto e percebido, teve a grande maioria dos media brasileiros também contra si. Com a habitual panaceia de ‘casos’, a pretexto da liberdade de informação e de opinião. Talvez também por isso Bolsonaro fez a sua campanha essencialmente nas redes sociais, fugindo descaradamente a debates, com argumentos falaciosos de que não tinha condições de saúde para fazer uma campanha clássica, onde o esclarecimento e o confronto de programas são vitais para as opções eleitorais dos cidadãos.

Mesmo assim, com os media na sua maioria a diabolizarem-no (nuns casos diretamente, noutros indiretamente), venceu as eleições. Alguns dos seus apoiantes de dentro e de fora do Brasil, e extremistas e fundamentalistas como Steve Bannon, têm-se deliciado em ‘vender’ as extraordinárias capacidades – enquanto estrategas políticos e marketeers de excelência – da família Bolsonaro e dos seus principais apoiantes. Um case study. Mais um. 

A seguir a Donald Trump, Bolsonaro é o novo mago da política populista. O Trump dos trópicos. Um herói para a sociedade fechada, um herói para os países fechados, para os países concha. O homem que vai dar ao Brasil ordem e segurança. 

Dos seus adversários, o mais inteligente tem sido Ciro Gomes. Moderado na segunda volta da campanha eleitoral (não apoiou explicitamente o candidato do PT, porque não esquece a traição de Lula da Silva), não entrou na cruzada ridícula que o PT e o seu candidato derrotado iniciaram logo no dia da derrota eleitoral. Com aquela coisa estapafúrdia de pedir um minuto de silêncio pela morte da democracia brasileira e sem sequer dirigir qualquer palavra ao novo Presidente, escolhido de forma clara pela maioria dos eleitores. 

A democracia é isto. Umas vezes ganhamos, outras vezes perdemos. Mas devemos aceitar sempre os resultados. São estes tipos de clivagens que não contribuem em nada para a unidade dentro da diversidade e para o normal funcionamento das instituições do Estado brasileiro. 

Nunca fui Trump. Como não fui Charlie. Como não sou Bolsonaro. Como também tenho algumas dúvidas sobre a destituição de Dilma. Como também em Portugal a solução governativa da ‘geringonça’ não foi normal. 

Sei que a coerência é um preço caro na vida e na política. Como também sei que a voragem mediática dos tempos em que vivemos faz com que para alguns falsos moralistas o que conta muitas vezes são as mentiras que encantam e não as verdades que incomodam. Aliás, vivemos num tempo em que se tenta impor que a memória que conta é só a digital e com base no que se proclama que aconteceu no curto prazo. 

Tudo isto faz da eleição de Jair Bolsonaro uma eleição contra o politicamente conveniente, contra o que algumas ‘corporações’ (também mediáticas) não queriam que acontecesse, contra alguns interesses de grupos económicos, sociais e culturais, e até de minorias que nos últimos anos têm conseguido (mérito das mesmas) que as suas agendas sejam concretizadas. 

O Brasil é demasiado importante para Portugal, para a CPLP e para a lusofonia, para continuarmos a olhar para esta eleição como um retrocesso da democracia brasileira. A esquerda portuguesa, sobretudo a folclórica e panfletária, não deve continuar com a sua soberba a dizer coisas do género de que os brasileiros que em Portugal votaram e deram a vitória a Bolsonaro deveriam ser expulsos de Portugal. 

As expectativas sobre o exercício presidencial são grandes. Umas negativas, outras positivas. Considero fundamental que a República Federativa do Brasil seja um país que no plano internacional não se aliste do lado dos países que cultivam politicas contra os imigrantes, com recurso ao securitarismo e às falsas soluções de países concha, alimentadas pelo efeito papão. 

Para além de desejar que, com a nova presidência brasileira, exista um forte empenho do Brasil na lusofonia e na CPLP, sem ser apenas pela defesa e valorização da língua portuguesa. Mas também pela importância do reforço da cooperação económica, social e cultural. 

É que o Brasil tem andado – e mal – de costas voltadas para a CPLP. Um erro em que não deve persistir. O Brasil de Bolsonaro não deve ser o Brasil apenas da ordem e da disciplina. Tem de ser um país à altura da sua responsabilidade histórica de grande potência do Hemisfério Sul, que não se deve iludir pela atratividade que algumas elites económicas sentem pelos EUA de Donald Trump. É que tal é demasiado redutor para o seu povo.

olharaocentro@sol.pt