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Macron contra o nacionalismo nos 100 anos do Armistício

"O patriotismo é o exato oposto do nacionalismo", disse o presidente francês aos 60 líderes mundiais presentes na cerimónia dos 100 anos do fim da Grande Guerra

Mais de 60 chefes de Estado e outros dignitários reuniram-se ontem à chuva em Paris para assinalar o Armistício da I Guerra Mundial e Emmanuel Macron aproveitou a ocasião para alertar sobre o renascimento dos “velhos demónios”. Com Donald Trump e Vladimir Putin na primeira fila, o presidente francês garantiu que o “patriotismo é o exato oposto do nacionalismo. O nacionalismo é a sua traição”.

Apelando aos seus pares para que resistam “ao fascínio pela retirada, pela violência e a dominação”, Macron fez o elogio da união como força: “Juntos, podemos afastar essas ameaças que são o espetro do aquecimento global e a degradação da nossa natureza, a pobreza, a fome, a doença, as desigualdades, a ignorância”.

Depois do discurso, falando aos jornalistas, o chefe de Estado francês mostrou-se satisfeito pela quantidade de altos dignitários presentes no Arco de Triunfo para assinalar a paz depois da guerra que deveria ter acabado com todas as guerras. Mas como serão vistas essas imagens no futuro? “Símbolo de um paz duradoura? Ou o último momento de unidade antes do mundo cair na desordem?”, questionou Macron. “Depende de nós”, acrescentou.

“Os velhos demónios estão a ressurgir. Por vezes, a História  ameaça retomar o seu curso trágico e comprometer a nossa esperança de paz. Vamos comprometer-nos a dar prioridade à paz sobre todas as coisas”, acrescentou o chefe de Estado, num discurso lúgubre sobre o futuro a que a chuva a cair sobre Paris durante a cerimónia garantia o adequado contexto.

“Cem anos depois de um massacre cuja cicatriz ainda é visível na face do mundo”, com o seu cortejo de 18 milhões de mortos, Macron apelou “a que esta reunião não se fique apenas por um dia” e que possa ajudar a reforçar a união. Como “a amizade forjada entre Alemanha e França”, como a “União Europeia, uma união livremente consentida como nunca se tinha visto na História e que nos livrou das nossas guerras civis”.

“Construamos as nossas esperanças em vez de jogarmos os nossos medos uns contra os outros”, disse Macron aos líderes presentes, onde não estava a primeira-ministra britânica, Theresa May, que ficou em Londres para assistir a uma cerimónia sobre o centenário do Armistício com a rainha Isabel II.

No Twitter, Trump elogiou ontem a “bonita cerimónia” e agradeceu a Macron num tom bem diferente do tweet que escreveu na sexta-feira, comentando uma entrevista do líder do Eliseu: “O presidente Macron da França sugeriu que a Europa crie o seu próprio exército para se proteger dos EUA, China e Rússia. Muito insultuoso, mas talvez a Europa deva antes de mais pagar a sua justa quota parte da NATO, que os EUA subsidiam enormemente!”

O bromance entre Macron e Trump do princípio do mandato dos dois parece morto e enterrado, como deu para notar no almoço no palácio do Eliseu que Macron ofereceu aos altos dignitários presentes. A primeira página do “Journal du Dimanche” de ontem trazia na manchete a pergunta “Por que nos ameaça Trump?”. Enquanto o “Le Monde” continuava a publicar a sua série sobre o cada vez maior afastamento transatlântico.

Sinal disso, na altura em que Macron, a chanceler Angela Merkel e o secretário-geral da ONU, António Guterres, inauguravam o Fórum da Paz de Paris, Trump estava numa cerimónia no pequeno cemitério americano de Suresnes, vendo-se a Torre Eiffel à distância.

O presidente dos EUA foi muito criticado por ter cancelado, no sábado, a visita ao memorial e cemitério americano de Aisne-Marne, alegando que o mau tempo impedira o helicóptero de levantar voo. O local fica apenas a uma hora de carro de Paris e o tempo não estava assim tão mau dizem os críticos, inclusivamente entre os republicanos.

“É incrível que o presidente viaje até França neste aniversário significativo e depois fique no seu hotel a ver televisão em vez de prestar pessoalmente o seu respeito aos americanos que perderam a vida em França para a vitória conseguida há 100 anos”, escreveu no Twitter David Frum, comentador político e antigo escritor de discursos do presidente George W. Bush.