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Faixa de Gaza. Escalada é a mais intensa desde a guerra de 2014

Nos últimos três dias, Israel bombardeou mais de 100 posições na Faixa de Gaza e o Hamas disparou mais de 400 mísseis contra os israelitas

A tensão na Faixa de Gaza entre as forças armadas israelitas e o Hamas não pára de escalar. Nos últimos três dias, a força aérea israelita bombardeou mais de 100 posições na Faixa de Gaza, enquanto o Hamas disparou mais de 400 mísseis. Pelo menos 14 palestinianos e um israelita já perderam a vida desde que um comando israelita avançou, no domingo, com uma operação encoberta, matando um comandante do movimento palestiniano. Pelo menos 20 israelitas ficaram feridos na cidade costeira de Ashkelon com o escalar da tensão. Ontem, o Hamas garantiu que aceitaria um cessar-fogo se Israel também o aceitasse, segundo a Reuters.

Tudo começou quando um comando israelita entrou na Faixa de Gaza e foi detetado num posto de controlo do Hamas. Descobertos, os militares israelitas abriram fogo, matando um comandante e outros seis militantes. A operação, explicou um general de reserva à “BBC”, teria provavelmente o objetivo de recolher informações. Na operação, um tenente-coronel israelita, M, assim identificado por Telavive, e um comandante do Hamas e outros seis militantes perderam a vida. A resposta do Hamas, considerado terrorista pela União Europeia e Estados Unidos, não se fez esperar. Foram lançados mísseis contra território israelita. 

Num jogo de olho por olho e dente por dente, a força aérea israelita começou a bombardear a Faixa de Gaza, destruindo infraestruturas usadas por civis palestinianos. Seguiu-se o lançamento de mísseis de longa distância pelo movimento palestiniano, conseguindo alcançar as cidades de Ashdod e Be’er Sheva. O sistema antimísseis israelita conseguiu destruir a maioria. 

É a maior escalada entre Israel e o Hamas desde a guerra de 2014, que vitimou 2251 palestinianos, segundo as Nações Unidas, e 67 soldados e seis civis israelitas, de acordo com Telavive. 

“Não conseguimos dormir a noite inteira [segunda para terça-feira] por causa de explosões que abanavam quase todos os bairros da Faixa”, disse Dina Asaad, de 27 anos e residente em Gaza, ao Middle East Eye. “Isto tudo parece-se muito com o início dos três ataques [as guerras de 2009, 2012 e 2014], com um a ter começado com o assassinato de um líder do Hamas”.

Há meses que Israel e Hamas têm medido forças, com este último a lançar mísseis em retaliação pela morte de manifestantes palestinianos desarmados na fronteira com Israel nos protestos de sexta-feira. Desde que os protestos da Grande Marcha de Regresso começaram há sete meses, assim denominados em memória pelo êxodo palestiniano de 1948, data da independência de Israel, mais de 200 palestinianos, incluindo médicos e jornalistas, foram mortos por militares israelitas, a que se acrescenta quase 20 mil feridos.

A escalada dos últimos dias veio deitar por terra as esperanças de sucesso das negociações para um cessar-fogo mediadas entre o Egito e as Nações Unidas. As negociações, ainda que sem alcançarem o objetivo principal, tinham conseguido que Israel permitisse a entrada de 15 milhões de dólares doados pelo Qatar à Faixa de Gaza - para que a autoridade palestiniana pudesse pagar aos funcionários públicos, que durante meses apenas receberam uma fração dos salários - e a entrega de combustível para alimentar a central elétrica palestiniana. Há meses que a Faixa tinha falta de energia, com os seus residentes a terem eletricidade por algumas horas ao dia. 

Numa tentativa diplomática para desanuviar a tensão, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou ontem a ambos os lados para que tenham “máxima moderação” e que a organização está, através do seu coordenador especial, Nickolay Mladvenov, a trabalhar “estreitamente com o Egito e com todas as partes envolvidas para restaurar a calma”. 

A escalada é também um sintoma do estado do processo de paz israelo-palestiniano. Há anos que as negociações de paz estão estagnadas, mas a transferência da embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém, encarada como fundamental para um eventual Estado palestiniano, Washington, deu o beijo de morte final ao processo. Se antes os EUA dificilmente eram encarados como um moderador imparcial, agora deixaram definitivamente de o ser sob a presidência de Donald Trump. Para os palestinianos, o objetivo dos EUA não é o de desempenhar o papel de mediador imparcial, mas o de garantir a segurança nacional de Israel. “Com todas as suas decisões, o governo norte-americano retrocedeu em todos os compromissos antes assumidos pelo seu país e pôs inclusivamente em perigo a solução de dois Estados”, afirmou o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, na Assembleia-Geral da ONU no final de setembro.

Não obstante, Washington tem reafirmado a sua intenção de avançar com um novo processo de paz e, com ele, apresentar um novo plano, que deverá ser apresentado no início de dezembro - isto é, se Trump cumprir o prazo de dois a quatro meses que anunciou em setembro.