Opiniao

Resolver um enigma com 600 anos

Com uma curiosa conjugação de texto e imagens de botânica, astrologia e alquimia, há séculos que o Manuscrito Voynich fascina e desafia quem o conhece.

No meu último aniversário recebi de presente um livro que é também um enigma. Trata-se de uma reprodução integral do Manuscrito Voynich - um manuscrito do século XV que se encontra na Biblioteca Beinecke de Livros Raros e Manuscritos, da Universidade de Yale (EUA) -, acompanhada de alguns textos de especialistas sobre o assunto.

A minha edição abre como um policial de Agatha Christie. Na primeira página aparece a foto de um envelope com estas palavras: «Não abrir antes da minha morte». Trata-se de uma missiva deixada por Ethel Voynich em 1930, em que esta descreve como o marido, o livreiro Wilfrid M. Voynich, morto nesse ano, adquiriu aquele que é considerado ‘o manuscrito mais misterioso do mundo’: «O manuscrito cifrado foi comprado com outros manuscritos por W. M. Voynich, em ou por volta de 1911. Era propriedade do Vaticano e estava (num castelo?) em Frascati. O intermediário através de quem ele abordou as autoridades do Vaticano foi o padre jesuíta inglês Joseph (?) Strickland, que tinha, penso eu, alguma ligação a Malta».

O enredo pode parecer fantasioso, mas não andará longe da verdade. Wilfrid Voynich era, de resto, ele próprio um aventureiro e dono de um enorme magnetismo pessoal. Nascido em 1864 na Lituânia, no seio de uma família polaca, estudou em Moscovo e esteve preso na Sibéria durante cinco anos no reinado do último czar por causa da sua atividade política. Refugiou-se em Londres, onde viveu na miséria até que um amigo lhe sugeriu que se dedicasse a negociar livros antigos. «Não há nada mais fácil. Só tens de viajar e apanhar incunabula e livros raros, e vendê-los em Londres». Como Voynich era um homem culto e viajado, tinha uma memória prodigiosa e sabia várias línguas (havia quem dissesse que dominava vinte idiomas), a atividade assentou-lhe como uma luva.

Com uma curiosa conjugação de texto e imagens de botânica, astrologia e alquimia, há séculos que o Manuscrito Voynich fascina e desafia quem o conhece. Pertenceu a figuras ilustres como Rudolfo II, o imperador romano-germânico que cultivou as artes, as ciências e a alquimia na sua corte de Praga, ou o jesuíta Athanasius Kircher, um dos mais famosos polímatos do século XVII. Escrito numa língua que ninguém consegue identificar, muitos tentaram decifrá-lo, e alguns quase enlouqueceram nessa ingrata tarefa. Aparentemente, o Manuscrito Voynich não se deixa penetrar pelo intelecto humano. 

Há dias, porém, falei com um amigo e ele, tendo pesquisado sobre o assunto, enviou-me um link para um vídeo do YouTube segundo o qual Ahmet Ardic, um engenheiro eletrotécnico, comparou o texto original com a língua turca antiga e conseguiu interpretar vários trechos. A interpretação tem sido considerada «credível».

Disse ao meu amigo que veria o vídeo com atenção, mas tenho vindo a adiar esse momento. Pensando bem, tendo o documento uma história tão rica, o que lá está escrito nem é assim tão importante.