Internacional

Acordo que May assinou com Bruxelas abre nova crise dentro do governo

Nem com seis demissões no executivo a primeira-ministra voltou atrás na defesa do acordo do Brexit. "Não haverá segundo referendo", diz

O Reino Unido está numa encruzilhada política e no centro está o acordo do Brexit assinado pela primeira-ministra britânica, Theresa May. A líder conservadora defendeu que o acordo alcançado com Bruxelas para a saída do Reino Unido da União Europeia “cumpre as prioridades do povo britânico”, garantindo que irá lutar por ele “com todas as forças”.

Entre palavras de desafio e de apelo aos parlamentares para se unirem em torno do acordo, May descartou taxativamente a realização de um segundo referendo: “No que me diga respeito, não haverá um segundo referendo”. E, argumentou, se os deputados votarem contra o acordo, estarão a “conduzir o país para a incerteza” e terão de se responsabilizar perante os eleitores.

Um dia depois do seu gabinete ter aprovado o acordo, Londres voltou a ficar imersa numa crise política. Seis membros do governo apresentaram a sua demissão por discordarem dos termos do documento assinado com Bruxelas. O primeiro a fazê-lo foi Dominic Raab, o ministro para a Saída da União Europeia: “Não consigo conciliar os termos do acordo proposto com as promessas que fizemos ao país”, escreveu na carta de demissão.

Ao longo da manhã de hoje, Esther McVey, ministra do Trabalho e das Pensões, Suella Braverman, secretária de Estado para o Brexit, e Shailesh Vara, secretário de Estado da Irlanda do Norte, seguiram os passos de Raab. Os deputados Ranil Jayawardena e Anne-Marie Trevelyan, nomeados para fazer a ligação entre o governo e o parlamento também apresentaram a demissão. “O governo está a desmoronar-se à nossa frente  e, pela segunda vez, o ministro do Brexit recusou apoiar o plano da primeira-ministra”, disse o ministro sombra trabalhista para o Brexit, Jon Trickett. 

Em causa estão as 585 páginas do acordo técnico com Bruxelas. Neste, o Reino Unido manter-se-á no mercado comum com as regras europeias por um período de transição de 21 meses, podendo ser indefinidamente prologado “até 31 de dezembro de 20XX”, e numa união aduaneira temporária com a UE até nova solução ser encontrada. Ficando impedido de fazer acordo comerciais com outros países - um dos principais argumentos e desejos dos apoiantes do Brexit.

Quanto à fronteira da Irlanda do Norte, um dos temas mais sensíveis, terá um tratamento aduaneiro diferenciado com “alinhamento total” com as regras europeias.

May manteve-se firme na defesa do documento, arriscando o seu capital político que pode estar por um fio. O líder da fação conservadora pró-Brexit, Jacob Rees-Mogg, entrou hoje com um pedido de moção de confiança ao Comité 1922, espécie de gabinete de apoio à liderança conservadora. Chamam-lhe um golpe, mas Rees-Mogg diz que “um golpe é quando se usam procedimentos errados”, o que está em causa é o fracasso de May em conseguir um bom acordo: “Isto não é o Brexit. É um falhanço do governo”. Por isso, é preciso “mudar de líder”. 

O acordo dificilmente passará no parlamento, onde May não tem apoio suficiente. Segundo uma simulação do “Guardian”, apenas 224 deputados apoiam a primeira-ministra, quando são necessários 320. Se o acordo for chumbado, Londres ficará sem opções a menos de seis meses de sair da UE, a 29 de março. Para desbloquear o impasse, a imprensa britânica refere duas opções: um novo referendo sobre a saída/acordo ou eleições legislativas antecipadas. E uma cimeira do Conselho Europeu já está agendada para 25 de novembro para os líderes europeus e o governo britânico aprovarem o acordo.