Opiniao

O Exército de Tancos

Deve-se aos militares, tantas vezes com o sacrifício da própria vida, que Portugal tenha garantido a sua plena independência, afirmando-se como a Nação europeia mais antiga, atendendo-se as actuais fronteiras.

O Estado comemorou, recentemente, o primeiro centenário do Armistício, organizando um desfile militar que as autoridades governamentais, mentindo descaradamente, propagandearam como tendo sido o maior dos últimos cem anos.

Quanto muito foi o maior desde a abrilada, porque durante o Estado Novo foram várias as paradas e desfiles militares de dimensão bem mais grandiosa do que esta que agora foi levada a cabo.

Mas compreende-se esta demagogia dos nossos governantes, tendo em conta que os guardiães do regime teimam em apagar mais de quatro décadas da História, fazendo de conta que Portugal não existiu entre 1926 e 1974!

No rescaldo da apresentação das nossas tropas, um garoto bloquista, a quem os irresponsáveis do seu partido entenderam já estar dotado de maturidade suficiente para se sentar no hemiciclo de S. Bento como deputado da Nação, veio a público reclamar pelo fim deste tipo de demonstração militar, sugerindo, como alternativa, que Portugal receba os migrantes que procuram tomar de assalto vários portos europeus.

A agremiação onde milita aquele miúdo, na qual fazem carreira os burgueses trotskistas da nossa praça, os tais que apreciam os prazeres da vida que simulam desprezar, aproveitou a deixa para vir exigir o fim do Dia da Defesa Nacional.

Não é de admirar que esta esquerda totalitária se esforçe tanto em bater em tudo o que cheire a militar, considerando o seu ódio de estimação pelos valores tradicionais da civilização em que crescemos.

Na verdade as Forças Armadas confundem-se com a própria Nação, devendo-se a elas a fundação de Portugal como Estado soberano e independente.

Foram os militares que souberam, ao longo dos quase nove séculos de História repleta de feitos  e actos de bravura, preservar a integridade territorial e expandir a Portugalidade pelos quatro cantos do mundo, fazendo do português uma das línguas mais faladas no planeta e o cristianismo a religião professada por muitos dos povos dos outros continentes.

Deve-se aos militares, tantas vezes com o sacrifício da própria vida, que Portugal tenha garantido a sua plena independência, afirmando-se como a Nação europeia mais antiga, atendendo-se as actuais fronteiras.

As Forças Armadas são, assim, merecedoras de todo o respeito e consideração de todos quantos se orgulham de partilhar a Pátria de Camões.

No entanto, para nossa desgraça, o desprezo pela vida militar não é um exclusivo da esquerda radical, mas sim um sentimento que praticamente todos os políticos emergentes com a abrilada não se têm cansado de partilhar.

Quase todos os titulares da pasta que tutela a defesa, com a concordância, obviamente, dos chefes de governo de quem têm dependido, não se têm poupado a esforços para esvaziar  de competências e desprover de meios, humanos e materiais, as forças responsáveis pelo garante da independência nacional e da integridade territorial.

Não é por acaso, e esse tem sido um traço constante em Portugal, que os regimes autoritários, para sua sobrevivência, reforçem a robustez das Forças Armadas, enquanto que as democracias partidárias, igualmente com o objectivo de se perpetuarem, procurem reduzi-las à dimensão mínima.

Políticos fracos, como aqueles que a partidocracia nos tem oferecido, temem o poder militar, porque têm consciência de não estarem à altura para o desempenho das funções de enorme peso para as quais foram mandatados pelo voto popular.

Por isso a estratégia que têm seguido, nestas últimas quatro décadas, é a de enfraquecer a Instituição Militar, ferindo-a de credibilidade por via de decisões erróneas e desajustadas, que  apenas visam minar a indispensável coesão interna dos seus efectivos.

Começaram por politizar, quando não partidarizar, a cúpula da cadeia de comando, pondo fim à regra das chefias militares serem escolhidas pelos seus pares, regra essa que nem Salazar e Caetano se atreveram a ignorar, passando a nomeação dos chefes dos ramos a ser da exclusiva competência do poder político.

A simples promoção a oficial general passou igualmente a depender da confiança política de quem governa, permitindo-se, assim, que muitos desses oficiais cheguem ao topo da carreira não por mérito, reconhecido entre os seus, mas pela aproximação ideológica a quem se apropriou da faculdade de lhes oferecer essa posição.

Generais medíocres, parte considerável deles vendidos à seita do avental, têm-se passeado pelas chefias dos ramos, sabujando-se aos dirigentes partidários que chegam ao governo e satisfazendo-lhes todos os seus caprichos, com claro prejuízo para a operacionalidade das tropas e para o bem-estar dos militares.

O resultado dessa funesta apatia das chefias foi a proliferação de associações profissionais, com carácter manifestamente sindical, a quem passou a estar atribuída a tarefa de zelar pelos interesses dos seus associados, uma vez que os generais politizados se demitiram dessa responsabilidade.

Uma segunda machadada mortífera que a classe política desferiu sobre as Forças Armadas foi o fim do serviço militar obrigatório.

A primeira consequência dessa impensada medida foi a drástica redução dos efectivos, considerando que a contratação de voluntários, por um curto período de tempo e com um salário irrisório, não veio colmatar a falta de praças com que os ramos se debatem.

Sem meios humanos suficientes, as Forças Armadas de hoje resumem-se quase exclusivamente às missões internacionais, prestigiosas para o País, sem dúvida, mas escassas para a missão geral que lhes compete, desguarnecendo-se, assim, o território nacional.

A segunda consequência foi o divórcio entre os jovens e a Instituição Militar, perdendo aqueles valores e princípios que lhes eram incutidos durante o serviço militar, fundamentais para o seu crescimento como pessoas, e esquecendo a virtude do patriotismo.

Não admira, assim, que casos como Tancos, impensáveis no passado, se repitam agora, afectando o prestígio e a credibilidade com que os militares se souberam respeitar desde os primórdios da sua existência.

A primeira vez que entrei numa unidade militar, ainda bastante jovem, deparei-me com uma placa, afixada numa das principais paredes do quartel, que dizia: “O Exército é o espelho da Nação”.

E é exactamente com isso com que nos deparamos nestes tempos conturbados em que vivemos.

O Exército de Tancos é o espelho de uma Nação ferida de morte, ultrajada por gente sem escrúpulos, que governa Portugal como se de um quintal se tratasse e coloca os interesses partidários e das seitas perante as quais respondem acima do desígnio nacional.

Uma Nação outrora respeitada e temida, hoje refém dos mercados e das negociatas dos amigalhaços que se espalharam, como um polvo, por todos os centros de decisão do aparelho do Estado.

Uma Nação sem rumo, condenada a ser a cauda da Europa.