Hoje Escrevo Eu

Por São Nuno de Santa Maria

Catarina Martins e Marisa Matias: por que será que elas riem até ao infinito ou mais além?

O BE reuniu em convenção nacional no fim de semana passado. Com tempo de antena que até ao PS e ao PSD faz certamente inveja. Todas as intervenções dos atuais e de antigos dirigentes, da coordenadora Catarina Martins a Marisa Matias, de Francisco Louçã a Luís Fazenda, foram transmitidas e comentadas em direto e em diferido, cumulativamente e em todos os canais de informação.

O partido antissistema, do protesto, da causa fraturante, do não simplesmente porque não, está aburguesadamente transformado num partido de poder, dizendo-se pronto para assumir responsabilidades governativas, que é como quem diz juntar pastas ministeriais e de secretarias de Estado aos tachos já conquistados em direções-gerais e outros lugares secundários na hierarquia do Estado, seja na administração central seja na local.

Vai próspero o BE. E vê-se.

Tanto que o Avô Louçã até já cita Toy Story e fixa objetivos no «infinito e mais além» para Catarina, Marisa e companhia.

Sobre o défice, a dívida pública, a necessidade de renegociação ou de reajustamento, nem uma palavra... parece ter sido a ordem. E o não à Europa de outrora ficou-se por uma sumida recusa de casamento com o Eurogrupo na intervenção de Fazenda.

O casamento que interessa ao BE está visto qual é e é outro, porque da próxima vez tem é de haver comunhão de adquiridos e os socialistas que engulam os sapos que tiverem de engolir. 

O BE canta vitória e ri-se.

 

A verdade é que os bloquistas tiveram sorte, porque Bruno de Carvalho só foi detido no domingo à tarde, já depois de encerrados os trabalhos da Convenção de Catarina e seus camaradas.

Nada tem uma coisa a ver com a outra, como é óbvio, mas se a detenção do ex-presidente do Sporting calha a ter sido no sábado lá se tinha ido o impacto mediático da Convenção.

Que o diga Marcelo Rebelo de Sousa, cujo discurso no 1.º Encontro da Fundação Batalha de Aljubarrota, em Porto de Mós, passou despercebido à maioria dos portugueses, já que as câmaras de TV estavam todas apontadas para as portas do tribunal do Barreiro e dos postos da GNR de Alcochete e do Montijo.

Mas vale a pena ir à página da Presidência para ver e ouvir (na secção de ‘Notícias’, porque nas ‘Intervenções’ não consta quase nada).

Porque é, porventura, um dos discursos mais significativos do primeiro mandato da presidência marcelista, pela substância e pelas mensagens dirigidas ao(s) partido(s) do Governo e do que Marcelo chama de «oposições».

Marcelo é impiedoso na responsabilização do Governo pelo desaproveitamento das «oportunidades presentes e do futuro próximo» que «tão depressa não se repetirão». Nomeadamente apontando o défice no investimento público e nos incentivos do Estado ao investimento privado como causa «da falta de crescimento sustentado» da economia nacional ou da «insuficiência» desse mesmo crescimento.

 

Recorde-se que Marcelo falava na terça-feira, véspera da divulgação dos indicadores económicos da UE e dos 27 relativamente ao terceiro trimestre de 2018 - apontando estes para um abrandamento do crescimento da economia em Portugal, que regista a 5.ª taxa de crescimento mais baixa entre os 27, ainda que acima da média europeia (e isto porque a economia da Alemanha entrou mesmo em retração, pela primeira vez desde 2015, e a média da UE em referência é uma média ponderada, ou seja, pesam muito mais as economias mais desenvolvidas).

Mas se o Governo e seus parceiros, incluindo BE, ficaram com as orelhas a arder, PSD e CDS também.

Marcelo responsabiliza-os por estarem ainda presos à governação do passado e por não se afirmarem com propostas claras e alternativas quando já só faltam seis meses para o início do próximo ciclo eleitoral.

 

Dir-se-á que Marcelo fala mais a sério quando se revolta.

Foi assim no seu inesquecível discurso após os incêndios de 15 de outubro de 2017, revoltado com a incapacidade total que o Estado - e o Governo - demonstraram para evitar nova tragédia (depois de Pedrógão).

E foi assim em Porto de Mós, revoltado com os estilhaços de Tancos que o PS, o Governo e o primeiro-ministro tentaram lançar sobre ele. Marcelo não lhes perdoou. E ripostou forte, muito forte.

Só não teve outro impacto porque estava tudo entretido com Bruno de Carvalho e Mustafá - ou com os funcionários judiciais a entoarem cânticos como «Só eu sei porque estou em greve».

Mas vale a pena ouvir na íntegra (pouco mais de 20 minutos) esta intervenção do Presidente, dedicada ao futuro de Portugal, mas recordando o passado histórico de Aljubarrota e desse «líder extraordinário, D. Nuno Alvares Pereira, hoje São Nuno de Santa Maria».

Sim, porque não há motivos para rir nem podemos perder oportunidades que tão depressa não voltaremos a ter.