Economia

Sporting. Em queda Livre

A situação financeira e as polémicas em torno do clube estão a dificultar a  emissão obrigacionista. Os juros de 5,25% para vender 30 milhões de dívida não estão a ser suficientes para atrair os investidores para este produto considerado de elevado risco.

Os bancos fecharam a torneira ao Sporting e o clube foi obrigado a emitir um empréstimo obrigacionista, ou seja, um financiamento alternativo aos tradicionais empréstimos bancários. Mas a situação financeira delicada do Sporting e os riscos em torno do clube poderão comprometer o sucesso da operação que está a decorrer até ao próximo dia 22 de novembro e que tem como objetivo vender 30 milhões de dívida.

Os riscos enumerados no prospeto da emissão não deixam espaço para dúvidas. Além daqueles que são comuns neste tipo de operações - como é o caso da taxa de juro e da liquidez - há outros contornos que penalizam estas obrigações: os eventos decorridos em Alcochete que levaram à destituição do então presidente Bruno de Carvalho e à rescisão por alegada justa causa de vários jogadores, cujo impacto final dos vários processos é incerto.

«Neste momento o maior perigo para o Sporting é a falta de aconselhamento deste título para investimento por parte dos bancos, o que pode comprometer o sucesso da emissão. A pouca publicidade em relação aos outros clubes rivais é o maior risco», diz ao SOL Pedro Amorim, analista da XTB.

Um cenário que já foi reconhecido pelo administrador da SAD do Sporting, Francisco Salgado Zenha, ao garantir que o clube está a ser obrigado a reforçar a comunicação da operação. «O Sporting não está a ter o apoio a nível de comunicação, nem de comercialização dos bancos colocadores, nomeadamente dos três maiores bancos, que, tipicamente, comunicam e participam a operação e desta vez estão completamente passivos», revelou à Lusa.

O responsável admitiu que essa falta de apoio se possa dever «a decisões políticas de, se calhar, [a banca] não se querer relacionar com o futebol do Sporting», o que tem obrigado o clube a reforçar a sua divulgação. «Não sei qual o motivo, sei que, objetivamente, vejo outros empréstimos obrigacionistas que estão a decorrer ao mesmo tempo e que estão a ser publicitados e as pessoas não têm conhecimento deste. Todos os esforços de comunicação estão a ser praticamente desenvolvidos pelo Sporting, o que limita a operação», salientou.

Também para os investidores, que na sua maior parte historicamente são sócios ou adeptos do clube, há perigos. Pedro Amorim lembra que estes enfrentam o risco do fracasso da emissão - que levaria a que o clube não conseguisse cumprir os seus compromissos a curto prazo devido a falta de liquidez e causaria problemas na sua saúde financeira. «O clube tem vindo apresentar capitais negativos, e a atividade está subordinada a sucessos de natureza desportiva», diz a analista. E a isto acresce o risco da manutenção dos seus direitos de participação e da performance desportiva alcançada pela equipa de futebol, nomeadamente a possibilidade de apuramento para as competições europeias, principalmente na UEFA Champions League. «A compra e venda de jogadores também está inserida aqui nos riscos para os investidores», salienta ao SOL. 

Face a este cenário de incerteza, a Proteste Investe não aconselha os investidores a apostarem neste produto financeiro. E explica esta decisão: «Considerando as contas do exercício 2017/18, a situação financeira continua muito delicada. Com a queda nos proveitos com vendas de jogadores, os resultados líquidos foram negativos em quase 20 milhões de euros. Os capitais próprios estão novamente ‘no vermelho’, pelo que nem faz sentido o cálculo dos rácios de endividamento». E acrescenta que «os passivos correntes superam largamente os ativos correntes (rácio de liquidez corrente de apenas 0,17, quando só acima de 1 é aconselhável). Os resultados operacionais (negativos) não cobrem os custos do financiamento. A SAD está dependente da continuada boa vontade dos bancos».

Mas os problemas não ficam por aqui. A publicação chama ainda a atenção para o facto de as SAD não serem os clubes de futebol, apesar de serem controladas por eles, dando como exemplo a polémica em torno do Belenenses. «A SAD d’Os Belenenses ficou com a equipa de futebol profissional mas o clube criou uma nova equipa em escalões inferiores, impediu a SAD de usar o Estádio do Restelo e está ainda a tentar impedir a SAD de usar os símbolos do clube. É também pertinente o caso das SAD do União de Leiria e Beira-Mar, que apresentaram insolvência, mas os clubes prosseguiram a sua atividade», salienta.

Este regresso ao mercado por parte do clube leonino surge depois da Sporting SAD ter suspendido o reembolso das obrigações em 2015. E para atrair investidores acena com juros de 5,25% ao ano. O encaixe desta emissão vai servir para fazer o reembolso de uma outra emissão que vence no dia 26 de novembro. Recorde-se que a SAD aprovou, em assembleia geral de obrigacionistas, o adiamento do reembolso de uma emissão de obrigações no valor de 30 milhões de euros que vencia em maio, afetando mais de quatro mil credores.

Falta de apoio

A SAD liderada por Frederico Varandas indicou também, no prospeto, ter «já garantidos fundos próprios decorrentes da sua atividade operacional, no valor de 15 milhões de euros», referindo também que «em caso de subscrição incompleta da oferta, a Sporting SAD diligenciará junto das suas fontes habituais de financiamento com vista a obter os recursos necessários para cumprimento dos seus objetivos, designadamente mediante financiamento bancário», acrescenta.

No entanto, Pedro Amorim diz ao SOL que a recetividade destas obrigações está a ser afetada. «Os recentes envolvimentos e a detenção do chefe da claque e de Bruno de Carvalho fazem aumentar a aversão ao risco. A própria manutenção dos investidores (credores) poderá estar em risco», refere.

Raio-X das obrigações

As obrigações Sporting SAD 2021 - o empréstimo terá a duração de três anos e o reembolso será efetuado de uma só vez, a 26 de novembro de 2021 - oferecem uma taxa de cupão de 5,25% (taxa anual nominal bruta), uma redução face aos 6,25% oferecidos nas obrigações emitidas em 2015. A taxa anual efetiva líquida (depois dos impostos) é de 3,81%.

Já os encargos financeiros inerentes à subscrição e detenção dos títulos variam consoante o banco ou a corretora. O investimento mínimo são 100 euros - correspondente a 20 obrigações e, a partir desse montante mínimo, devem ser expressas em múltiplos de 5 euros, correspondente a uma obrigação - no entanto, de acordo com as contas da Prosteste, só acima de 4000 euros é que os investidores poderão evitar que os custos associados à operação tenham demasiado peso. E face a esse cenário, acredita que é possível obter um rendimento líquido de impostos e encargos próximo de 3,5%. «Peça uma simulação no seu banco ou corretora, e se a rentabilidade estiver muito abaixo daquele valor, considere recorrer antes a intermediários mais competitivos», salienta a publicação. 

As obrigações que vão ser vendidas (6 milhões de obrigações, a 5 euros cada) vão estar cotadas em bolsa e o Sporting diz que «pretende que a admissão à negociação aconteça com a maior brevidade possível, sendo previsível que a mesma ocorra no dia 26 de novembro de 2018, após obtenção de autorização por parte da Euronext».