Opiniao

Capicua, Rapazote e o ministro Finney

Matos Fernandes é um bem humorado. Quando ele fala para os microfones, os ponteiros do relógio devem passar a marcar cinco para a meia-noite

 

Divertida, interessante e até certo ponto mesmo enternecedora a conversa com os três primos direitos Matos Fernandes no programa ADN da TSF. O engenheiro que é ministro, João Pedro, o arquiteto que virou ator, Pêpê Rapazote, e a socióloga convertida em rapper, Ana Capicua.

Risos, muitos, e histórias, a saberem a muito pouco. Sobretudo porque, como confessaram os três primos, são de «uma família de contadores de histórias». E porque - como fez questão de concluir o ministro recordando o filme Big Fish, de Tim Burton - «um homem é as histórias que conta».

Foi ele quem disse: «Foi impossível estar a ver o filme e não pensar no meu pai e o meu pai, a quem recomendei o filme, quando o viu fartou-se de pensar no pai dele. E eu adorava que a minha filha Catarina também me reconhecesse naquele estranhíssimo personagem, superegoísta e que, no fundo, só pensa nele próprio, que é o Albert Finney».

José Manuel Matos Fernandes - o «Tio Zé» para Pêpê e Capicua - foi secretário de Estado da Justiça e secretário de Estado adjunto do ministro da Justiça, Vera Jardim, no primeiro Governo de António Guterres e, conselheiro jubilado do STJ, é o atual presidente da assembleia geral do FC Porto e amigo chegado de Jorge Nuno Pinto da Costa, com quem, além do clubismo, pelos vistos partilha também um enorme sentido de humor.

O atual ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes, é seu filho. E também é um bem humorado. Aliás, como o próprio confessou no programa com os primos, «se não fosse tímido», teria, como eles, abraçado o ‘showbiz’. Mas, como é ‘tímido’, seguiu a carreira de engenheiro civil e chegou a ministro.

Com a última remodelação governamental, juntou ao Ambiente a pasta da Energia e chamou para o seu Ministério, como secretário de Estado, o ex-socrático e socialista caviar João Galamba. Só por aí já se vê que humor não lhe falta.

E talvez por via da convivência ou se calhar por essa sua veia de humorista, o ministro defendeu a proposta do Governo de Orçamento de Estado para 2019 relativamente à área da Energia, que passou a tutelar, de uma forma, no mínimo, singular. Então não é que, em pleno hemiciclo, disse que milhões de famílias podem poupar 3% na fatura da eletricidade se baixarem a potência contratada com o distribuidor. Até porque, acrescentou, «uma família pode viver confortavelmente com uma potência contratada de 3,45 kVA e ter desconto no IVA em 2019». Matos Fernandes deu o exemplo de uma família com quatro elementos.

Senhor ministro, não pode! Nos dias que correm, não pode! 

Talvez com uns candeeiros a petróleo, com braseiras ou aquecedores a gás daqueles que causam tragédias como a que ainda tão recentemente vitimou uma família inteira, com fogões de lenha e água fria, talvez...

Nos dias que correm, com essa potência, o aquecedor no quarto faz disparar o quadro se a televisão estiver ligada na sala e a máquina de lavar loiça estiver a trabalhar na cozinha, a menos que se desligue o frigorífico e a casa esteja às escuras. E já não falo numa casa com aparelho de ar condicionado ou aquecimento central, que são coisas que o senhor ministro e o seu secretário de Estado certamente acham que não fazem falta para uma família viver ‘confortavelmente’. Por uma questão de ‘eficiência energética’, claro.

Não, quem fala assim não é tímido. É, sim e com toda a certeza, um bom ator e uma melhor fonte de inspiração para composições de rap. Mas só pode ser um humorista ou um engenhoso político. Isto para não dizer que é um ‘superegoísta, que, no fundo, lá mesmo no fundo, só pensa nele próprio’ - como aquela ‘personagem estranhíssima’ do Big Fish ou outros peixes graúdos deste Governo, a começar pelo seu superior hierárquico e a acabar no seu novo subordinado direto.

P.S.: O perigo de aluimento de terras e da estrada junto a uma pedreira em Borba já estava identificado há anos e houve vários alertas de diferentes entidades. Porém, a estrada nunca foi encerrada enquanto existiu. E há vítimas mortais a lamentar. Para variar, ninguém assume responsabilidades. O Estado, central e local, volta a falhar na sua função mais básica de proteger a vida e a segurança dos seus cidadãos. Não pode ficar impune!