Internacional

Angola: ‘Não vamos abraçar essa guerra, essa guerra não é nossa’

Em tempo de guerra não se limpam armas, mas contabilizam-se forças. José Eduardo dos Santos desafiou João Lourenço e o Presidente angolano respondeu: ‘Não temos medo de brincar com o fogo’. Tchizé dos Santos, deputada do MPLA e filha do ex-chefe de Estado, veio demarcar-se do confronto: ‘Essas lutas não são nossas’ são ‘lutas dos mais velhos’.

Welwitschea ‘Tchizé’ dos Santos, deputada do MPLA e filha do ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos veio a público demarcar-se da guerra entre o seu pai e o atual Presidente João Lourenço. Num áudio de mais de oito minutos posto a circular nas redes sociais, gravado, segundo a própria, na cama, por estar doente de baixa, Tchizé dos Santos rebate a ideia de que o ex-chefe de Estado tenha convocado os jornalistas por pressão da família, garante que também foi apanhada de surpresa e sublinha que não se quer envolver em guerras que não lhe pertencem.

«Sejam que lutas forem, são lutas dos mais velhos que vêm, algumas delas, do tempo da mata, outras vêm do tempo da fundação do MPLA, outras vêm do tempo do partido único, outras vêm do tempo pré-Constituição da República. Nós não vamos lutar em nome de ninguém», acrescenta a deputada do MPLA. «Minha juventude, meus irmãos, não vamos abraçar essa guerra, essa guerra não é nossa, é deles», refere a política, salientando que o caminho é para a frente: «Vamos dar as mãos, vamos ser angolanos, deixem os mais velhos lutarem sozinhos».

«Quem me dera a mim, Tchizé dos Santos, ter a experiência, a sabedoria, a capacidade política de José Eduardo dos Santos. A mim não me teria ocorrido a ideia de uma conferência de imprensa, fui também surpreendida como todos vocês», explica, pedindo que «parem de fazer especulação, intriga política, tentar inflamar os ânimos».

Tanto Tchizé dos Santos como  a irmã, Isabel dos Santos, secundaram nas redes sociais as afirmações do ex-Presidente em relação ao estado das finanças do país quando deixou o cargo - a empresária chegou a referir no Twitter que «a política angolana está tensa»  e que a «atual crise económica pode piorar com uma crise política».

Mas ontem à noite, Isabel dos Santos deixou uma mensagem apziguadora no Twitter, ao referir que «o sector empresarial angolano apoia o Governo na eleboração do plano de saída da crise», que «pode constituir uma alternativa em 2019 e 2020 para a economia angolanoa, criando mais empregos, mais produção nacional, mais receitas para país».

José Eduardo dos Santos garantiu, na declaração aos jornalistas na quarta-feira - dia em que João Lourenço partiu para Lisboa para a sua primeira visita oficial a Portugal -, que deixou 15,1 mil milhões de reservas internacionais líquidas no banco central e não deixou os cofres vazios como o seu sucessor afirmou ao Expresso da semana passada. Tchizé dos Santos partilha o título de uma notícia da agência Reuters de setembro do ano passado: ‘Reservas líquidas de Angola caiem para 15,1 mil milhões de dólares em setembro’.

O analista angolano Reginaldo Silva, em texto no Facebook, lembra que «não foi JLo [acrónimo comummente usado para identificar João Lourenço] que convocou a imprensa para fazer uma declaração sem direito a perguntas. Foi o jornalista que perguntou a JLo como tinha encontrado os cofres do Estado. Dizer que os encontrou vazios e a serem esvaziados é desde logo uma expressão ambígua que dá pano para várias mangas». Quer isto dizer, se a guerra se reacendeu, foi mesmo o ex-Presidente a comprá-la ou foi o atual a provocar a reação?

Que João Lourenço não parece ter correspondido às expectativas de quem o escolheu para lhe suceder pareceu evidente desde cedo. Logo na campanha eleitoral, o discurso do agora Presidente a demarcar-se do legado de José Eduardo dos Santos, a bater na tecla da luta contra a corrupção e a considerar antipatriotas aqueles que tiraram o dinheiro de Angola, sublinhava que ele não era a continuidade.

A cerimónia de transição foi uma gélida formalidade que durou meia hora e se cingiu à troca de pastas e a declarações de circunstância. E o ex-Presidente, por continuar ainda como líder do partido, estabeleceu uma espécie de poder paralelo no MPLA. Alguém que nunca tinha ligado muito ao quotidiano partidário, passou a despachar diretamente da sede do partido, trocou protocolos de segurança e secretariado, instalando uma bicefalia que só se alterou quase um ano depois, quando foi pressionado para sair.

Para Reginaldo Silva, a passagem das pastas não aconteceu, realmente, como João Lourenço refere na entrevista ao Expresso, «porque nessa altura JES, se calhar, ainda pensava  que na verdade iria continuar a mandar no país à distância de um telefonema ou de um bilhetinho. Prestar contas para quê se, no fundo, tudo iria continuar mais ou menos na mesma?». José Eduardo dos Santos «nunca acreditou que JLo pudesse ir tão longe e tão rápido na rutura com a sua (pesada) herança e a com a sua (patriarcal) influência». Para Reginaldo Silva, o facto de o ex-Presidente não se ter referido a essa passagem da entrevista na sua declaração aos jornalistas só veio demonstrar a posteriori que tal aconteceu: «Nunca uma omissão confirmou tanto um facto».

Daí até o poder anterior e o poder atual chocarem não tardou. Como refere ao SOL o analista político Adolfo Maria: «A guerra sempre existiu e ficou bem evidente desde todos aqueles decretos que o antigo Presidente fez à última hora para amarrar o novo Presidente. Continuou com toda a narrativa da passagem do poder e manteve-se muito aguda até à saída de José Eduardo dos Santos de presidente do partido».

Adolfo Maria, que pertenceu aos quadros do MPLA e foi membro da Revolta Ativa, sublinha que «a guerra existia e continua a existir, mas talvez com menos intensidade agora, porque as pessoas que estão com José Eduardo dos Santos são bem menos do que eram há quatro, cinco ou seis meses. E por uma razão muito simples: porque se encostaram ao novo poder.»

Como dizia recentemente o escritor José Eduardo Agualusa ao SOL, «José Eduardo dos Santos  não tem seguidores. Ninguém o seguia pela sua ideologia - até hoje ninguém sabe qual era a sua ideologia -, ninguém o seguia pelo seu carisma, ninguém o seguia pela afabilidade ou pela simpatia. As pessoas seguiam José Eduardo dos Santos porque ele tinha o poder e esse poder redistribuía os fundos do Estado.»

Que agora - deixado o Poder, e apenas com o palco da sua fundação para usar -, o ex-chefe de Estado venha desafiar a presidência de João Lourenço que parecia consolidada, não deixa de surpreender. Até porque, como dizem várias fontes em Angola, se o ato em si foi notícia - e até colocou um pouco em segundo plano a primeira visita oficial de João Lourenço a Portugal, que é apenas a terceira visita de Estado de um Presidente angolano a Portugal nos 43 anos da sua independência -, as palavras pouco impacto terão junto da sociedade, pois «a larga maioria das pessoas tem uma péssima opinião de José Eduardo dos Santos», refere um jornalista angolano.

«Na declaração aos jornalistas, o quadro pintado pelo ex-Presidente não corresponde à realidade que então se vivia. Se Angola está nessa situação económica muito difícil é tudo consequência de uma série de políticas erradas que se foram acumulando», referiu Adolfo Maria. «João Lourenço pegou num país que estava numa situação catastrófica», acrescentou o analista.

Porém, dados idênticos divulgados por Tchizé dos Santos e Isabel dos Santos nas redes sociais, depois da declaração aos jornalistas do pai, dão ideia do contrário. «Os dados do nosso país às vezes não são suficientemente partilhados», escreve a empresária antes de uma série de dados que mostram um país a melhorar entre 2002 (fim da guerra) e 2017.

Desde Lisboa, João Lourenço foi duro na mensagem: «Quando nos propusemos a combater a corrupção em Angola, tínhamos noção de que precisávamos de ter muita coragem, sabíamos que estávamos a mexer no ninho do marimbondo [vespa]», afirmou o chefe de Estado angolano, «já começámos a sentir as picadelas, mas isso não nos vai matar, não é por isso que vamos recuar, é preciso destruir esse ninho do marimbondo».

Se a metáfora era clara, para que não ficassem dúvidas, Lourenço acrescentou:  «Há uma expressão na nossa política angolana que diz ‘somos milhões e contra milhões ninguém combate’. Essa expressão continua viva, não morreu. Portanto, que ninguém pense que, por muitos recursos que tenha, de todo o tipo, consegue enfrentar os milhões que somos. Por isso, não temos medo de brincar com o fogo e vamos continuar a brincar com ele, com a noção de que vamos mantê-lo sempre sob controlo.»

A mensagem pretende ecoar para lá da família Dos Santos, aos ouvidos dos que acumularam fortunas e que podem agora ver os seus impérios postos em causa pelo novo poder. A lei sobre o Repatriamento Coercivo de Capitais e Perda Alargada de Bens, que vai entrar em vigor em janeiro do próximo ano, desafia os que mantêm o dinheiro fora de Angola a que o repatriem ou sofram as consequências. A pergunta que se coloca agora é a de saber se no balanço dos prós e contras os generais habituados a fazer negócios lucrativos com o Estado estão dispostos a jogar-se pelo enfrentamento ao poder instituído, ainda para mais com as dúvidas sobre o estado de saúde do velho ex-Presidente? Essa é atualmente a grande incógnita do confronto político  angolano, porque, como diz uma fonte conhecedora do poder em Angola, «são muitos militares contrariados».