Internacional

‘Um futuro radioso’ para Portugal e Angola

O ‘irritante’ da Justiça desapareceu e foram assinados treze acordos de cooperação. Angola já saldou 100 milhões de dívidas a empresas nacionais.

O ‘irritante’ judicial que aqueceu as relações entre Portugal e Angola – o processo Fizz, contra o ex-vice-Presidente angolano Manuel Vicente – só apareceu uma vez no discurso da visita de Estado do Presidente de Angola a Portugal. Foi na primeira etapa da visita, no Palácio de Belém, quando João Lourenço foi confrontado com o assunto. A resposta foi curta e simples:« O irritante desapareceu em definitivo».

Já Marcelo Rebelo de Sousa fechou o primeiro dia de visita do seu homólogo angolano a defender uma «cumplicidade estratégica» entre os dois países, no jantar oferecido pelo chefe de Estado português, no Palácio da Ajuda. Marcelo considerou que se impunham «dois discursos possíveis»  no início de um «novo ciclo» nas relações bilaterais, o da razão e o do coração, com uma certeza: «O vosso sucesso é o nosso sucesso. Tal como temos a certeza de que o nosso sucesso é sentido também como vosso sucesso».

A visita do chefe de Estado angolano só termina hoje, mas os dois países assinaram treze acordos de cooperação que vão da Segurança Social, à Educação, Vistos, Saúde, Ambiente e Justiça. 

Ontem, João Lourenço recebeu a chave da cidade do Porto– já tinha recebido a de Lisboa– e ouviu a garantia do primeiro-ministro, António Costa, de que Portugal irá ajudar Angola no combate à corrupção, uma palavra que acabou por dominar os discursos do primeiro dia de visita. 

Costa assegurou a «total  colaboração» das autoridades e do Estado português para recuperar dinheiro angolano desviado. Uma garantia alicerçada na ideia de que «é próprio entre países amigos e de acordo com as regras (...) do ponto de vista da cooperação judiciária, da cooperação policial e da cooperação fiscal». 

No quadro da cooperação entre os dois países ficou ainda outra certeza: já foram certificados 200 milhões de euros de dívida a empresas portuguesas e pagos 100 milhões de euros.

No primeiro dia de visita , Marcelo condecorou João Lourenço com o Grande-Colar da Ordem do Infante, a insígnia mais alta atribuída a chefes de Estado estrangeiros, e recebeu, em troca, um convite para se deslocar a Luanda. A viagem não tem data marcada, mas deve ocorrer no primeiro semestre de 2019.

Sinal de que a estratégia entre Belém e São Bento foi concertada ao milímetro, tanto a Presidência como o Governo publicaram ontem os vinte e um pontos dos acordos assinados.  «Dando continuidade ao relacionamento fraterno entre os dois países e aos compromissos assumidos aquando da visita oficial de Sua Excelência o Primeiro-Ministro António Costa à República de Angola, a 17 e 18 de setembro último, a presente visita de Estado constituiu um passo decisivo na plena realização da parceria estratégica e privilegiada entre os dois países, marcada pelo respeito recíproco e construída numa lógica de interesses comuns e benefícios mútuos», lê-se no documento final subscrito no Porto.

A visita de Estado terminou hoje com uma ida ao Arsenal do Alfeite e um almoço no Palácio de Belém, oferecido por Marcelo Rebelo de Sousa. 

Um dos pontos altos da visita foi a sessão solene no Parlamento, em que João Lourenço discursou, lembrando os 16 anos de paz duradoura no seu país e a meta do seu mandato: «Construir uma nova Angola, de transparência, com ambiente de negócios mais favorável».

Com todas as bancadas parlamentares do hemiciclo repletas, João Lourenço defendeu o aprofundamento das relações e salientou que Portugal é «um parceiro importante». Mas deixou o aviso de que a cooperação entre os dois países precisa de ser alimentada. «Como qualquer outra relação, precisa de ser permanentemente alimentada e reiterada com gestos e atitudes de ambas as partes», sublinhou o chefe de Estado angolano.

Ficou claro que entre os dois países o  reforço de relações não pode esgotar-se na economia, mas na troca de experiências em áreas como a Educação, a Saúde, a Ciência e o Desporto. A lista de prioridades  foi lançada pelo Presidente angolano, que pediu mais investimento privado fora da lógica tradicional da economia ‘petrolífera’. 

No Parlamento, João Lourenço vaticinou «um futuro bastante radioso» nas relações entre Portugal e Angola e quase todas as bancadas aplaudiram de pé o  discurso, menos a do BE e André Silva, do PAN.

Por seu lado, Ferro Rodrigues saudou o Presidente angolano «pela sua coragem e determinação em afirmar em Angola um Estado democrático de Direito», assinalando que Angola «está nos nossos corações».