Opiniao

Tourada à portuguesa

Raramente Alegre foi tão oportuno como quando escreveu, por sentir a «liberdade pessoal ameaçada» pelas proibições na forja, que «é chegada a hora de enfrentar cultural e civicamente o fanatismo do politicamente correto».

O massacre mediático a que estão sujeitos os portugueses por causa do futebol – com horas intermináveis de diretos, diferidos, mesas-redondas e gente cheia de si e de pesporrência avulsa – só é comparável, em escala idêntica, à multiplicação de espaços em antena ocupados por ‘comentadores’ políticos, convencidos da sua superior importância no pastoreio das almas. 

Alguns desdobram-se por diferentes estúdios – além de colunas nos jornais –, repetindo clichés com a sobranceria de quem se acha ungido e ‘esclarecido’, a troco de confortáveis avenças.

Que se saiba, não há outro sítio – na Europa ou fora dela – onde os meios audiovisuais disponham de tantos ‘comentadores residentes’ per capita. É epidémico.

Há cinco anos, o jornal Público elucidava que os canais de televisão, generalistas e temáticos, já somavam semanalmente 69 horas de comentário político, assegurado por 97 comentadores, dos quais 60 eram (ou tinham sido) políticos. A lista dos ‘comentadores’ desportivos não seria menor.   

De então para cá, a situação agravou-se, tanto no futebol como na política – um fenómeno que mereceu uma feliz síntese a Felisbela Lopes, académica investigadora de comunicação, ao ironizar que na «confraria dos convidados o que custa é chegar a confrade».

O ‘amiguismo’ e as cumplicidades funcionam em doses elevadas. Seja no futebol ou na política, os ‘comentadores’ têm agendas pessoais, segundo o clube, partido ou ‘capelinha’ a que pertencem.

Por isso, com a regularidade de um relógio suíço, há ‘comentadores’ de serviço empenhados em valorizar historietas para desviar as atenções dos verdadeiros problemas, e em lançar ‘balões de ensaio’ como ‘isco’ para os media se ‘entreterem’. 

Repare-se como as peripécias à volta das agressões na academia de um clube em Alcochete, ou a detenção do seu ex-presidente, deram ‘pano para mangas’, consumindo uma infinidade enjoativa de horas nas televisões e abrindo telejornais como se fosse o acontecimento noticiável mais relevante.

Em contrapartida, falta saber quase tudo sobre as armas e munições desaparecidas em Tancos, e raramente se fala da situação caótica dos hospitais públicos, do pré-colapso dos comboios da CP ou do estado da Operação Marquês (e de um sorteio trôpego que entregou a instrução requerida por Sócrates a um juiz conhecido pelos formalismos processuais). 

Pela amostra, pode imaginar-se o jeito que dão os ‘comentadores’ que sequestraram o espaço público a favor de ‘guerras de capoeira’.

O episódio das touradas é um bom exemplo. Desde as convicções «civilizacionais» da nova ministra da Cultura, até à impagável troca de ‘cartas abertas’ entre Manuel Alegre e António Costa. 

Raramente Alegre foi tão oportuno como quando escreveu, por sentir a «liberdade pessoal ameaçada» pelas proibições na forja, que «é chegada a hora de enfrentar cultural e civicamente o fanatismo do politicamente correto».

Entalado, António Costa reagiu e negou que fosse ‘mata-toureiros’, enquanto deixou gravitar à sua volta os fundamentalismos – hoje contra o sofrimento dos touros, amanhã com outro pretexto qualquer.  

Mas é, no mínimo, digno de estudo o volte-face de Costa, desde que desceu à arena do Campo Pequeno para medalhar um forcado, com o fato de presidente do município, sem se sentir «chocado»…. 

Outra ‘faena’, salvo seja, foi a ensaiada por José Silvano, o deputado faltoso e secretário-geral do PSD, ao advertir que o atual líder do partido «não faz milagres».

Embora retire a Rui Rio o estatuto de ‘santo milagreiro’, Silvano não renuncia à sua profissão de fé. O ‘sermão’ serviu, afinal, para prevenir o desastre eleitoral anunciado, a menos que o partido acorde a tempo de eleger alguém que saiba ser oposição e alternativa. Para ele, «se a guerra interna não parar», o PSD não «terá bom resultado».

Com as sondagens a anteciparem a derrocada, Rio e os seus acólitos preparam a missa para responsabilizar os (in)fieis. É feio. 

Adivinham-se tempos sombrios. Um dia acordamos com o circo fechado. Sem animais e sem liberdade. A ‘ditadura do gosto’ sobe no barómetro da ‘geringonça’. Hoje visa o ‘marialvismo’ taurino. Amanhã só Deus sabe….
 
Nota em rodapé – Os senhores juízes penduraram nos cabides as togas do órgão de soberania que, supostamente, representam, trocando-as pelas vestes de funcionários públicos grevistas, em nome de reivindicações salariais – o que só pode ter contribuído para a felicidade de Ana Avoila, a incansável doutrinadora da ‘frente comum’ sindical.

Aguardam-se os próximos passos do Presidente da República e do primeiro-ministro em exercício, reivindicando equiparação salarial, por exemplo, ao presidente da CGD ou ao governador do BdP. Ou há moral...