Desporto

GP de Macau A roubar vidas há cinco décadas

Tem fama de circuito da morte e não é para menos. No automobilismo ou no motociclismo, o icónico Circuito da Guia é considerado um dos mais perigosos do mundo. O piloto português Luís Carreira é uma das vítimas a registar após não ter resistido a um acidente na Curva dos Pescadores. A tragédia remonta a 2012. O lisboeta tinha 35 anos.

Sophia Floersch. Pode até não ser um leitor assíduo dos complementos de desporto para ter a certeza que ouviu ou passou os olhos por este nome ao longo da última semana. O nome pertence a uma jovem alemã de 17 anos que integra a Fórmula 3, a categoria do automobilismo da classe dos monolugares, da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). Floersch foi a protagonista do violento acidente que ocorreu no Grande Prémio de Macau daquela categoria no passado domingo. Para se ter uma ideia da gravidade do despiste, apenas pode dizer-se que qualquer pessoa que veja o vídeo daquele momento pensará o pior. A verdade é que a história ainda não conheceu o seu fim, mas Floersch encontra-se numa recuperação incrível depois do choque que sofreu na terceira das 15 voltas da prova, quando embateu no carro do japonês Sho Tsuboi e ultrapassou os rails de proteção na abordagem à curva do Hotel Lisboa. Isto tudo, como deve imaginar, a alta velocidade.

O carro ficou destruído e a jovem, que participava pela primeira vez naquele circuito, foi imediatamente transportada para uma unidade hospitalar de Macau.

Um dia depois do acidente que correu mundo, a alemã acabou por ser submetida a uma cirurgia de fusão à coluna vertebral com sucesso. «Como a paciente é muito jovem, a operação cirúrgica foi feita com muita atenção», mas «a operação foi bem-sucedida e os procedimentos foram favoráveis», informou entretanto o chefe do serviço de ortopedia do hospital São Januário (Macau). Além do responsável máximo do departamento de ortopedia, também outro dos médicos que acompanhava o caso descansava os mais preocupados: «Temos confiança que não vai afetar a sua mobilidade no futuro». Depois dos médicos responsáveis, foi a vez da própria piloto alemã dar novidades sobre o seu estado de saúde. Na terça-feira, através das redes sociais,  a jovem que integrou a Fórmula 4 (destinada a pilotos juniores) abordou a operação de que foi alvo, que a obrigou a estar durante mais de 10 horas no bloco operatório.

«Sobrevivi à cirurgia que levou 11 horas. Espero que a partir de agora seja sempre a recuperar. Tenho que ficar mais alguns dias em Macau até que seja possível seguir viagem», escreveu num post no Facebook em que agradeceu a todos os fãs as mensagens de «apoio» e «coragem». Na mesma publicação, a jovem aproveitou para deixar uma garantia: a de que vai regressar às pistas «ainda mais forte».

Floersch sofreu várias fraturas, com compressão no sistema nervoso central, e após a operação passou nos testes de sensibilidade em todas as partes do corpo. Contudo, o prognóstico ainda é reservado e, por essa razão, só quando estiver estável é que poderá regressar a Alemanha.

Segundo um dos médicos, Sophia Floersch vai permanecer internada pelo menos nas próximas duas semanas.

Além da piloto alemã, do mesmo acidente, que obrigou à interrupção da corrida, resultaram ainda mais quatro feridos: Sho Tsuboi, o piloto japonês que foi internado com dores nas costas depois de ter visto o carro em que seguia ser albaroado pelo de Sophia, e, fora da pista, um oficial da corrida e dois repórteres fotográficos.

 

Um dos circuitos mais perigosos do mundo

Para Sophia Floersch, o aparatoso acidente pode estar perto de não passar de um enorme susto, mas nem todos tiveram o mesmo afortunado destino da piloto alemã. A(s) tragédia(s) faz(em) há muito parte deste GP macaense, que já tem fama de circuito da morte.

E não é para menos.

O icónico Circuito da Guia, traçado citadino de 6,12 quilómetros, é considerado um dos mais perigosos do mundo e é palco de três corridas de carros (as taças do mundo de Fórmula 3, GT e de carros de turismo (WTCR)), bem como o Grande Prémio de Motos. A prova conheceu este ano a sua 64.ª edição (realiza-se desde 1954) e há pelo menos cinco décadas que rouba vidas.

A última vítima mortal foi o piloto britânico Daniel Hegarty (Honda). No ano passado, o motociclista sofreu um acidente a meio da prova no GP de Motos de Macau (em que participava pela segunda vez) e morreu na ambulância, quando seguia para o hospital. Dois anos antes, em 2015, o piloto português Luís Carreira, de 35 anos, perdeu a vida após um despiste durante a qualificação, na Curva dos Pescadores, a zona mais rápida do Circuito da Guia, quando seguia a mais de 200km/h. Menos de 24 horas depois da morte do motociclista luso, o automobilista de Hong Kong Phillip Yau, de 40 anos, morreu aos comandos de um Chevrolet Cruze, na Taça CTM, ao embater contra uma parede, na curva do Hotel Mandarim. Precisamente no mesmo local, mas em 2005, o piloto francês Bruno Bonhuil, de 45 anos, não sobreviveu após um acidente durante o aquecimento para a corrida de motos. Em 1994, também no Grande Prémio de Motos, o japonês Katsuhiro Tottiori morreu na segunda manga da prova, após um problema mecânico ter ditado uma paragem violenta e inesperada da moto. Tottiori não resistiu à projeção da moto que terminou com uma colisão nas rochas, tendo falecido no local. Já na década de 60, mais precisamente em 1967, Dodje Laurel, o piloto filipino mais conhecido internacionalmente, perdeu a vida na curva do Clube Marítimo, conhecida hoje como curva do Hotel Mandarim, após um choque num poste de iluminação pública que deixou o carro em chamas.

 

Outros casos

Daniel Hegarty (Honda)

Em 2017, o britânico participava pela segunda vez no Grande Prémio de Motos de Macau quando sofreu um acidente a meio da prova. Foi transportado para o hospital mas não resistiu aos ferimentos.

Luís Carreira (Suzuki)

Em 2015, o piloto luso Luís Carreira (Suzuki), de 35 anos, morreu vítima de um grave acidente na Curva dos Pescadores durante a primeira sessão de qualificação do GP de Macau de Motociclismo. Seguia a mais de 200km/h.

Phillip Yau (Chevrolet)

Um dia depois da morte de Luís Carreira, o piloto de Hong Kong Phillip Yau, de 40 anos, perdeu a vida aos comandos de um Chevrolet Cruze, na Taça CTM, ao embater contra uma parede, na curva do Hotel Mandarim.

Katsuhiro Tottiori

Após uma paragem violenta e inesperada da moto, devido a um problema mecânico, o motociclista japonês foi projetado e colidiu com umas rochas, tendo tido morte imediata. Acidente fatal remonta a 1994.