Cultura

António Zambujo. “Há um foco muito grande nos números. Pode ser assustador”

"Tenho pessoas ao meu lado que, quando é necessário, me fazem reduzir à minha insignificância. É importante não perder a noção de onde vimos"

António Zambujo chega ao Jardim das Amoreiras de óculos escuros demasiado incógnito para ser o Zorro. No quiosque, as conversas animam uma tarde de Outono profundo cheia de lugares-comuns do belo que é novembro. Folhas caídas, o avermelhado da estação, um céu cinzento rasgado pelos aviões, não os de Miguel Araújo que estará (omni)presente na conversa, mas aqueles que todos os dias rasam o Campo Grande. Falta-nos uma Hollywood para imaginar uma catástrofe aérea à escala do terramoto de 1755. 

Segue-se a parte mais aborrecida para quem só quer «tocar e cantar»: a sessão fotográfica. «Tem de ser», reconhece durante a entrevista sobre a promoção e os protocolos da indústria. Do Avesso, o novo álbum de António Zambujo, é diferente dos anteriores. Menos regional e mais global. Um descendente direto das viagens pelo mundo e por Portugal, claro. 

A conquista tardou e só foi conseguida ao Quinto disco. Antes dos 28 coliseus, do ‘Pica do 7’, e da ‘Lambreta’, houve um passado de luzes baixas que lhe deu o arcaboiço para aceitar a exposição massiva com simplicidade. A mesma simplicidade transmitida pelas canções. 

Às tantas, há uma chamada com indicativo internacional no telemóvel de António Zambujo. «São os brasileiros», sorri. Há muita gente a querer falar com ele mas ele continua a ser o mesmo que, em palco, falava para 15 pessoas.

 

Desde que chegámos aqui, ainda não lhe pediram fotos. Ainda consegue ser uma pessoa normal?

Sim. À noite, é mais complicado. As pessoas bebem uns copos e ficam mais desinibidas mas durante o dia é tipo: «Ah, eu sei quem ele é mas não o vou fazer sentir-se importante». É fundamental não me sentir escravo da fama. É uma inevitabilidade as pessoas virem falar. Felizmente, nunca aconteceu virem para insultar porque hoje em dia, há aquela malta que odeia tudo. Há pessoas que seriam bem capazes de vir dizer «não vales nada, a tua música não vale nada». Por acaso, não aconteceu mas sei que há pessoas que não gostam da música que faço. Quando as pessoas se aproximam, normalmente é por boas razões, por simpatia. Às vezes, um pouco mais chatas mas há que ter paciência e não deixar de fazer nada por isso. 

Também foi por isso que acabou com as redes sociais?

Não, estava a sentir-me preso àquilo. Foi por opção, não foi culpa de ninguém. Cada vez me sentia mais obcecado com a parte do gossip, ver o que os outros publicavam, e também com o publicar alguma coisa e ficar à espera dos comentários. Cansei-me, achei estúpido estar a alimentar essa adição. Foi como deixar de fumar. Estava a fazer-me mal e parei. 

Não há o medo de se perder a notoriedade que a presença social traz?

Notoriedade virtual. Não há medo. O excesso de notoriedade também acaba por ser cansativo. Nessa gestão entre a visibilidade e o anonimato, o que é que nós queremos? O Miguel [Araújo] dizia isto na altura dos Coliseus. No total foram mais de 80 mil bilhetes, entre Lisboa e Porto, e tanto eu como ele ainda conseguíamos passar despercebidos na rua, mesmo com todas as entrevistas que demos para jornais e televisões. É bom. É importante manter o equilíbrio entre esse mediatismo e o que nós queremos verdadeiramente. O que eu quero verdadeiramente é dar concertos. Tocar e cantar, e não ter que depender disso para poder fazer o que gosto. Quero que as pessoas venham aos concertos e ter salas esgotadas para que me reconheçam pela música e não pelas publicações. Não tenho nada contra quem faz o contrário e, aliás, há pessoas que fazem um trabalho fantástico a promover-se e são generosas a promover outros músicos. Acho fantástico mas não é para mim. 

Sentiu necessidade de mudar neste álbum?

Não lhe chamaria uma necessidade. É o resultado de muitas coisas que aconteceram. Quando faço um disco, não tenho um plano definido. Vamos trocando ideias sobre discos, bandas, viagens, gostos...tudo isso é que forma a ideia final. Este disco, tal como os outros, é o resultado dessas conversas fantásticas. Das partilhas e ideias de um grupo que fizemos no Whatsapp chamado Tripla Platina (gargalhada). 

Esse nome...

...é para dar sorte. 

Há menos Alentejo no álbum?

Está sempre presente mas talvez haja menos, sim. Não estará tão evidente como em discos anteriores mas as influências estão sempre presentes.

É mais do mundo?

Talvez, sim. Acho que um disco mais de dentro para fora do que de fora para dentro. Não é tão introspetivo. É um disco para mostrar às pessoas coisas que ainda não tinham sido partilhadas. O som mais anglo-saxónico, a obsessão pelo Tom Waits, as coisas boas que o Rodrigo Amarante nos deu no Cavalo. Paul McCartney, Brian Wilson...os clássicos nunca passam de moda. São sempre uma garantia. 

Na ‘Moda Antiga’ que fecha o disco, canta ‘são coisas da mocidade que recordo com vaidade para poder ser quem eu sou’. A importância desses versos recrudesceu?

Para não me transformar num cagão (gargalhada). Não, não corro esse risco porque não é da minha natureza e também porque tenho pessoas ao meu lado que, quando é necessário, me fazem reduzir à minha insignificância. É sempre importante não perdermos a noção de onde vimos. São as nossas origens, é a partir dessa base que se constrói. 

Há muitos artistas que singram no início e depois têm dificuldade em construir uma carreira. O caso do António é o oposto. Só ao Quinto álbum «deu o salto» e chegou ao grande público. Foi uma preparação para não se deslumbrar?

Nunca pensei muito nisso. A gestão de carreira deve ser feita em função da parte estética, da qualidade musical. E para nós, não em função do público que temos. Hoje, muda tudo tão depressa que o importante é a honestidade. Intelectual e criativa. E esperar que o público entenda e reconheça isso, para aplaudir. Isto num mundo perfeito, mas como o mundo está longe de ser perfeito, o mais importante é fazer as coisas para ti e dormir de consciência tranquilo. O resto só depende do público, por muito competentes que sejam as pessoas que trabalham contigo. Eu sou músico por realização pessoal. O que mais gosto de fazer é tocar e cantar. Quero ser melhor todos os dias e tocar com os melhores músicos. Hoje há um foco muito grande nos números. Pode ser assustador porque não se olha a meios para atingir os fins. Gosto de viver o mais afastado possível disso.

É possível viver afastado de 28 coliseus?

É. Já foi, não é? Nessa altura, disse a alguém que aquilo foi tão incrível que nos próximos três meses as pessoas ainda se iam lembrar dos 28 coliseus. Ao quarto mês, já ninguém se lembra. É muita informação e tudo muito rápido. 

Como é que desce à Terra naquele momento?

Vivemos uma noite de cada vez. Aquilo não estava nada preparado. Acho que as pessoas gostaram disso, de ser descomprometido. Nós entrávamos no palco, tínhamos as três ou quatro primeiras canções pensadas, e a partir daí era conversa. Tínhamos um microfone para comunicar um com o outro sem o público ouvir. E íamos dizendo «olha, agora toca aquela». O espetáculo foi montado por blocos. As referências, as raízes, a música brasileira que nos aproximou e acabar com as nossas canções. E foi assim que funcionou. 

Recuperaram a canção No Rancho Fundo, popularizada por uma dupla sertaneja.

As músicas brasileiras pimba são ideias dele [gargalhada]. Não, por acaso não é. Associamos aquela canção a uma versão do Chitãozinho & Xororó quando aquilo de um compositor fantástico, o Ary Barroso que escreveu o ‘Aquarela do Brasil’. O Miguel tinha gravado a versão no [disco] Voz e Guitarra, levou para os concertos e acabámos por fazer nós uma dupla sertaneja foleira (ri-se). 

Como se explica aquela bola de neve?

Não sei. Eu dizia sempre que ia correr bem. Era o otimista. Eles eram super cagarolas. O Miguel e o manager Pedro Barbosa riam-se quando eu dizia que ia correr bem e devíamos marcar mais datas. Como se explica? A partir do momento em que estamos num programa de rádio e uma data é anunciada às dez da manhã e ao meio-dia está esgotada, achei que não ia parar. Ainda hoje acredito que podíamos ter feito quarenta. E só fizemos Lisboa e Porto. Podia ter-se feito isso mas depois já não podia ver o Miguel à frente (ri-se).

Parou dois meses no início do ano. 

Foi horrível. 

Tomou a decisão depois da enxurrada de coliseus?

Não, parei porque nos últimos cinco anos demos 600 concertos. Dá uma média de 120 por ano. Estávamos todos meio cansados. Achei que podia ser bom parar mas percebi que não. É bom parar uma ou duas semanas. As rotinas deixam-nos o bicho da viagem. Ir, tocar, voltar. Dois meses foi muito tempo. Devia ter sido mais moderado. 

Não soube como ocupar o tempo?

Horrível, horrível. Até mesmo aqueles planos que tinha para quando tivesse tempo, não fiz nada. Estive dois meses em casa a ver televisão e agarrado ao computador a ver séries. E pouco mais. Aquela imagem do pijama vestido durante uma semana sem tomar banho. As portadas das janelas fechadas. Tudo escuro. Só a luz da televisão. A visão mais deprimente possível. 

Essa também é uma forma de dependência.

De?

Da estrada. 

Pois, mas essa é uma dependência boa. É melhor do que fumar (ri-se). 

Afinal não consegue ser normal.

Pois não. Quase desde que nasci que sei que não sou normal. Há aqui um grau de deficiência. Uma patologia qualquer. Pode ser esquizofrenia, autismo. Eu tenho essa dependência. Não me vejo a fazer outra coisa se não tocar e cantar. Os meus amigos dizem que se as pessoas não gostassem de me ouvir, estava lixado porque morria de fome. Não tinha salvação. 

Há momentos de cansaço? De estar sempre com as mesmas pessoas?

Não, porque nos damos muito bem. Nunca houve momentos de rutura. E também porque estamos juntos há muito tempo. Já nos conhecemos há muito tempo e respeitamos o espaço uns dos outros. Há pormenores que fazem toda a diferença: não aceito que se dividam quartos de hotel. Prefiro baixar o meu cachet e não abdicar da minha privacidade. 

Há emoções diferentes entre tocar para 15 pessoas ou para um Coliseu esgotado?

Lá está, é igual porque o gozo é o mesmo. Não importa se estão dez ou 30 mil. São essas as nossas bases, é o alicerce. 

Havia um plano B se não tivesse acontecido esse momento de transição?

Não, as coisas aconteceram naturalmente. Não tinha um plano B. Até porque antes do Quinto, já estávamos a dar mais concertos. Muitos fora de Portugal. Não tinha era o volume de vendas que tenho hoje porque ainda não estava a trabalhar com a [editora] Universal. Isso fez muita diferença aqui em Portugal. Mas já havia vida antes disso. 

Começou por ser reconhecido no Brasil e só depois em Portugal. A carreira internacional passou a ser normalidade?

Desde 2009 que tocamos fora de Portugal. Na verdade, o primeiro país onde comecei por cantar mais foi França. Depois é que veio o Brasil. Já há muito tempo que a carreira internacional é uma normalidade. O que aconteceu foi que no Quinto e no Rua da Emenda, passámos a ter mais concertos em Portugal e, por uma questão de agenda, ter menos tempo para tocar fora de Portugal. Cá, as datas começaram a ser marcadas com mais antecedência e isso tirou-nos disponibilidade. Este ano, foi mais equilibrado com menos concertos cá e tocar em festivais e teatros bons lá fora. A estratégia é promover os discos quando saem para criar interesse em quem programa. 

Lá fora, as reações são mais surpreendentes?

Sim, há pessoas que aprendem português. Pessoas que gostam de nos ouvir e vão aprender português. Já acontece desde o tempo em que a Amália viajava.

Ouve-se falar do fascínio por Lisboa?

Ouve. É uma moda que espero que passe depressa. O turismo é importante mas devia ser mais controlado. Eu odeio o lambe-botas e os nossos políticos são uns lambe-botas. Os turistas, o Web Summit, e lá está o presidente da Câmara a lamber as botas do irlandês, os outros ministros todos...não precisamos disso para nada. Com os angolanos, também. Não tenho nada contra os angolanos, tenho é contra os angolanos corruptos. Contra os corruptos de todo o mundo. Assusta-me e envergonha-me alimentarmos isso. 

Vai com frequência ao Brasil. Preocupa-o a eleição de Bolsonaro?

Agora temos de levar com ele. É uma inevitabilidade mas ele também não pode fazer tudo o que diz. Felizmente. Há coisas que vão piorar, outras eventualmente poderão melhor. Tenho que ver, mas receio um bocadinho. Só sei que não votaria nele. 

Na candidatura do cante alentejano a património da Unesco, foi um embaixador...

(interrompendo) Não fui nada.

Ia dizer não oficial. 

Não fui. 

Mas ajudou na causa. 

Não. Gosto das coisas na sua essência. Lá está, foi o fado, depois o cante alentejano e depois os chocalhos. Parece que vivemos obcecados com o que os outros dizem de nós. Somos como aquele puto na escola que faz tudo o que os outros querem para ficar amigo deles. Não precisamos disso. Acho muito bem que seja reconhecido mas temos de ter confiança no que temos. Antes do cante alentejano ser reconhecido como Património Imaterial da Humanidade, ninguém queria saber. Os grupos estavam todos envelhecidos e toda a gente se estava um bocado a cagar para aquilo. Agora, como já é património é a loucura com as crianças nas escolas. É giro explicar aos miúdos a história do cante. Agora ver este deslumbramento...

Nas entrevistas sempre falou do cante alentejano.

 Por gosto pessoal e não por outro motivo. Foi pelo cante alentejano que quis aprender a cantar. Ouvia os homens a cantar e queria cantar com eles. Como na relação com o fado, a ouvir os fadistas nas casas de fado. Isso é que me encanta e isso é que me ensina. 

Vai muito a Beja?

Cada vez menos mas agora está a aproximar-se uma altura em que vou mais. Temos uma tertúlia entre amigos e a minha mãe também faz anos na véspera de Natal. 

Como era a sua vida em Beja antes de vir para Lisboa para fazer o musical Amália de Filipe La Féria?

Tinha acabado o liceu e tinha estudado no Conservatório. Já vinha cantar com alguma frequência a Lisboa e abri um bar de música ao vivo em Beja com um amigo durante dois anos. Era uma vida muito noturna, de empresário da noite (ri-se). Era giro, correu-me bem. Beja na altura tinha um ambiente engraçado. Quase todos os dias organizávamos concertos e apesar de as pessoas não estarem acostumadas, receberam bem. O bar chamava-se UFOs. Entretanto, recebi a proposta do espetáculo do La Féria e tive de me mudar para Lisboa. Na altura, dividia o meu tempo, entre o bar, Pousada dos Loios em Évora e o Clube do Fado em Lisboa. 

Foi um choque vir para Lisboa?

A princípio, foi. Não tanto por Lisboa mas pela intensidade do trabalho. Vinha de um ambiente descontraído e, de repente, quando entro para o teatro, eram ensaios super-intensos das duas da tarde às quatro ou cinco da manhã, todos os dias até estrear. E mesmo depois de estrear, continuámos a ensaiar. O Filipe é um perfeccionista e ensinou-me bastante. 

Essa preparação foi útil para a vida que tem agora?

Muito útil. Até na parte de subir ao palco e encarar o público. Não a representar mas a encontrar a forma mais confortável de encarar [esse desafio] como músico.

Vencer a timidez?

Também. A disciplina e o trabalho de equipa. Havia ali muita gente com experiência de teatro mas se eu, o canastrão, falhasse, estava a pôr tudo em xeque. É muito importante a responsabilização.

É aí que se envolve com o meio do fado?

Já cantava no Clube do Fado, mas conheci outros ambientes, sim. Na altura, havia o Bacalhau de Molho que era um sítio mais boémio onde o pessoal ficava até tarde. As pessoas que saíam das outras casas de fado iam lá ter e ficavam a beber um copo até final da noite. Quando acabavam os ensaios, íamos para lá. Tínhamos um grupo grande de malta que não era de cá, e íamos todos cear. 

Viveu a boémia lisboeta?

Então não! Nessa altura, via a luz do dia quando me deitava. Isto durante semanas e semanas. Foi uma aprendizagem muito importante para mim. Apesar dos copos que bebi, que foram bons - faz mal à saúde mas são fases -, aprendi muito com pessoas ligadas ao fado: poetas, músicos e fadistas.

Já tinha consciência de querer chegar mais longe?

Não, nunca há essa noção. Queria tocar e cantar. Só isso é que depende de mim, o resto depende do público. Não há estratégia possível para isso. 

O último disco era uma homenagem ao Chico Buarque. Como reagiu ao conhecer os ídolos e tê-los na plateia?

Um privilégio. Isso é que nunca me passou pela cabeça. No primeiro concerto no Rio de Janeiro, há uma altura em que olho para a plateia e vejo as cabecinhas deles. Ou acabar um concerto no Rio de Janeiro e entrar-me pelo camarim o Milton Nascimento, o Chico Buarque e o Caetano Veloso a cantar o ‘Apelo’, que tinha cantado num fado tradicional. 

E agora acontece o inverso. Bandas e músicos portugueses a seguir o livro de estilo do António Zambujo. 

Fico contente se assim for mas poderão encontrar melhores referências porque eu sou o produto de muitas coisas. Se ouvirem o que me influenciou, provavelmente serão melhores. Ser referência assusta porque é sinal que a carreira é longa e vamos envelhecendo mas o que fazemos é para ficar cá para os outros.