Opiniao

Vim para servir

O que mais me chamou a atenção foi a expressão utilizada por D. José Traquina que fala por si: «Vim para servir»

 

Na próxima segunda-feira, 26 de novembro, faz um ano que entrou solenemente em Santarém Sua Excelência Reverendíssima o Senhor D. José Traquina como bispo da diocese. Na qualidade de amigo, estive presente na cerimónia, acompanhando a par e passo o seu discurso. E o que mais me chamou a atenção foi a expressão por ele utilizada espontaneamente, e que fala por si: «Vim para servir».

 

Homem simples mas com uma larga experiência, dedicado, muito próximo das pessoas, procurando sempre ir ao encontro dos seus problemas, o ex-bispo auxiliar de Lisboa foi para Santarém encarando o novo desafio como um serviço a prestar à comunidade. 

Através daquela simples expressão, feliz e muito oportuna, D. José Traquina revelou as suas intenções. E é sempre gratificante ouvir palavras destas a qualquer dirigente, independentemente do cargo que desempenha.

 

De facto, seja qual foi a missão específica confiada a cada um de nós, é um serviço que estamos a prestar. E, daí, poder dizer-se também que estamos ‘a servir’. 

Nós, médicos, viemos para servir os doentes que confiam em nós e depositam nas nossas mãos as suas esperanças e expectativas. 

É preciso, pois, vocação, dedicação e entrega, para estar à altura desta enorme responsabilidade. Porém (e não falando dos que escolheram esta profissão não para servir mas para se servirem), é fundamental pensar seriamente naqueles que estão aqui por opção, empenhados em servir o próximo desinteressadamente - e devem merecer, por isso, o nosso incondicional apoio e atenção redobrada. 

 

Estes jovens colegas de hoje, por quem tenho particular admiração, vão ser os médicos de amanhã, aqueles que nos irão acompanhar e a quem teremos de recorrer. 

Deixo aqui esta chamada de atenção para as condições de trabalho que lhes estão a ser impostas. Convém não esquecer que médicos como eu, a aproximarem-se da reforma, já têm uma outra visão da situação. 

É mas fácil nós, os mais antigos, suportarmos as vicissitudes de um sistema antiquado, obsoleto, cheio de falhas e impeditivo de um trabalho gratificante, do que um jovem médico a começar uma nova carreira com naturais expectativas. O qual, aos poucos, face à triste realidade, vai desanimando, perdendo a esperança, começando a pôr em causa a sua opção profissional. 

Ainda há pouco, uma jovem colega, muito empenhada e dedicada aos seus doentes, ao reconhecer a sua incapacidade para fazer melhor, me dizia entristecida: «Doutor, tenho 36 anos… Estou desesperada». Noutra altura, uma outra desabafava: «Estou a pensar seriamente em ir para fora». Outra ainda: «Se pudesse voltar atrás, tinha escolhido outra especialidade». 

 

Por amor de Deus: defendamos estes jovens e não os deixemos sair do país! Criemos rapidamente melhores condições de trabalho para que continuem cá. Quem cuidará de nós se eles abandonarem Portugal à procura de melhores condições?

E, quanto aos utentes - isto é, os utilizadores do Serviço Nacional de Saúde -, como deverão eles servir aqueles que estão aqui para os acompanhar? Como poderão eles servir melhor um sistema criado exclusivamente para eles? Que deverão fazer pela reestruturação do SNS, que também passa por eles? 

A resposta é simples: confiem nos vossos médicos e respeitem as regras em vigor. Acabem de vez com os ‘pedidos’, pois só os clínicos sabem o que deverão fazer em cada caso. Lembrem-se que tudo tem um preço, e alguém vai ter de o suportar. Sejamos poupados, zelosos e não desperdicemos bens essenciais, só porque é o Estado a pagar. 

 

Os serviços públicos são como as nossas casas: devem ser estimados. Ninguém se demita de emitir a sua opinião ou uma crítica construtiva. É sempre possível fazer mais e melhor. Mas não façamos do queixume um modo de estar. Precisamos da colaboração de todos nos mais variados setores. Demos as nossas mãos.

Obrigado Senhor D. José pelo seu testemunho. Oxalá sejamos capazes de seguir o seu exemplo e de, perante qualquer que seja o chamamento, dizermos também sem hesitar: «Eu vim para servir».