Opiniao

A loucura verde e as mulheres brancas

Cravan gostava de suicidar-se. Tinha uma carta sempre no bolso. Sussurava aos amigos: «Je mangerais ma merde». Desapareceu

Fabian Avenarius Lloyd podia não ter medo nenhum de andar à porrada mas não estava virado para combater na I Grande Guerra. Por isso, como se diz popularmente, pôs-se ao fresco. E neste caso a expressão é do maior realismo: arranjou um barquito à vela e atirou-se ao mar de Salina Cruz, ali em Oaxaca, no México, decidido a só sair dele quando chegasse à foz do Rio de La Plata, na Argentina, bem longe dos campos da Flandres onde as papoilas de John McCrae cresciam por entre cadáveres. A mulher, Mina Loy, embarcara dois dias antes num navio. Estava grávida e o casal não tinha dinheiro que chegasse para duas passagens.

Mina gostava do mar. E do azul. Escreveu um poema sobre o Mediterrâneo: «The monstrous sapphire/lies in her lavish dowry/Crowned by Casinos/set with Provençal/olives/and spears to the mistral». Era uma boémia por natureza, uma daquelas almas livres que trazem consigo um pedaço de papel para atirarem poesias ao vento. Esperou por Fabian em Buenos Aires e esperou em vão. Há quem diga que o mar o levou. E há quem garanta que não.

Vendo bem, Mina não esperou por Fabian. Esperou por Arthur.  Seis anos antes, Fabian mudara de nome em homenagem à sua amante de então, Renée Bouchet, natural da aldeia francesa de Cravans. Ficou Arthur Cravan. E os seus versos eram torrenciais: «Prendre tous les trains et tous les navires/Forniquer toutes les femmes et bâfrer tous les plats/Mondain, chimiste, putain, ivrogne, musicien, ouvrier, peintre...».  

Como seria de esperar de um casal de poetas levaram a vida à beira do precipício. E o precipício de Arthur foi o mar. Morreu aos 31 anos, cedo, mas não foi um  cadáver bonito. Porque nunca foi cadáver. O corpo de Cravan pode ter sido engolido por uma onda colérica do Atlântico mas ele era suficientemente criativo para inventar mais uma vida. Já o tinha feito e prometera aos amigos voltar a fazê-lo. «Tenho vinte países na minha memória e carrego as cores de centenas de cidades na minha alma». Adorava representar suicídios. Era agressivo, insultuoso, andava com uma garrafa de absinto no bolso do casaco junto com uma nota de despedida. E garantia que no dia em que se matasse deixaria a carta embrulhada no mesmo pano em que embrulharia os testículos.

 

Foi pela mesma altura que Cravan e o mar se tornaram num só futuro e passado ao mesmo tempo que Almada Negreiros ordenou: «Despe-te da farda/desenfia-te da Impostura/ e põe-te nu, ao léu/que ficas desempregado!».  Arthur desempregado da guerra. Nunca vestiria uma farda! Queria escolher os seus próprios inimigos e os seus aliados. Viveria entre os factos e acontecimentos virtuais, dono da sua própria biografia. Uma fatal pluralidade, chamou-lhe. Lia poemas para o público em cima de um palco, equilibrado numa perna só, e apresentava-se: «I’m Arthur Cravan. Poet & Boxer!».  Tirava a camisa, mostrava a peitaça, esticava os músculos e sussurrava, em francês, a língua que usava com os íntimos: «Je mangerais ma merde».  

 

É muito fácil escrever sobre Arthur Cravan. Aliás ele escreveu-se sem pruridos: «Dancing, fucking, boxing, walking, running, eating, swimming». Eu gosto de escrever sobre Cravan e sobre os milhares de episódios que se empilharam desacertadamente sobre a sua vida curta, ou talvez não. Ele endeusava Oscar Wilde, não por acaso seu tio, e Jack Johnson, outro Arthur, o Gigante de Galveston, o primeiro negro campeão do mundo de pesos pesados. Em Abril de 1916, nas Canárias, à míngua de tostões, nem sabia viver de outra forma, desafiou Jack Johson para um combate combinado e aguentou-se como pôde. Ganhou que chegasse para rumar a Nova Iorque. E ter, como já vimos, outra existência e, também, o final dela e das outras todas. O seu descaramento era suficiente para se intitular Campeão da Europa. E para ficar ao lado de Jack quando este se viu perseguido pelas autoridades americanas. Motivo? «Immoral purposes!». 

Jack Johnson era igualmente descarado. Tão descarado que só teve mulheres brancas, de Alma Toy a Etta Terry Duryea, de Lucille Cameron a Irene Pineau. Coisa que o estúpido puritanismo não aceitava de bom grado. Foi acusado de viajar com mulheres brancas entre Estados com  objetivo de comportamentos imorais. Se esta acusação era absurda, o facto de usar as companheiras como saco de pancada não era brincadeira nenhuma. Foi condenado a um ano de cadeia. Fugiu. Esteve sete anos a combater pelo planeta até que decidiu aceitar os doze meses de reclusão na penitenciária de Levenworth. Quando lá chegou, Cravan já era o fantasma eterno.  Tinha escrito: «Deixando as dívidas para trás/Rebolei como um ovo na verde loucura da relva...».  Talvez a sua loucura fosse verde. Verde-absinto.