Desporto

Xadrez. Carlsen forçou os playoffs para mostrar quem é o rei da estratégia

Três semanas depois do início da final, o prodígio norueguês tornou a mostrar quem manda: na hora da verdade, não deu hipóteses ao atrevido Fabiano Caruana. São já quatro títulos mundiais consecutivos

Custou, mas foi: depois de três semanas e 12 empates - algo inédito nos 132 anos de história dos Mundiais de xadrez -, Magnus Carlsen garantiu que o título mundial irá continuar consigo pelo quinto ano consecutivo. O norueguês, de 27 anos mas já há muito nestas andanças, venceu por claros 3-0 em Londres, no desempate por partidas rápidas, o atrevido Fabiano Caruana - primeiro norte-americano na final desde Bobby Fischer, em 1972.

No jogo 12, disputado na segunda-feira, Carlsen concedeu o empate a Caruana, depois de 31 movimentos (o número mínimo) onde pouco ou nada aconteceu. A decisão, na verdade, partiu do tetracampeão e surpreendeu tudo e todos - inclusive o próprio Caruana -, pois Carlsen tinha mais tempo no relógio e estava em posição dominante. “Fui um bocado surpreendido pela oferta do empate. Nunca conseguiria ter melhorado a minha posição e não tinha ideias ativas. Quando muito, as peças pretas estavam em vantagem”, afirmaria Caruana após o encontro, com Carlsen a mostrar-se resignado com o empate: “Só queria uma posição que fosse completamente segura, mas onde poderia colocar alguma pressão. Se o empate não tivesse sido um desfecho satisfatório, obviamente que teria feito algo de forma diferente.”

Esta postura, refira-se, valeu-lhe até críticas de Garry Kasparov, lenda dos tabuleiros de xadrez - venceu seis vezes o título mundial. “À luz do chocante acordo de empate do Magnus, numa posição dominante e com mais tempo, reconsidero a minha avaliação que o apontava como favorito para as provas rápidas. O tiebreak (desempate à melhor de quatro jogos) requer nervos de aço e parece-me que ele está a perder os seus”, escreveu o russo nas redes sociais.

 

Mais jogos, pedem os especialistas Nada mais errado, como se pôde perceber ontem, no dia de todas as decisões. Carlsen foi mais frio e calculista nas três partidas rápidas disputadas e venceu todas, não dando grandes hipóteses a Caruana, segundo do ranking mundial e 18.o nas provas rápidas. A jogar com as brancas, o norueguês - número um do mundo em absoluto... e também nas provas rápidas - assumiu o controlo assim que se deu início ao primeiro jogo, vencendo após 55 movimentos. Na posse das brancas, o norte-americano de 26 anos pareceu ganhar uma ligeira vantagem no decorrer da segunda partida, mas pressionou em demasia e acabou por permitir a reviravolta de Carlsen.

No terceiro jogo, já a precisar de duas vitórias consecutivas para forçar novo desempate e ainda com menos tempo, Caruana foi ainda mais agressivo; Carlsen, que só precisava de um empate, aproveitou para atacar e fechou as contas do título - embolsando também 550 mil euros de prémio final, com 450 mil a seguir para o norte-americano.

“Foi um jogo disputado até ao fim e quero dar os parabéns ao Magnus. Defrontei um dos melhores jogadores da história do xadrez e dei tudo o que tinha. Sinto que recolocámos este jogo no mapa na América e espero que sirva para inspirar uma nova geração de jogadores”, declarou Caruana nas redes sociais, logo após a derrota final.

E, de facto, as palavras do norte-americano têm toda a razão de ser. Esta final teve o condão de recolocar o foco mediático no xadrez, com toda a imprensa mundial a dar bastante relevo à mesma - a que não será alheio o facto de os Estados Unidos terem um representante na decisão pela primeira vez em mais de 45 anos. Era, também, a primeira vez desde 1990, no célebre embate entre Garry Kasparov e Anatoly Karpov, que os dois primeiros do ranking mundial se defrontavam na final - e separados por míseros três pontos (2835 contra 2832), com vantagem para Carlsen.

A lista de patrocinadores para o evento também demonstra esse interesse na prova: PhosAgro, uma gigantesca empresa internacional de fertilizantes baseada na Rússia; Kaspersky Lab, uma das principais empresas de segurança da informação do mundo; S. T. Dupont, um dos principais fabricantes franceses de artigos de luxo; Prytek, uma empresa russa de capital de risco especializada em tecnologia e serviços financeiros; e a Unibet, operadora de jogos de azar on-line que está ativa em mais de 100 países. Todas se associaram a esta final e não terão ficado defraudadas com a forma como a mesma decorreu.

Apenas um detalhe mereceu - como tem vindo a acontecer nos últimos anos - alguns reparos por parte dos especialistas: o número de jogos, considerado reduzido. Durante o torneio, Magnus Carlsen assumiu que não se importaria de fazer mais jogos; ontem, Caruana revelou concordar com o adversário. “Penso que 16 ou 18 rodadas estariam bem. Não estamos propriamente esgotados após 12 partidas, tenho a certeza que poderíamos jogar mais umas quantas. Mas pronto, jogamos com o sistema que temos”, frisou.

 

Confronto de prodígios Com este triunfo, Carlsen venceu a competição pela quarta vez consecutiva - segunda seguida no sistema de tiebreak - e igualou o russo Alexander Alekhine e o austríaco Wilhelm Steinitz na lista de jogadores mais titulados. O norueguês, recorde-se, é o segundo campeão mais jovem de sempre, tendo conquistado o primeiro título em 2013, com apenas 22 anos, ao bater o indiano Viswanathan Anand - que voltou a derrotar no ano seguinte, defendendo pela primeira vez o seu título e com sucesso total.

Carlsen, de resto, vem a destacar-se na modalidade desde muito cedo: aos 13 anos já era grão-mestre (o mais jovem de sempre até então, o que levou o “Washington Post” a apelidá-lo de “Mozart do xadrez”), aos 15 sagrou-se campeão da Noruega e aos 19, em 2010, tornou--se o mais jovem de sempre a chegar ao topo do ranking mundial. No seu país natal passou a ser tratado como uma estrela pop, com o próprio desporto a popularizar-se entre adultos e crianças. Em 2014 atingiu a pontuação mais alta na História: 2882 - que ainda hoje se mantém. No mesmo ano, além do título mundial, venceu o Mundial de rápidas e o Mundial de Blitz, tornando-se o primeiro xadrezista de sempre a deter os três títulos em simultâneo.

Mas Caruana não lhe fica muito atrás: coroado grão-mestre com apenas 14 anos, esteve este ano muito perto de ultrapassar Carlsen no ranking mundial, numa temporada a todos os títulos brilhante (chegou a ficar à frente do norueguês em vários torneios). Desde sempre foi visto como um prodígio no jogo: na adolescência, viu a família decidir que devia abandonar os estudos para se dedicar em exclusivo à arte do xadrez. Na antecâmara desta final, questionado sobre se a comparação com Bobby Fischer já faz sentido, respondeu desta forma: “Acho que é cedo ainda para falar nisso. Se eu me tornar campeão do Mundo, nessa altura, a comparação passará a fazer mais sentido.” Para já, ainda terá de aguardar mais um bocadinho.