Desporto

Golfo. Uma questão de Primos

A Taça do Golfo tem tanto de especial como de indefinido. As rivalidades são ferozes e os equilíbrios políticos inconstantes.

DR  

KOWEIT - Certo dia, George Orwell, o autor de 1984 e de O Triunfo dos Porcos, resolveu escrever sobre futebol. E saiu-se com uma série de frases muito pouco abonatórias para o jogo, a começar por esta: «Pleno de ódio, de inveja, de jactância, desrespeitando todo o tipo de regras e fervendo de uma sádica vontade de assistir a violência. Enfim, uma guerra sem os tiros».

George não gostava de futebol e, vendo bem, ninguém tinha o direito de estimar menos o que escrevia por causa disso. «É um desporto no qual todos de magoam e cada nação parece ter o seu estilo próprio, o que se torna injusto para os estrangeiros». Ora bem, aqui já há mais por onde se lhe pegue. O homem podia ter vontade de desancar no jogo e seus praticantes por dá cá aquela palha, mas sublinhava as suas particularidades nacionais.

Era precisamente aqui que eu queria chegar. Se há grupo organizativo de indiscutível idiossincrasia específica, esse é a Federação do Golfo Arábico, já que a politiquice parece ter levado ao banimento da expressão Golfo Pérsico. E que, de dois em dois anos, avança com uma das provas mais curiosas do calendário internacional: a Taça do Golfo.

Agora, alguns nomes que dirão, provavelmente, muito pouco aos nossos leitores, mas muito a quem vive na Península Árabe: Al Sabah, Al Said, Al Thani, Al Maktoum, Al Saud. Todos eles representam as famílias reinantes de países como o Koweit, a Arábia Saudita, o Qatar, ou vários dos emirados que formam os Emirados Árabes Unidos. Traçar as suas linhas sucessórias não cabe num texto como este e seria fastidioso para quem não é entusiástico pela genealogia. Acrescento apenas que entre a grande maioria delas, os laços de sangue e de matrimónio são fortes. E isso leva a rivalidades. Já agora, rivalidades de meninos ricos. Fulanos garantem para o seu país grandes prémios de Fórmula 1; sicranos optam por querer organizar torneios de ténis com as estrelas mais cintilantes da modalidade; beltranos chegam ao cúmulo do desplante de receberem uma fase final de um Campeonato do Mundo de futebol, tal como acontece com o xeque Hamad bin Khalifa bin Hamad bin Abdullah bin Jassim bin Mohammed Al Thani, do Qatar. E já não vou pelos caminhos estreitos das competições mais de gostos particulares, como a caça com falcões ou corridas de camelos. Tudo serve para acicatar o vizinho do lado. Muito provavelmente primo.

 

No topo!

Há um ranking para as selecções do Golfo, independente do ranking da FIFA, e nesse ranking o Koweit tomou a dianteira. Em 23 edições da Taça do Golfo, disputadas desde 1970 até este ano, venceu dez e tem uma final perdida. Mais do que os triunfos dos três outros países que se seguem todos juntos: Arábia Saudita (3); Qatar (3); Iraque (3). Os Emirados e Omã têm duas taças cada um e Bahrain e o Iemen estão de mãos vazias.

É, portanto, a família Al-Sabah que se enche de orgulho pelo feito dos futebolistas do seu rincão. Os emires do Koweit vêm da segunda metade de 1700 e o atual xeque, Sabah IV - Ahmad Al Jaber Al Sabah, é o décimo quinto na linha sucessória. Não misturemos, pelo meio, questões independentistas. Os emires foram mantendo privilégios nas fases de influência britânica na região, mesmo que o Reino Unido tenha apenas concedido a independência ao Koweit em Junho de 1961.

Entre 22 de dezembro de 2017 e 5 de janeiro de 2018, a última Taça do Golfo teve o seu lugar, mas só após a resolução de um ror de problemas, algo banal por estes lados. Inicialmente, deveria ter sido disputada no Iraque, mas a crise económica que assolou o país forçou a desistência. Avançou o Koweit. Por pouco tempo: a FIFA suspenderia a Federação do Koweit em Outubro de 2015 por interferência política. A organização foi atribuída ao Qatar, mas adiada um ano. Entretanto, a Federação do Koweit cumpriu as diretivas da FIFA e foi readmitida. A prova voltou-lhe para os braços. Satisfação e alívio para os Al Sabah, mas risos de alegria para o sultão Qaboos bin Said Al Said, do Omã.

Apesar da derrota inicial frente aos Emirados Árabes Unidos (0-1), o Omã avançou decidido para a final do Estádio Jaber Al Ahmad Al Sabah, na Cidade do Koweit: Koweit (1-0); Arábia Saudita (2-0); Bahrain (1-0); Emirados (0-0, com vitória após a marcação das grandes penalidades de desempate por 5-4). Minimalista, sim, mas essencialmente eficaz. E, ao mesmo tempo, uma declaração de força. De facto, o Omã garantiu a sua segunda vitória na Taça do Golfo no espaço de nove anos. Sempre aos tropeções com os calendários, as cinco últimas edições tiveram estes vencedores: 2009, Omã; 2010, Koweit; 2013, Emirados Árabes Unidos; 2014, Qatar; 2017-18, Omã.

É, aliás, uma questão de calendário que está a pôr em causa o futuro da competição. Bem, e não só. Afinal falamos de uma zona do mundo onde o sossego das areias dos desertos colide com a teimosia eterna dos homens ricos. Marcada para o próximo ano no Qatar, a Taça do Golfo deveria servir como teste para o Mundial de 2022. Pelo caminho, o rei Hamad bin Isa bin Salman Al Khalifa do Bahrain bateu o pé. E anunciou corte de relações diplomáticas com o Governo do xeque Tamim bin Hamad Al Thani, baseado nas repetidas tentativas do Qatar para desestabilizar a situação e prejudicar a segurança do Reino do Bahrein, bem como a ingerência nos seus assuntos internos, às provocações nos meios de comunicação e ao apoio ao terrorismo.

Com justificação ou sem ela, não tardou a ser seguido pelos Emirados Árabes Unidos, pelo Egito, pela Mauritânia, pelas Maldivas e pela a Arábia Saudita. 

Consta que por detrás da decisão está, sobretudo, a aproximação política entre o Qatar e o Irão que serviria para pôr em causa o domínio saudita da família do rei Salman bin Abdulaziz Al Saud da Arábia Saudita. Mas em questões diplomáticas consta-se muita coisa, como sabem. Outro ponto de conflito latente será a cadeia de televisão Al Jazira, sedeada em Doha, no Qatar, e que tem veiculado críticas muito duras à política internacional dos sauditas e à sua colaboração com os Estados Unidos da América. Ah! Já agora: a Al Jazira tem sido a maior impulsionadora da Taça do Golfo e possui os direitos de transmissão dos jogos. Matéria para ser resolvida em família...