Opiniao

Um par de salutares bofetadas é o que era

Graça Fonseca não gosta de olhar para os jornais portugueses. Prefere, por certo e como outras, olhar para o infinito ou mais além

Uma coisa ótima de estar em Guadalajara é que não vejo jornais portugueses há quatro dias».
«Não estava, obviamente, a criticar a comunicação social, mas a responder a uma pergunta sobre touradas».
«Deduzir uma crítica do recurso à ironia e do facto de não dispor ali de jornais em papel é claramente exagerado».
As frases são de Graça Fonseca, ministra da Cultura com a tutela da comunicação social, sucessora de Castro Mendes, que por sua vez sucedeu a João Soares na pasta mais trituradora de ministros do Governo da ‘geringonça’.
António Costa baralha-nos a todos. Ou então anda a querer tourear os portugueses. Com bandarilhas a sério, das que chegam ao nervo, e sem velcro.

Com João Soares, o seu primeiro ministro da Cultura que obrigou a demitir-se por ter twittado que daria «umas salutares bofetadas» a dois cronistas da imprensa portuguesa, veio a terreiro dizer que os ministros «nem à mesa do café podem deixar de lembrar-se que são membros do Governo».
Pois ficamos a saber que, para António Costa, os ministros só têm de comportar-se como ministros à mesa de um café em Lisboa, no Porto, ou numa ou noutra capital de distrito do litoral de Portugal continental. De outro modo, não conta. Muito menos se for do outro lado do Atlântico.
A sério. Até apetece emigrar. Não para deixar de ler jornais portugueses, mas para não ter de aturar governantes irresponsáveis, incompetentes, sem senso, sem vergonha (problema nos dias que correm: mas emigrar para onde, que não seja um país demasiado frio?).

Não pode um ministro da Cultura ironizar e oferecer um par de salutares bofetadas a um cronista, mas pode uma ministra da Cultura dizer que não lê nem gosta de ler jornais portugueses?
João Soares escreveu o que escreveu porque é leitor de jornais. E gosta de os ler, embora tenha todo o direito a não gostar do que alguém algures escreveu – no caso um cronista, ou melhor, dois.
O certo é que, na altura, foi manifestamente exagerada a onda de indignação contra o ministro, a começar pela oportunista oposição e a acabar no não menos oportunista primeiro-ministro – ficou bem patente, de facto, que António Costa não quis foi desperdiçar a primeira oportunidade para ver-se livre de João Soares sem ficar com o ónus da sua exclusão.
Seja como for, João Soares nem tempo teve para dizer ao que ia na Cultura, qual o seu projeto, qual o programa, quais as opções estratégicas e conjunturais. Ficámos sem saber, inclusive, se com Soares ainda haveria encenações de Luís Miguel Cintra no Teatro da Trindade, ou talvez não.
Porque João Soares ofereceu um par de bofetadas a Augusto M. Seabra e a Vasco Pulido Valente. Enfim.
Na realidade, João Soares não ofereceu coisa nenhuma. Desabafou, criticou, ironizou. Até com graça.

Já Graça Fonseca quis fazer exatamente o mesmo com a primeira página de um jornal que se diz de referência e que, na semana em que há vítimas mortais em mais uma trágica falha do Estado, central e local, faz manchete com a proposta de dois deputados de pôr velcro no touro e nas bandarilhas para evitar que haja sangue nas arenas portuguesas.
Preocupam-se mais com o sangue dos touros nas arenas?
Pois, a crítica ao semanário poderia vir de muitos leitores, mas não daquela não leitora.
Porquê? Porque Graça Fonseca – certamente como aquele jornal – acha que a tourada é uma questão civilizacional, concordando, aliás, com o primeiro-ministro, e também com este alinhando por certo na tese de que o colapso da estrada de Borba foi uma fatalidade em que o Estado não tem responsabilidade e o Ministério Público é que tem de investigar e averiguar o que se passou e tirar as suas conclusões quando as tiver que tirar, porventura e de preferência (para eles) já na próxima legislatura, ou reduzindo a culpa ao presidente da Câmara de Borba, que é de um movimento independente de cidadãos e, assim, até dá jeito.

Ana Gomes, desta vez, tem razão. As declarações de Graça Fonseca chocam pela «arrogância e insensibilidade, ainda por cima de alguém tão próximo do primeiro-ministro».
Citando João Soares (em sentido figurado, claro está) até apetece dar umas palmatoadas a alguém. Ou (também em sentido figurado, claro) dar uso àqueloutra expressão celebrizada por Jorge Coelho – que bem tem merecido todas as recentes evocações, porque, até hoje, foi o único socialista que não deixou a culpa morrer solteira e, perante tragédia com vítimas mortais, não esperou um minuto, e muito menos por um inquérito do Ministério Público, para assumir responsabilidades políticas e, bem assim, as do Estado, que tem de uma vez por todas voltar a ser pessoa de bem e protetor dos cidadãos. Que não é. Antes os continua a tourear. Com arrogância. E sem velcro.