Sociedade

Há lodo no cais

Rivalidade entre sindicatos em Leixões tornou-se, esta semana, caso de polícia. PJ investiga ameaças

A Polícia Judiciária vai investigar as ameaças de morte entre estivadores rivais do Porto de Leixões. As denúncias que chegaram à PJ na última semana incluíam alguns dos ‘avisos’ que apareceram colados nos automóveis de um dos responsáveis da empresa de trabalho portuário, Fernando Moreira - o homem que distribui trabalho pelo pessoal - e de América Vieira, dirigente sindical histórico no Porto de Leixões. Além das ameaças escritas, a PJ deverá também investigar relatos de uma presença intimidatória junto destes responsáveis, ‘gorilas da noite’ que os seguiriam nas imediações no porto e até junto às suas residências.

Segundo fontes contactadas pelo SOL, o processo irá para a Secção Regional de Combate ao Terrorismo e Banditismo, unidade da Diretoria do Norte da Polícia Judiciária que trata do crime mais violento, o mesmo departamento que recentemente investigou com êxito o caso do empresário de Braga raptado à frente da filha e assassinado com ácido sulfúrico. Sinal de que a polícia atribui já alguma gravidade ao que se está a passar no Porto de Leixões.

O caso foi avançado pelo JN e o processo já tem anexos com os ‘avisos’ que incluem expressões como «se não seguires as regras vamos te partir todo, seu palhaço» ou «soubemos que ontem voltaste a fugir às regras, prepara o corpo para levar porrada». 

Pelo menos três pessoas - além do empresário e do sindicalista, também um operário - terão sido alvo destas supostas ameaças. Fernando Moreira e o mecânico Fernando Pires não comentam o caso. Já Américo Vieira, do Sindicato dos Estivadores do Douro e Leixões (ver entrevista ao lado) aponta baterias ao recém-criado núcleo do sindicato rival, o Sindicato dos Estivadores e da Atividade Logística (SEAL). Algo que o sindicato presidido por António Mariano negou ao SOL.

Certo é que o clima é de ‘cortar à faca’, constatou esta semana o SOL no terreno. O setor já é um meio de ‘faca na liga’, mas a situação piorou por causa da greve em Setúbal e das ondas de choque que provocou em Leixões, com muitas acusações mútuas entre duas organizações sindicais dos estivadores.

Na base dos conflitos, que se têm agudizado desde há dois anos e meio, estará uma ‘contagem de espingardas’, isto é, uma luta pelo maior número possível de associados. Em maio de 2017, a sede do sindicato local chegou mesmo a ser invadida durante uma assembleia-geral, desacato que acabou com a intervenção da PSP. A polícia teve de manter-se no local até ao fim dos trabalhos. O MP arquivou entretanto o processo, mas o Sindicato dos Estivadores do Douro e Leixões quer que o caso chegue à justiça e pediu a instrução. 

Américo Vieira. Sindicato do Douro e Leixões: ‘A greve em Leixões é um embuste’

Américo Vieira, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores, Conferentes e Tráfego dos Portos do Douro e Leixões (SECTPDL) e presidente da assembleia geral da Federação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores Portuários (FNSTP), confirma ameaças contra pessoal e não hesita em apontar o dedo aos dirigentes do rival Sindicato dos Estivadores e da Atividade Logística (SEAL). Em entrevista exclusiva ao SOL, não poupa António Mariano, o líder do SEAL, dizendo que esta estrutura sindical «persegue, ameaça e exerce coação física sobre os nossos trabalhadores».

As alegadas ameaças continuam depois das recentes denúncias de perseguições?

As ameaças não são de agora, acontecem desde meados de 2016, altura em que alguns dos trabalhadores do Porto de Leixões se filiaram no Sindicato Nacional dos Estivadores, Trabalhadores do Tráfego, Conferentes Marítimos e Outros, momento a partir do qual o clima de medo se instalou. Elas andam por aí. Antes da tentativa de invasão pelo SEAL [Sindicato dos Estivadores e da Atividade Logística], Leixões sempre foi um porto com paz, de convivência pacífica e colaborante entre todos.

O SEAL diz que promovem represálias aos estivadores que não se filiam no vosso sindicato. Como comentam essa afirmação?

É mais uma campanha de difamação. Nós nunca invadimos assembleias gerais de outros sindicatos na tentativa de evitar novas filiações. Nós nunca agredimos dirigentes de outros sindicatos. Nós nunca sequer ameaçámos estivadores que se associaram a outro sindicato e muito menos ameaçámos trabalhadores que, fazendo do seu trabalho o sustento da sua família, se disponibilizaram para fazer trabalho extraordinário. É o SEAL que persegue, ameaça e exerce coação física sobre os nossos trabalhadores, que tenta hipocritamente disfarçar, acusando-nos a nós daquilo que ele próprio faz e fingindo vitimizar-se.

Como comentam as afirmações do SEAL, segundo as quais o vosso sindicato «representa exclusivamente os direitos dos patrões e dos estivadores históricos, deixando os outros estivadores sem defesa»?  

Nada mais falso. Esse tipo de argumentos, de jogo sujo, que esse senhor já nos habituou ao longo de décadas, já não colhem e não merecem serem rebatidos, tendo uma finalidade: denegrir a imagem do nosso sindicato e, por esse meio, ‘angariar’ trabalhadores para as suas fileiras. Esse tal Mariano não tem escrúpulos em recorrer à calúnia mais infame. E a forma de se desviar a atenção é sempre a mesma: vitimizar-se cinicamente, atacando Leixões, cujo sindicato é o que mais inveja lhe provoca.

É verdade, que cerca de 30 anos depois, o vosso sindicato subitamente abriu possibilidade de adesão de novos sócios apenas e só por causas do surgimento do SEAL?

É verdade que, durante esse tempo, não se verificaram admissões no sindicato. Mas também não houve contratação de novos trabalhadores. O nosso sindicato nunca andou à caça de filiados, como anda desenfreadamente o SEAL, para arrecadar 4% de descontos sobre o salário de cada um. Então e já em período recente foram admitidos novos trabalhadores, para fazer face às necessidades de mão-de-obra e o nosso sindicato passou a filiar os estivadores que manifestaram interesse nessa filiação. O SEAL, com promessas irrealistas, arrebanhou uma vintena de trabalhadores para as suas fileiras, acusando hipocritamente o nosso sindicato de lhes recusar a filiação. Mas alguém acreditará que um sindicato, seja o nosso ou qualquer outro, recusa filiação de novos trabalhadores? A verdade é que os que se filiaram no SEAL nunca solicitaram, nem antes, nem depois, a sua inscrição no nosso sindicato. E a verdade é que o SEAL tudo fez para impedir a filiação no nosso sindicato: chegou ao ponto de promover, com violência e agressões físicas, a invasão da assembleia geral convocada para deliberar precisamente essa filiação.  O nosso sindicato defende e promove a livre filiação, não acreditando em monopólios sindicais.

No caso do Porto de Leixões, entendem haver justificação para uma greve neste momento?

Nem em Leixões, nem em outro porto. A greve declarada de ‘solidariedade’ não é mais do que um embuste, usando os trabalhadores só para prosseguirem uma agenda pessoal e política. Mas greve em Leixões porquê? O nosso sindicato sempre negociou e obteve dos patrões, nos últimos 25 anos, aumentos salariais como em nenhum outro porto do país, nem sequer em outro setor. As nossas empresas de Leixões não faltam e nunca faltaram aos seus compromissos laborais, nem estão à beira da falência, como sucede em Lisboa e na Figueira da Foz, cuja insolvência será declarada talvez ainda este mês ou já em janeiro próximo, causando assim a miséria a todos os trabalhadores do SEAL que se prestaram à vassalagem ao Mariano, tal como aconteceu em Aveiro no ano de 2012. 

Osório Sousa. Delegado do SEAL em leixões: ‘Há um esquema mafioso no Porto de Leixões’

O delegado do Sindicato dos Estivadores e da Atividade Logística (SEAL), Osório Sousa, afirmou ao SOL que «existe um esquema mafioso no Porto de Leixões» e nega qualquer tipo de ligação da sua estrutura sindical às ameaças a dirigentes e trabalhadores.

Em declarações exclusivas ao SOL, Osório Sousa desmente assim as afirmações de que elementos do SEAL estarão por detrás, direta ou indiretamente, dos ‘gorilas da noite’ que terão abordado um empresário, um sindicalista e ainda um mecânico do Porto de Leixões. E devolve a acusação: «Toda a gente sabe que foram eles próprios, ou alguém por conta deles, a colocar esses tais cartazes, para se fazerem de vítimas. Aliás, a linguagem usada nesses papéis nem é sequer própria de estivadores, que na verdade usam palavrões mais fortes».

Osório Sousa diz ainda que o sindicato nada tem a temer com a intervenção da PJ. «Em face das primeiras notícias que tenho visto, sou o primeiro - eu e os meus colegas do SEAL - a desejar que venham a Leixões as autoridades investigarem o que aqui se passa, em especial a Polícia Judiciária, que tem muito com que se interessar, de matéria criminal que se passa aqui todos os dias».

Osório Sousa, assim como o seu colega André Silva - também estivador no Porto de Leixões - referem mesmo «estar à espera» da PJ, a fim de denunciarem «situações concretas» de condutas criminosas. «Não é por acaso que são os turcos, a partir de Istambul, que mandam no Porto de Leixões, com o sindicato local integrado na federação nacional ao serviço dos patrões e apenas de preocupado com os seus estivadores históricos, deixando de lado os muitos precários», refere Sousa, sem querer entrar em pormenores, ‘para não dar o ouro ao bandido’. «A nós, quando nos integramos no SEAL, o que nos move é exclusivamente a defesa dos trabalhadores mais fracos, em especial os precários, mas o sindicato local está completamente ao serviço do patronato e não dos estivadores», continua.

«Os perseguidos somos nós e quem se filia no SEAL. Além de nos excluírem, em detrimento de outros, colocam-nos a nós, e a outros trabalhadores especializados, a varrer o cais, com os menos qualificados a fazer as nossas tarefas ou precários a serem nossos encarregados», acusa. «Enfim, isto é um ‘polvo’ com tentáculos bem fortes, só a PJ tem capacidade para acabar com esta máfia», remata o delegado.