Internacional

Brexit. Extrema-direita marchou nas ruas londrinas contra May

A manifestação liderada por Tommy Robinson contou com a oposição de uma contra-manifestação convocada pelo Partido Trabalhista

As ruas do centro de Londres foram hoje palco de duas manifestações. Uma, liderada pela principal figura da extrema-direita britânica, Tommy Robinson, contra a “traição do Brexit” e uma contra-manifestação convocada pelo movimento social Momentum, que apoia a liderança de Jeremy Corbyn do Partido Trabalhista. A polícia implementou um forte dispositivo de segurança, com unidades montadas e anti-motim, para evitar que as duas manifestações se cruzassem, temendo episódios de violência. 

Discursando para os seus apoiantes, Robinson elogiou a "visão maravilhosa" de milhares pessoas terem aderido à sua convocatória e afirmou que os políticos britânicos traíram o Reino Unido, numa linha discursiva caraterística da extrema-direita. Políticos, continuou, que o levaram a nunca votar nas eleições legislativas: "Nunca votei por não haver ninguém em quem votar". Agora, garante Robinson, a situação mudou, com todos os que não se revêem na política britânica tal como está a poderem votar no UKIP. "O UKIP pode ser uma voz das comunidades da classe trabalhadora".

Na Praça Trafalgar, onde as duas mobilizações ficaram próximas, deram-se algumas confrontações verbais, evitando-se, ainda assim, o contato físico. Enquanto a manifestação de “traição do Brexit” entrava em Whitehall pela praça, um manifestante de extrema-direita gritou “escumalha de esquerda, saiam das nossas ruas”. “Somos negros, brancos, muçulmanos e judeus. Pirem-se!”, gritou um contra-manifestante de volta. “Também somos gays!”. 

“É importante que as pessoas se organizem para se oporem a quaisquer tentativas para se relançarem e reorganizarem movimentos de extrema-direita”, afirmou Chris Price, de 45 anos, ao “Guardian”. Uma situação que parece ter hoje acontecido no outro lado do Canal da Mancha, com cerca de 15 mil manifestantes anti-racistas a cerrarem fileiras contra os apoiantes de Robinson, mas principalmente contra as ideias que defendem e propagam. "Tivemos uma unidade sem precedentes. Todos nós nos juntámos independentemente do partido ou fação e acordámos defender os nossos direitos democráticos", disse Weyman Bennett, co-organizador da contra-manifestação, ao "Guardian". "Acredito que a maioria das pessoas neste país rejeitam o fascismo e o racismo". 

O Partido Trabalhista, especialmente o Momentum, tem apostado na criação de redes e grupos para se opor ao fortalecimento da extrema-direita nas ruas britânicas. E a preocupação chega inclusive ao topo da hierarquia partidária, com um dos mais próximos de Corbyn, John McDonnell, a ter apelado aos militantes para que participassem na contra-manifestação. “Uma nova rede de ódio com energia acrescida e bem financiada está a surgir. De Steve Bannon nos EUA ao ex-líder da LDI [Liga de Defesa Inglesa] Tommy Robinson, e ameaça a nossa própria nação. O Partido Trabalhista deve estar na frente e centro da oposição”, afirmou. 

Recorde-se que o "Guardian" revelou no final da semana passada que Robinson conta com uma alargada rede de financiamento e apoio político que extravasa as fronteiras britânicas, incluindo dois think thank norte-americanos - o Middle East Forum e o Gatestone Institute - e uma organização da direita australiana, a Aliança Australiana pela Liberdade. Mas também de hackers e cibernautas russos, que, segundo a investigação do jornal britânico, viram a detenção de Robinson, em maio, como uma oportunidade para dividir a sociedade britânica através de propaganda nas redes sociais. Mais de 600 contas nas redes sociais foram identificadas como estando alinhadas com a Rússia. 

Robinson, que foi recentemente nomeado assessor do UKIP, levando à demissão em protesto de três dos seus deputados, é a figura mais mediática da extrema-direita britânica e tem estabelecido vários contactos internacionais, inclusive com Bannon e think thanks norte-americanos.

Com o Partido Conservador imerso numa guerra civil interna em torno do acordo do Brexit, a principal preocupação é que Robinson seja capaz de se afirmar como segundo polo à direita, conquistando o eleitorado pró-Brexit desiludido com o governo de Theresa May. "Existe o perigo real da extrema-direita - que agora inclui o UKIP - tentar instrumentalizar o Brexit para trazer novos apoios para a sua agenda racista", escreveu Nick Ryan numa coluna de opinião do "Guardian". 

Ontem, Dominic Grieve, antigo ministro conservador, afirmou à Sky News que o Partido Conservador pode sofrer uma cisão por causa do Brexit, enfraquecendo-o bastante. “O Brexit está a absorver toda a nossa energia e está a paralisar-nos gradualmente, e o mesmo se aplica ao Partido Trabalhista”, garantiu.

Com a saída do Reino Unido da União Europeia marcada para daqui a menos de cinco meses, independentemente de haver ou não acordo, as condições da economia britânica tenderão a degradar-se, porventura criando as condições económicas e sociais e, talvez, políticas para que Robinson se afirme como alternativa ao eleitorado britânico num momento em que a direita tradicional britânica se encontra profundamente dividida. Isto se não houver oposição do Partido Trabalhista e dos movimentos que o apoiam. 

Uma divisão à direita que ganha força com a revelação de três antigos ministros de May - Boris Johnson, Esther McVey e Dominic Raab - terem a intenção de concorrerem à liderança conservadora se a atual líder se vir forçada a demitir depois da rejeição do acordo no parlamento - a votação será na terça-feira.