Falar Baixinho

No caminho de uma escola mais familiar

Tenho esperança que possamos caminhar na direção de uma escola menos rígida e mais abrangente que vá ao encontro das necessidades de todos

Estava esta semana a pensar na lavagem dos dentes nas escolas quando nesse dia um dos meus filhos me traz uma informação para autorizar precisamente esse procedimento na sua. 

Se por um lado alguns profissionais de ensino alegam ser o bode expiatório de tudo o que corre menos bem nas crianças e acusam os pais de lhes quererem delegar todas as responsabilidades fugindo das suas, não podemos negar que as crianças passam um tempo bastante considerável dos seus dias sob a sua alçada. Em média uma criança do pré-escolar e ensino básico deve dormir cerca de 10-11 horas por noite, o que faz com que esteja acordada cerca de 13-14 horas, das quais uma média de sete-oito, quando não bastantes mais, são passadas na escola. 

Se, infelizmente, é para lá dos portões dos estabelecimentos de ensino que as crianças passam a maior parte do dia, e das suas vidas, a escola não se pode reduzir a um espaço de ensino clássico. Tão importante como aprender a ler e a contar é adquirir e desenvolver hábitos saudáveis, como o de higiene, sono, alimentação, responsabilidade e independência, atividade física, estudo, relações interpessoais, companheirismo, valores morais e brincadeira. Falar da escola como um sítio onde se vai para sentar e aprender o que está nos livros é extremamente reducionista e é uma forma de ver a escola que já não faz sentido.

 

Naturalmente não é fácil mudar o paradigma mas algumas medidas poderiam ajudar. A aproximação da família à escola seria a primeira. Um hábito saudável nas escolas pré-primárias é a facilidade que os pais têm em contactar com os educadores, quando deixam e também quando vão buscar os filhos há um momento de troca, sendo que na maioria das vezes a rutura deste elo é abrupta na entrada para o ensino básico. As crianças são deixadas e recolhidas para cá dos portões e o contacto com os professores é quase inexistente, a não ser que seja marcada uma reunião. Esta distância dá muitas vezes azo a uma certa animosidade e distância entre pais e professores. Outra questão foi a estranha ideia de construir modernos e inóspitos mamarrachos para reunir pequenas escolas da mesma freguesia (que ficaram ao abandono), o que aumentou consideravelmente o número de turmas e alunos, bem como os desacatos e a distância entre docentes e auxiliares com as crianças e mesmo destas entre si.

 

Apesar de alguns passos dados atrás, parece começar a haver uma maior consciência para algumas questões como se verifica, por exemplo, em diretrizes dadas pela Direção Geral de Saúde e Direção Geral da Educação seja no direito a dormir a sesta até aos cinco ou seis anos por todas as crianças que frequentem o pré-escolar ou o dever de executar a escovagem dos dentes na escola até ao ensino básico. A intenção está lá, falta o mais difícil que é conseguir pôr em prática. A sensibilização para a importância do brincar, do pensar e de trabalhar as emoções e relações com os outros também começa a surgir. Tenho esperança que aos poucos possamos caminhar na direção de uma escola menos rígida e mais abrangente que vá ao encontro das necessidades de todos. Por enquanto já me dou por muito satisfeita por ter começado a haver uma tolerância de dez minutos na escola dos meus filhos mais velhos, durante os quais ouvem música e confraternizam no recreio, em vez de serem ostracizados quando chegam dois minutos depois do toque. Para já, é uma forma bem mais simpática de começar o dia.