Opiniao

Soldados das trincheiras e homens das cavernas

A norte de Paris, não muito longe da fronteira com a Bélgica, existe uma zona de planícies agrícolas que há cem anos foi palco de disputas encarniçadas entre os Aliados e os Alemães. 

«O primeiro dia da ofensiva do Somme, 1 de julho de 1916, assistiu à mais pesada perda de vidas num combate de um só dia na história militar britânica», explica o historiador R. G. Grant no soberbo livro World War I – The Definitive Visual Guide. «Era apenas o início de uma carnificina sistemática que acabaria por provocar mais de um milhão de baixas».
Para que estes e outros horrores não caíssem no esquecimento, as autoridades francesas decidiram após a guerra manter intacta na planície de La Boisselle, onde decorreram esses combates, uma cratera de 90 metros de diâmetro aberta pela detonação de uma só mina britânica.

De facto, a artilharia era tão poderosa e letal que fazia estragos não apenas entre os homens mas até na paisagem. Em Verdun, para tomarem uma posição estratégica num monte ocupado pelos franceses, os alemães bombardearam-no com tanta intensidade que «nalguns locais a altura do cume ficou reduzida em sete metros»!

Além de informações deste género e de resumos dos principais momentos do conflito, World War I – The Definitive Visual Guide contém secções individuais sobre os protagonistas e os grandes e pequenos temas: a guerra química, intelligence e espionagem, os equipamentos e as fardas, a revolta da Páscoa na Irlanda, as incursões de zepelins, os submarinos, o naufrágio do Lusitânia, a medicina na época, os cartazes da propaganda, os escritores na guerra, etc., etc., etc. E tudo isto generosamente ilustrado.

Olhemos, por exemplo, para as páginas que mostram o material de combate nas trincheiras. Temos uma espingarda Winchester, cartuchos de munições, um periscópio, granadas, morteiros, pás de ferro afiadas, alicates para cortar o arame farpado. Até aqui tudo bem. Mais surpreendente é encontrarmos também uma grande variedade de punhais e de mocas, algumas das quais com pregos, para infligirem ferimentos mais graves nos adversários nos combates corpo a corpo. «Soldados de todos os lados envolvidos recorreram ao fabrico de armas caseiras».

Creio que este aspeto é bem revelador da natureza do conflito. Por um lado havia novidades sofisticadas como gás tóxico, aviões de combate, zepelins, submarinos letais – era a guerra em todo o seu esplendor tecnológico. Por outro lado, havia momentos em que o homem ficava reduzido à sua condição mais primitiva. Tudo aquilo em que podia confiar era uma moca e a sua força bruta.