Internacional

Donald Trump. O princípio do fim?

O ex-advogado do Presidente foi condenado a três anos de prisão e agora o comité de financiamento da cerimónia inaugural está a ser investigado criminalmente. O cerco da Justiça aperta-se.

Michael Cohen, o ex-advogado de Donald Trump condenado esta semana a três anos de prisão, implicou diretamente o Presidente dos Estados Unidos num esquema de utilização indevida de dinheiro da campanha eleitoral para pagar o silêncio  de duas mulheres que haviam tido casos extraconjugais com o então candidato republicano à Presidência. Cohen afirma que Trump «estava muito preocupado» com o impacto que esses casos pudessem ter na campanha e instruiu-o diretamente para utilizar o dinheiro para calar as mulheres, a atriz pornográfica Stormy Daniels e a antiga modelo da Playboy Karen McDougal.

Em declarações à ABC News, o ex-advogado de Trump afirmou que é «claro» que este sabia que era errado fazer os pagamentos porque estava a violar as leis de financiamento de campanha. Mesmo assim, «ordenou-me que fizesse os pagamentos, ordenou-me que me envolvesse nesses assuntos», referiu.

Essa ideia é importante, a de que Trump sabia o que estava a ordenar quando pediu a Cohen para fazer esses pagamentos, porque as referidas violações da lei de financiamento de campanhas implicam que, quem dá a ordem, compreenda que se trata de um crime. O Presidente poderá estar em maus lençóis se se provar que, intencionalmente, pediu ao seu advogado para infringir a lei, como Cohen garante que aconteceu.

Na quinta-feira, Trump preferiu evitar as perguntas dos jornalistas sobre o caso. Respondeu apenas pelo Twitter para dizer que não fez «nada de errado» e que as acusações foram «acordadas» por Cohen com o tribunal «apenas para embaraçar o Presidente». Na entrevista à ABC News, o advogado privado de Trump de 2006 a maio de 2018 foi direto: «O homem não diz a verdade. E é triste que eu tenha de assumir a responsabilidade pelos seus atos sujos». 

Cohen foi condenado na quinta-feira a três anos de prisão por crimes financeiros e por mentir ao Congresso. «Fui leal a alguém que, na verdade, não merece qualquer lealdade», confessou. «Muitas e muitas vezes senti que era meu dever encobrir os seus atos sujos em vez de escutar a minha consciência e a minha bússola moral», acrescentou o advogado. 

Depois de meses a negar que tivesse conhecimento de pagamentos durante a campanha, Trump mudou a sua versão esta semana. Agora já não é que não sabia de nada - a sua posição passou a ser que nunca pediu a Cohen para infringir a lei. Afirmação que acaba por desmentir a primeira de que não sabia de nada e abre espaço para a pergunta: se não estava a dizer a verdade da primeira vez, está a dizer a verdade agora?

Como escreviam Philip Tucker e John Wagner esta semana no Washington Post, «a estratégia atual sobre as alegações do suborno é típica de Trump: contar uma versão dos eventos até que esta se desmorona, a seguir contar uma nova versão e assim sucessivamente - até o perigo passar».

No entanto, a esta altura, o Presidente parece estar mesmo em maus lençóis e as suas versões parecem a caminho de se esgotar. Um antigo membro da Casa Branca, que pediu para não ser identificado, afirmou ao mesmo jornal que aqui estamos perante um crime: «E dá mau aspeto que o Presidente esteja diretamente ligado a ele e que, em circunstâncias normais, pudesse ser processado criminalmente? Sim. E isso não é coisa boa.»

O nervosismo tomou conta da Casa Branca, afirmam vários dos jornalistas creditados para cobrir o Governo. Desconforto que decorre não só do que poderá vir a suceder ao Presidente, mas também da forma como Trump descarta qualquer pessoa - mesmo as que lhe estão muito próximas -, para se livrar de quaisquer culpas.

 

Nova investigação

Com o Tribunal do Distrito Sul de Nova Iorque a investigar aprofundadamente a questão do suborno a Stormy Daniels e Karen McDougal - e a investigação do procurador especial Robert Mueller ao conluio da campanha de Trump com a Rússia a aproximar-se do epílogo - aquilo de que o Presidente menos precisava era ver abrir-se uma nova frente legal com a qual se preocupar. Mas aconteceu esta semana.

Desta vez é o comité criado para angariar fundos para a cerimónia da tomada de posse de Trump, em janeiro de 2017, que está a ser investigado criminalmente por um tribunal federal. A notícia foi avançada na quinta-feira pelo Wall Street Journal.  Em causa estarão abusos relacionados com os mais de 100 milhões de dólares que foram obtidos de múltiplos doadores. A «entrega de dinheiro em troca de favores políticos» é ilegal e será isso que está a ser investigado.

O New York Times, por seu lado, explicava na quinta-feira à noite que o gabinete do Ministério Público Federal de Manhattan está a investigar se pessoas de países estrangeiros canalizaram doações ilegais de dinheiro para o fundo da tomada de posse e para um Super-PAC (um comité de ação política) pró-Trump, de modo a comprar «influência sobre a política americana». A lei federal impede que os Super-PAC e os fundos de tomada de posse aceitem donativos de estrangeiros. 

No Twitter, Trump continua a escrever em maiúsculas «CAÇA ÀS BRUXAS», numa mensagem que é mais para os seus indefetíveis seguidores do que para convencer que, na verdade, está a ser vítima de um complô para o destituir da Presidência. Sendo certo que as possibilidades de um impeachment começam a ganhar mais forma, principalmente, a partir de janeiro, quando os democratas assumirem a sua maioria na Câmara dos Representantes.

Na terça-feira, o chefe de Estado, em entrevista à Reuters, garantiu que não teme o impeachment: «Não estou preocupado, não. Acho que o povo se revoltaria se isso acontecesse». Até porque, insistiu, não fez nada de errado e «criou a maior economia da história do nosso país».