Olhar ao Centro

O Brexit e algumas lições da história

«Se Hitler invadisse o inferno, eu elogiaria o diabo», Winston Churchill

Já há muito tempo que, por terras de Sua Majestade, se vai dizendo que quem quiser ler e conhecer argumentos para que o Reino Unido fique na União Europeia não deverá consultar jornais britânicos. 

Porquê? Perante os muitos conteúdos que têm sido publicados, isso é claro. Um estudo do Instituto Reuters atesta-o. Uma análise pormenorizada a mais de mil peças concluiu que a maioria tem sido arrasadora para a União Europeia. Com o jornal mais vendido, o The Sun, a ser o grande campeão a favor do ‘não’. 

O Brexit vai fazer com que 2019 seja, pela primeira vez, o ano da ‘subtração’ territorial, populacional e económica no projeto europeu. Com quase 62 anos de idade, a União Europeia (ex-CEE), que veio sempre a crescer até hoje, encolherá. 

Longe vão os tempos em que o general Charles de Gaulle e a França não viam com bons olhos - e vetavam - a entrada do Reino Unido na CEE, que acabou por entrar em 1973, conjuntamente com a Dinamarca e a Irlanda. 

46 anos depois, o Reino Unido vai sair, curiosamente com o atual Presidente francês, Emmanuel Macron, a fazer tudo para que não saia. Sobretudo, ‘a mal’. 

Em 1973, quando o Reino Unido entrou na CEE, o comércio internacional era 27% do PIB mundial; atualmente é quase 60%. Ou seja, duplicou em 43 anos. É caso para dizer que aquilo que a economia globalizou a política e a diplomacia fragmentaram. Olhando com frieza para os ‘ingleses’ durante o tempo de pertença à UE/CEE, há que reconhecer que nunca foram os maiores europeístas. Uma crítica permanente que faziam é que a Europa deveria preocupar-se mais com os cidadãos e menos com as variações do défice.

A Grã Bretanha é demasiado grande para sair sem dor. O Brexit não deixa de ser um filho dileto do nacionalismo. Esse debate também está aqui presente. Sobre a globalização e os ‘nacionalismos’. Dos que são a favor e contra. Será que o nacionalismo é hoje uma doença ou uma solução? 

Uma discussão que não deixa de chocar de frente com o ‘mito’ da soberania britânica. Com o mais do que certo destapar da panela das chamadas segundas e até terceiras pátrias, dentro do Reino Unido e na Europa (Escócia, Catalunha, Flandres e até a Baviera). Um dos impactos internos do Brexit na Grã-Bretanha será ter de se transformar num Estado federal? 

Muito do que temos assistido, no desgastante processo de negociação UE/Reino Unido, tem tido um cunho talvez excessivo ligado à ortodoxia dos números. Não se tem ouvido dizer, por exemplo, que a Europa sem os ‘ingleses’ poderá ser menos democrática e mais burocrática. Sim, burocrática. Em planos diversos. Como é o caso do debate das suas políticas, ficando mais refém de uma espécie de ‘monolitismo político’ de influência alemã. 

De certa forma, a Grã-Bretanha vai fazer falta à Alemanha.

Toda a gente se meteu na política doméstica inglesa para influenciar os resultados do referendo e das negociações. 

Obama tudo fez para que a Inglaterra ficasse na EU - e Trump para que saísse. Uma coisa é certa: a União Europeia com a Inglaterra é uma coisa e sem a Inglaterra será outra. Não deixa de ser pertinente recordar que em momentos difíceis e desafiantes o Reino Unido liderou a Europa - como foi o caso da luta contra o fascismo e pela defesa da democracia demoliberal. 

A própria globalização precisa de um rosto humano. Quem o irá ser? Para muitos ingleses, deveria ser a Grã-Bretanha. E, por isso, só valia a pena ficar na UE para liderar. 

Para o escocês e ex-primeiro-ministro inglês Gordon Brown, a Grã-Bretanha corre o risco com o Brexit de entrar naquilo que vaticinou como de ‘território selvagem’. Porque vive toldada por um passado que não consegue esquecer e um futuro que não pode evitar - e que poderá (é o mais provável) não vir a ser o que deseja. 

São muitas as questões que ainda se levantam em várias áreas. Por exemplo: o que mudará na Europa no domínio das línguas? O inglês deixará de ser uma língua oficial? Os franceses não estão a dormir quanto a isso... Existem mais de três milhões de europeus em Inglaterra - mas vivem mais de dois milhões de ingleses nos países da Europa, metade dos quais (1 milhão) em Espanha.

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