Cultura

Leilão. O dia em que Proust destronou Baudelaire

O primeiro volume do romance mítico do escritor francês atingiu 1,5 milhões de euros num leilão em Paris. Quase duplicou assim o valor que em 2009 tinha sido pago por uma primeira edição de “As Flores do Mal”.

Um livro de Marcel Proust – uma edição raríssima de “Do lado de Swann” – bateu na passada sexta-feira, dia 14 de dezembro, o recorde para o livro francês impresso mais caro de sempre. Arrematada por 1,5 milhões de euros num leilão da casa Drouot em Paris, a obra (que corresponde ao primeiro volume do ciclo “Em Busca do Tempo Perdido”) destronou uma primeira edição de “As Flores do Mal”, de Charles Baudelaire, que em 2009 tinha atingido os 775 mil euros.

Considerada a obra fundadora do romance moderno, “Em Busca do Tempo Perdido” adquiriu, nos cem anos que transcorreram desde a sua publicação, um estatuto quase mítico, com as primeiras edições a serem troféus altamente cobiçados por bibliófilos. Mas este valioso exemplar do livro de Proust tinha a particularidade ter sido oferecido pelo próprio autor a Lucien Daudet, e pertencia agora à biblioteca do empresário e colecionador Pierre Bergé.

Ostentando o n.º 1 de cinco exemplares em papel japonês de uma série que não foi colocada à venda, o exemplar exibe uma longa dedicatória que já faz parte da história da literatura: “Meu caro pequeno, você está ausente deste livro:faz parte há demasiado tempo do meu coração para que eu possa alguma vez pintá-lo objetivamente, jamais será um ‘personagem’, você é a melhor parte do autor”, escreveu Proust em 1914.

Segundo a nota de apresentação da leiloeira, “Lucien Daudet e Marcel Proust travaram laços de amizade e partir de outubro de 1895, e, alguns meses mais tarde, tornaram-se amantes. Em fevereiro de 1897, uma alusão maldosa de Jean Lorrain a esta relação levou Proust a desafiar o crítico para um duelo.” 

Mais tarde, quando o grande romance de Proust começou a ser publicado, em 1913, Daudet (que era filho do famoso escritor Alphonse Daudet) seria dos primeiros a elogiá-lo, numa crítica do “Figaro”, e o autor ficar-lhe-ia para sempre grato por isso.

Clássicos antigos e modernos

Entre os lotes oferecidos pela leiloeira Drouot na venda de sexta-feira encontravam-se muitas outras preciosidades. Entre elas, uma primeira edição dos célebres “Ensaios” de Michel de Montaigne (1580), que tinha uma estimativa entre 400 mil e 500 mil euros e foi vendida por 682 mil; o manuscrito em pergaminho de uma tradução francesa anterior a 1508 e ricamente iluminada das “Vidas” de Plutarco, que atingiu um valor idêntico; ou aquele que é considerado o livro fundador da botânica moderna, “De historia stirpium commentarii insignes” (”Comentários notáveis sobre a história das plantas”, Basileia, 1542), do alemão Leonhart Fuchs, que foi vendido por 425 mil euros.E ainda um lote de cartas do pintor impressionista Edouard Manet, edições do século XVII de Cervantes e mais um sem-fim de clássicos antigos e modernos em condição imaculada e soberbamente encadernados.

Tendo realizado mais de oito milhões de euros no total, esta foi já a quarta venda com obras da biblioteca de Pierre Bergé, falecido em setembro do ano passado. Além da sua carreira como empresário, Bergé ficou conhecido pela sua relação com Yves Saint Laurent, que durou até ao final da vida do estilista. Ao longo da sua vida em comum, acumularam nas suas várias casas uma espetacular coleção de pintura e escultura, mas também de mobiliário, livros e outros objetos de luxo. A venda da coleção de arte do casal pela Christie’s, em 2009, realizou uns impressionantes 400 milhões de euros.