Sara ficará sem as suas terras se não matar mais de 100 renas até ao final do ano

Há quem crie renas para sobreviver e processe o Estado por “tentar acabar” com esta tradição. O próximo objetivo é chegar ao Tribunal dos Direitos Humanos

Muitos lapões dedicam-se à criação de rendas. Este povo é constituído apenas por cerca de 140 mil pessoas, que habitam nas zonas mais a norte da Suécia, Noruega, Finlândia e Rússia. Para muitos, a criação de renas é um modo de vida – agora, um deles decidiu processar o governo por tentar acabar com o seu meio de sustento.

Jovsset Ante Sara tem 26 anos e defende que uma das coisas mais importantes para a sobrevivência do seu povo é manter as tradições e as suas terras. Por isso mesmo, recusou-se a obedecer à lei norueguesa, implementada há mais de uma década, que limita o tamanho dos rebanhos de renas. O governo explicou na altura que decidiu implementar esta medida como forma de conter o crescimento exagerado da espécie.

De acordo com o New York Times, o rebanho de Sara devia ter, no máximo, 75 renas. Segundo as regras impostas, não pode ultrapassar este número, sendo forçado a ‘livrar-se’ das renas ‘em excesso’. Mas Sara recusou-se a acatar estas ordens: o seu rebanho tem entre 350 e 400 renas. Além disso, decidiu processar o Estado.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

#Reindeer herding is not just a job for many Sami, an indigenous people of fewer than 140,000 who inhabit mostly the northern reaches of Sweden, Norway, Finland and Russia. It’s a way of life. That’s why Jovsset Ante Sara has refused to abide by Norwegian laws, which limit the size of reindeer herds. Jovsset’s herd was capped at 75 but he has refused to cull his 350 to 400 reindeer, and took the government to court. “I sued because I could not accept to see my culture die,” he said. Jovsset lost his case before the Supreme Court and has accumulated fines of $60,000, with the threat of losing his land. The government has given him to the end of this year to comply or he will begin to accumulate additional fines, and eventually could lose his reindeer. The case is just one of the many battles the Sami of #Norway have fought over a long history with the government to preserve their culture and way of life. @nadiashiracohen took this photo of reindeer in #Kautokeino, Norway. Visit the link in our profile to see more. #🦌

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“Processei o Estado porque não conseguia suportar a ideia de ver a minha cultura morrer”, explicou ao jornal canadiano The Star.

As coisas não correram bem para este pastor, que perdeu o caso no Supremo Tribunal e acabou por acumular multas no valor de cerca de 40 mil euros. Agora, o governo deu-lhe até ao final deste ano para pagar o valor em atraso ou arrisca-se a perder as suas renas e os seus terrenos da Lapónia.

“O problema é que o Estado não diz quem tem de matar as renas. Deixa as famílias com esse problema nas mãos”, diz ao jornal Star Elle Márjá Eira, cantora, realizadora, mãe de duas crianças e criadora de renas. “Até a minha filha de 15 anos tem a sua rena. Todos nós temos”, acrescenta a mulher de 34 anos, residente na comuna de Kautokeino, aquela que é considerada o coração do povo lapão.

Para além disso, existe a questão financeira: se obedecesse à lei em vigor – que, em 2007, impôs um corte de 30% nos rebanhos – Sara diz que conseguiria lucrar apenas entre 3000 e 4000 euros num ano. “Iria perder tudo pelo qual os meus antepassados tanto lutaram – esta criação, estas terras”, defende.

Sara não desiste deste caso e vai recorrer para o Tribunal dos Direitos Humanos das Nações Unidas.

“Quando matamos uma rena, usamos todas as suas partes”

Há vários anos que este povo – um dos maiores grupos indígenas da Europa – enfrenta batalhas judiciais contra o Estado, com o objetivo de preservar as suas tradições e a sua cultura. Os lapões foram colonizados pelos missionários cristãos e obrigados a abandonar os seus rituais ligados ao Xamanismo.

Agora, o governo norueguês tenta compensar a forma como este povo foi tratado, através da criação de uma universidade Sami, o ensino da sua língua materna nas escolas locais e até o seu próprio parlamento – que tem apenas um valor simbólico.

Aliás, o Estado norueguês estabeleceu que a criação de renas é uma atividade exclusiva do povo lapão, concedendo licenças para o efeito apenas a quem tem ligações a esta cultura ancestral.

Hoje em dia, dos 55 mil lapões que vivem na Noruega, 10% dedica-se à criação de renas. Estima-se que existam cerca de 220 mil renas naquele país. Estes animais são depois mortos para que a sua carne seja vendida e consumida. “Quando matamos uma rena, usamos todas as suas partes”, explicou Sara: a pele é transformada em luvas e sapatos específicos para enfrentar as baixas temperaturas do norte da Noruega, a carne é vendida por todo o país e os chifres no mercado chinês.