Opiniao

«Em casa de menino de rua o último a dormir apaga a lua!»

Esta frase poética, que encontrei na Calçada de Santo António, em Lisboa, diz: «Em casa de menino de rua o último a dormir apaga a lua!». Trata-se da citação do poema do escritor brasileiro Giovani Baffô, que nasceu na Favela do Morumbizinho e que encontrou o seu caminho através da literatura, num percurso muito interessante.

Trata-se de uma frase simultaneamente poética e triste. Triste, porque nos mostra uma realidade que não deveria existir – a dos meninos de rua ou, em geral, a das pessoas que dormem na rua. Felizmente, em Portugal, o fenómeno a que se dá o nome de «crianças de rua» já não existe. Existem apenas casos pontuais de crianças que se encontram em fuga ou que, durante algum tempo, vivem na rua com um dos seus progenitores. Mas, em 1989, quando o Projeto Crianças de Rua foi criado pelo Instituto de Apoio à Criança, esta era uma realidade da cidade de Lisboa.

Numa altura em que a Europa se envergonhava da pobreza, especialmente infantil, o Projeto Trabalho de Rua com Crianças em Risco ou Situação de Marginalidade, criado ao abrigo do Programa europeu de Luta Contra a Pobreza, através da criação de laços com as crianças que vagueavam e dormiam na rua, nas grelhas do metropolitano, e que não eram protegidas nem mesmo acompanhadas por nenhuma instituição, foi capaz da proeza de tirar da rua mais de 600 crianças, que voltaram ao seio familiar ou às instituições de onde tinham fugido.

Infelizmente, há pelo mundo muitas situações em que grupos de crianças se veem forçados a dormir na rua. As regiões mais afetadas são a África subsariana, a Europa de Leste, o sudeste asiático e a América do Sul, onde, por exemplo, no Brasil, segundo informação oficial, há 24 mil crianças que vivem na rua. O número estimado pela UNICEF é de que 100 milhões de crianças crescem nas ruas urbanas por todo o mundo, sendo difícil quantificar o seu número exato. É, pois, muito difícil encarar esta frase apenas na sua essência poética.

Mas, a poesia que lhe está associada faz ecoar o conhecido poema de Cecília Meireles, sobre uma criança triste: «Cabecinha boa de menino triste, / de menino triste que sofre sozinho, / que sozinho sofre, – e resiste / (…) / que do alto se inclina sobre a água do mundo /(…) / Para ver passar numa onda lenta e fria / a estrela perdida da felicidade / que soube que não possuiria». 

Ora, a ideia de alguém apagar a lua ao adormecer é mesmo muito bonita. Porque, efetivamente, quem dorme ao relento, ao adormecer, fechando os olhos, acaba, na realidade, por fazer com que a lua se apague, pelo menos para si. Porém, esta lua é, como sugere Samuel Bak no seu quadro e no título que lhe dá, uma nova lua sobre uma paisagem velha…

E a poesia dá-nos uma imagem bela daquilo que muitas vezes é o seu oposto. A poesia transmite-nos a realidade, dura e crua, pelos olhos encantados do poeta, que vê o mundo filtrado pela sua sensibilidade, pela beleza que é capaz de observar e que, para os outros, não é atingível, ou, mesmo quando o é, estes não são capazes de a transmitir por palavras que alcançam uma outra dimensão.

E a «casa» de quem dorme na rua é o mundo, o mundo todo, o mundo que, para quem tem uma casa real, onde irá celebrar o Natal, não existe (aproveito para desejar a todos Feliz Natal!).

Esta frase é, assim, bela e triste, de uma beleza transcendente, mas de uma tristeza profunda, que implica uma reflexão séria e nos leva a contactar com uma realidade pungente, porque, como diz Isabel Rio Novo, em A Febre das Almas Sensíveis: «As tragédias são sempre individuais. Cada uma é o mundo inteiro a sós». E, muitas vezes, esquecemo-nos disso, porque, quando vemos tragédias contadas na comunicação social, é como se elas fossem coletivas, o que minimiza a nossa empatia com o sofrimento dos outros e reduz o nosso próprio sentimento de compaixão e sofrimento. Mas, cada tragédia é, na realidade, individual, porque cada um de nós é uma pessoa distinta. Cada um de nós é apenas uma mulher ou um homem…

 

Maria Eugénia Leitão