Hoje Escrevo Eu

Ui... o poder de compra, afinal, baixou!!!

Os portugueses perderam poder de compra em 2017. E Centeno acha que não há razões para contestação social? Não estivesse o PCP na ‘Geringonça’...

Há muita coisa que não bate certo entre o discurso do Governo e da ‘Geringonça’ e a realidade vivida pelos portugueses e retratada pela crueza dos números.

Ainda esta semana, numa singular audição em sede de comissão parlamentar, o ministro Centeno desdramatizou a contestação social, as greves setoriais de estivadores, professores, enfermeiros, médicos, técnicos de diagnóstico, farmacêuticos, juízes, funcionários judiciais, polícias, guardas prisionais, bombeiros, voluntários e sapadores... parece que não há corporação ou classe que escape à onda de protesto.

E o que disse Centeno no Parlamento? Que não há contestação e insatisfação social, que os portugueses estão é mais exigentes e ambiciosos em face da melhoria da qualidade de vida registada nos últimos anos por força das medidas deste Governo no sentido de devolver rendimentos aos portugueses e reduzir-lhes o esforço fiscal.

E isto porque desde muito cedo o ‘discurso oficial’ do Governo socialista e seus parceiros de maioria parlamentar foi o de que os compromissos firmados pelo PS de António Costa com o PCP e com BE foram todos cumpridos em pouco mais de um ano de reversão das medidas do Governo anterior e que de então para cá os funcionários públicos e os portugueses em geral não pararam de recuperar direitos e rendimentos perdidos durante os anos da troika e do Executivo de austeridade de Passos Coelho.

Como se por um drible de magia ou por um ‘tomahawk’ do Cristiano Ronaldo do Eurogrupo fosse possível subjugar a Europa e reeditar na economia portuguesa os efeitos do golo de Éder no Parque dos Príncipes naquele verão de 2016.

Não houve magia alguma nem coisa que se pareça. Reduziram-se impostos diretos, mas aumentaram-se os indiretos, e de tal forma que, feitas as contas, nunca os portugueses pagaram tantos impostos, taxas e coimas, ainda que o recibo de vencimento possa ter servido a ilusão de quem se quis ou quer deixar iludir.

António Costa teve sorte: porque beneficiou da conjuntura externa, de boa comunicação interna e, sobretudo, de ausência de Oposição.

Mas também teve muito azar: porque as evidências das cativações e do desinvestimento de anos de crise a fio traduziram-se em sucessivas tragédias com um elevadíssimo preço em vidas humanas e custos patrimoniais.

Não veio o diabo na economia, mas não deixou de manifestar-se por variadíssimas formas, demonstrando que ainda estamos muito longe da bonança, quando já muitos preconizam novas tempestades.

É certo que nem tudo foi mau - aliás, seria de estranhar se assim não fosse depois de tanto sacrifício e austeridade.

Mas nem tudo está tão bem como o Governo PS e seus parceiros PCP e BE querem pintar.

Se estivesse, os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) no final da semana passada e reforçados pelo Eurostat não colocariam Portugal na cauda da Europa em matéria de poder de compra e de bem estar das famílias.

Sim, porque de acordo com o INE e o Eurostat, e contrariando tudo o que tem vindo a ser propagandeado pela ‘Geringonça’, os portugueses perderam poder de compra em 2017!!! E baixaram na produtividade!!!

Como é que é? 

Então o Governo não diz que devolveu rendimentos aos portugueses a ritmo nunca antes visto? 

E que a carga fiscal baixou imenso? 

E não é um facto que a empregabilidade atinge números históricos?

Então como podem os portugueses ter perdido poder de compra e o PIB per capita também ter baixado?

Ui... isto não bate mesmo certo.

Mas bate... só que com a realidade.

Os impostos diretos baixaram mas os indiretos dispararam e a carga fiscal vai batendo recordes sucessivos. 

O emprego aumentou mas o salário médio baixou - ou seja, aumentou o emprego menos qualificado e mal remunerado.

E a nossa produtividade - muito provavelmente em consequência direta dessa desqualificação - também baixou.

Por isso, ao contrário do que Mário Centeno e António Costa tanto propagandeiam, e do que também o PCP e o BE alardeiam, os portugueses não estão melhor nem mais bem preparados para enfrentar a crise que um dia há de chegar. 

Muito pelo contrário.

Esperemos, por isso, que ainda haja tempo para atalhar caminho.

E que o atalhemos... de facto. 

Sem nos deixarmos iludir nem por discursos que não colam com a realidade, nem pelos insucessos (como o de ontem) de movimentos inorgânicos que ainda  pouco ou nada dizem aos portugueses.