Economia

Turismo. Travão não afasta novos hotéis

Só para o próximo ano estão previstas 65 novas unidades. Mas os riscos agora são maiores e podem contribuir para desacelerar ainda mais a atividade. É o caso da falta de capacidade dos aeroportos, a escassez de recursos humanos e o Brexit.

A pesar dos sinais de abrandamento do turismo em Portugal, o número de turistas que continua a chegar ao nosso país não afasta o interesse dos investidores, nem trava o aparecimento de novos hotéis. E os números falam por si: só para o próximo ano deverão surgir mais 65 novas unidades - só em Lisboa são esperados 23 hotéis e o Norte do país deverá receber 17 - assim como 10 remodelações.

A explicação é simples: Lisboa e Porto são as áreas que registam o maior número de dormidas de turistas e são também aquelas que têm tido maior procura por parte dos investimentos hoteleiros. O que é certo é que, grande parte deste número já estava previsto para 2018. Mas por atrasos nas obras e por outros motivos, nomeadamente de licenciamento, a sua construção foi adiada para 2019.

Um impacto que ganha maior relevo se a esta aposta juntarmos ainda os dados relacionados com a criação de emprego. Isto porque aliado à diversidade da oferta também a explosão do turismo tem contribuído para a criação de novos postos de trabalho. De acordo com a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), só este setor criou mais de 21 mil novos postos de trabalho no primeiro trimestre do ano.

«O início de 2018 supera, pela primeira vez desde há 10 anos, o volume de empregabilidade registada no Canal HORECA no primeiro trimestre, com um total com 315.500 postos de trabalho, e com uma variação homóloga de mais 21.400 novos postos de trabalho. A restauração criou, por si só, 17.400 novos postos de trabalho e o alojamento mais 4 mil», diz a associação.

José Manuel Esteves, diretor geral da AHRESP, garante ainda que, mesmo em época baixa, as empresas estão a contratar, «o que significa que estamos no bom caminho no que respeita ao combate da sazonalidade».

Aliás, essa tem sido uma pedra de toque do setor. Segundo a secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, a batalha tem vindo a ser ganha, com mais turismo ao longo de todo o ano, o que garante receitas nos vários meses e geração de emprego que não seja apenas sazonal.

 

Sinais de constrangimento

Mas mesmo com esta aposta, os hoteleiros já alertam para alguns constrangimentos. Se os custos com utilities (água, gás, eletricidade) preocupam o setor, também o Brexit vai fazendo soar cada vez mais os alarmes que ganha maior fôlego junto dos responsáveis do Algarve e da Madeira. «O Brexit e contratação do mercado do Reino Unido não só sobe a 2º lugar no ranking das preocupações (em 2017 havia sido sinalizado como preocupação para 2018 apenas por 6% dos inquiridos). Como é preocupação para os hoteleiros de quase todos os destinos nacionais (exceção Norte, Centro e Açores)», refere a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP).

A verdade é que o número de turistas britânicos tem vindo a baixar nos últimos meses. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), até setembro este mercado registou uma quebra de quase 10%.

Já o Lazer, City breaks, Touring/Cultural são apontados pelos responsáveis do setor como os melhores segmentos para 2019. Mas apontam riscos: a capacidade dos aeroportos de Lisboa e Porto, a escassez de recursos humanos, falências de operadores/companhias aéreas são alguns dos entraves que poderão comprometer as metas turísticas.

Outra das preocupações em cima da mesa para o próximo ano é a taxa de ocupação por quarto. Apenas 22% acreditam que será melhor do que no ano anterior, sobretudo nas regiões norte e centro. Já a estada média, número médio de noites que um turista passa num hotel, «deverá ser idêntica à 2018». Mesmo assim, a maioria perspetiva uma melhor performance nas receitas e no preço médio.

Recorde-se que, nos primeiros nove meses do ano, os estabelecimentos hoteleiros receberam mais de 16,5 milhões de hóspedes, o que representa um aumento de apenas 1,3% em relação a igual período do ano passado, transformando-se num menor crescimento homólogo.

A somar a este recuo está ainda um outro sinal de travagem: nos primeiros nove meses foram registados mais de 46,12 milhões de dormidas, menos 0,53% do que em 2017.

Esta é a primeira grande queda neste indicador desde 2009, ano em que as dormidas diminuíram 7,5%. Para o INE, estas trajetórias descendentes podem ser explicadas sobretudo pelo mercado externo, já que o interno continua a dar sinais de crescimento.

 

Web Summit anima setor

Tal como aconteceu em anos anteriores, a Web Summit apresentou um grande peso na taxa de ocupação na hotelaria durante esses dias. A Área Metropolitana de Lisboa (AML) registou uma taxa de ocupação de 86% nesses dias e o preço médio por quarto rondou os 158 euros. No entanto, esses valores subiram para 93% e para 172 euros se tivemos apenas em conta as unidades hoteleiras apenas da capital. Ainda assim, longe de esgotar.

Aliás, 41% dos responsáveis dos hotéis na AML têm a perceção de que a taxa de ocupação foi igual à do ano passado e 58% consideram que o preço foi superior, enquanto em Lisboa 44% consideram que a taxa de ocupação foi superior à do ano passado e 64% consideram que o preço foi superior ao verificado no ano anterior.

França, Reino Unido e Portugal foram os principais mercados nas unidades hoteleiras de Lisboa, nos dias do evento.

No entanto, para o ministério da Economia, o alojamento em Lisboa poderá ser insuficiente para o aumento do número de participantes na cimeira tecnológica e, como tal, defende que é preciso aumentar a oferta.

 «O crescimento do número de participantes indicadas pela organização (cenário A) pode ficar limitado pela oferta hoteleira da Área Metropolitana de Lisboa. Segundo o INE, em 2017 esta oferta é de 80,4 mil camas, acrescendo a esta a oferta em alojamento local, a qual deverá ser próxima desse número. Para que seja possível alojar o número de participantes previsto para 2028 será necessário um aumento significativo da oferta», diz o estudo do ministério.