Desporto

América: um clube chamado Natal

Uma história que mete comedores de camarão, um juiz, dois coronéis e uma bola esfaqueada por um velhote ranzinza.

Foi nas margens do rio Potenji que nasceu a cidade brasileira de Natal. Fundada no dia 25 de Dezembro, como está bem de ver. Em 1599. Há várias versões sobre o maior protagonista dessa fundação, mas tudo aponta para que tenha sido um tal de Manuel Mascarenhas, capitão do exército, a erguer um forte no local de forma a defender a zona de possíveis ataques vindos do mar. 

Natal fica, por assim dizer, no nariz do Brasil. Vão ao mapa e vejam o que quero dizer. Rio Grande do Norte, tendo tido inicialmente o nome de Cidade dos Reis. Por pouco tempo, no entanto.

Natal tem um clube: o América Futebol Clube. A malta chama-lhe coloquialmente América de Natal. A ideia surgiu na casa do meritíssimo juiz Joaquim Homem de Siqueira, no bairro burguês da Cidade Alta. Isto em Junho de 1915. Mas nem todos os habitantes da zona simpatizaram com aquela rapaziada a jogar futebol pelos baldios que se abriam por aqui e por ali ou, ainda mais frequentemente, na praça Pedro Velho. Houve um velho ranzinza, o coronel Júlio Canavarro Negreiros de Melo que não esteve pelos ajustes: aproveitou um momento em que a bola saltou para longe dos moços que pelejavam com energia e enfiou-lhe uma faca pelas costuras com a ferocidade com que Jack o Estripador metia a lâmina nos abdómens das prostitutas de Whitechapel. Deu-se mal. Lá do alto da sua função de magistrado, o dr. Homem de Siqueira levantou-lhe um processo. Para que fosse possível litigar com o embirrento militar, o América foi obrigado a regulamentar-se com personalidade jurídica. Em 24 horas já tinha estatutos aprovados. Um grupo de 34 jovens estudantes, comerciante e funcionários públicos, trataram de oficializar o clube. Juntaram-se na rua Vigário Bartolomeu, onde vivia o meretíssimo, e decidiram logo aí que deixariam de jogar com camisolas azuis e brancas e passariam a vestir de vermelho. Afinal não era somente mais americano mas também seguramente mais natalício.

Em 1919, o América de Natal venceu o primeiro Campeonato Potiguar de Futebol. Potiguar? Pois, também me fez uma certa espécie. Potiguar é o gentílico dos naturais do Rio Grande do Norte. Vem do nome de uma tribo tupi que habitava a região. Potiguar ou potiguara queria dizer, à letra, comedor de camarão. Curiosamente, após a cristianização dos indígenas, os potiguares ganharam o apelido de Camarão. Convenhamos: vinha a calhar. E de todos os mais famosos Camarões, ergueu-se António Felipe Camarão, nascido Potiguaçu (grande camarão), um dos heróis das batalhas contra os holandeses aquando da tentativa de invasão do Século XVII.

O América Futebol Clube nunca foi campeão brasileiro durante os seus mais de cem anos de existência, mas não deixa de ser um dos clubes históricos do Brasil. «América, América! América, América!/Meu coração vibra nas suas cores/Eu sou América, América/É uma canção que canta mil amores, enfim», cantam os adeptos nas bancadas do Arena de Natal.

E chamam à sua equipa Orgulho do RN. Goste desse enfim final.

A grande rivalidade é alimentada desde sempre com o ABC, um clube que surgiu num meio muito elitista sob a proteção, vejam bem, de outro coronel, este não fura-bolas, de nome Avelino Alves Freire. No fundo, o América e o ABC são gémeos desse mesmo ano de 1915, sendo este último do mês de julho. Se o primeiro assenta a sua idiossincrasia num ideal americano, o segundo foi buscar o nome ao Pacto de Não Agressão, Consulta e Arbitragem assinado precisamente em maio de 1915. O tratado, que tinha como objetivo, diminuir a influência crescente dos Estados Unidos na América do Sul, nunca foi posto em prática. Já o ABC ficou como sigla de Argentina, Brasil e Chile, os países envolvidos. No dia 26 de setembro do inevitável 1915, num campo improvisado da praça Pedro Velho, América e ABC realizaram o primeiro jogo das suas existências. O ABC venceu por 4-1. Foi dia de festa em Natal.