Opiniao

A1, 6/10, 2019

Há eleições legislativas a 6 de outubro do ano que entra dentro de dias. Por isso, haja esperança: ano eleitoral é sempre ano eleitoral.

Por bons motivos, tenho andado quinzenalmente (e às vezes menos ainda) sul-norte/norte-sul, quase sempre pela A1, que, pelo piso e pelo traçado, é primeira escolha em relação à A8, apesar dos radares e da presença mais assídua da Brigada de Trânsito – até porque o pé, embora o corpo esteja bem mais pesado com o absentismo tabagista, parece ficar mais leve à medida que a idade avança.

Certo é que tanto pela A1 como pela A8 vale a pena fazer a viagem devagar o suficiente para se apreciar o país que temos. No muito que tem de bom. E no resto.

Porque quem, como eu, teve a sorte de viajar pelo Portugal inteiro no último terço do século passado e nestes dezanove anos do século XXI, pode bem ver as diferenças gigantescas do progresso. Para o bem – na esmagadora maioria – e para o mal – em não raros casos de desertificação no interior e sobrepovoamento no litoral.

Seja como for, benditas as autoestradas que encurtaram distâncias e tempo. Para norte, para sul, para o interior ou pelo litoral.

Não faz muitas décadas, de Faro a Bragança eram vários dias de viagem e de Lisboa ao Porto umas valentes horas, para não dizer dia inteiro, em épocas como o Natal, sobretudo quando circulavam camiões ou ’veículos longos’, carregados de madeira, cortiça, combustível, animais ou camionetas de passageiros – eram quilómetros e quilómetros de infortúnio e de marcha lenta, criando-se longas filas, até se conseguir uma reta com visibilidade e segurança suficiente para permitir a ultrapassagem. E quando havia acidente... 

E eram as curvas e contracurvas nas serras e o nevoeiro cerrado ou a chuva a aumentar as dificuldades de quem conduzia automóveis e viaturas sem os sistemas e recursos de segurança que hoje fazem toda a diferença.
Enfim...
Quem viaja não pode deixar de registar as diferenças. Seja para sul (está o Alentejo quase todo verde), seja para o norte.

Pela A1, dá gosto ver os pastos junto a Santarém, os extensos olivais a seguir, depois plantações de pinheiros mansos em série, e eucaliptais em filas sequenciais, e há campos de girassóis e também há vinhas, muitas vinhas, e lá para o vale do Mondego estufas que ainda não devem ser de cannabis mas lá chegarão.
As bermas estão mais limpas, é um facto.
Só que um olhar atento e crítico, em chegando às zonas mais afetadas pelos incêndios de 2017, de Leiria para cima, impõe-nos a inquietude.
Que raio?!?
Quem sai em Pombal, por necessidade ou simplesmente para ir ao arroz de tomate do Manjar do Marquês, ainda dá de caras com toneladas e toneladas de madeira ardida empilhada e a perder de vista. Um dó!
Pior, porém, é verificarmos a olho nu e sem grande margem de erro que as bermas da autoestrada, afinal, não estão assim tão limpas. Sobretudo de Coimbra para cima (e se sairmos para Oliveira do Hospital... aí o cenário é de horror e está tudo quase como ficou em outubro de 2017).

Não sei se aqueles metros que a lei impõe como margem de segurança são contados a partir do eixo da via (ou do separador central da autoestrada) ou se se contam da linha branca que baliza a faixa de rodagem. A verdade é que há pinheiros e eucaliptos de sobra que, em tombando, vão por certo atrapalhar, quando não impedir a circulação, porque muitos estão a menos de dois/três metros da beira da estrada. E não é na Estrada da Beira é em plena A1.
Não é que a A1 seja especial. Mas a verdade é que, se é assim na autoestrada que liga as duas áreas metropolitanas portuguesas – de Lisboa e do Porto –, como estarão as outras estradas, da Estrada da Beira às estradas mais secundárias, nacionais e municipais, que atravessam as florestas e matas do país?
Depois das tragédias de Pedrógão em junho e dos incêndios de 15 de outubro, o ano que finda não correu mal em matéria de incêndios, com a exceção de Monchique e apesar de não terem deixado de registar-se falhas.
Que, provavelmente, vão existir sempre.

Mas o pior que pode acontecer é descurar-se na prevenção, como é hábito entre nós, como hábito é chorarmos sobre leite derramado ou quando já de nada adianta.
Por que razão nunca mais se ouviu falar daquele senhor especialista em ordenamento florestal e na prevenção e combate aos fogos, que o Governo nomeou logo após as tragédias?
Por que razão andam os bombeiros – voluntários e sapadores – todos acesos com o Governo?
Em que ponto está o plano de reflorestação que tanto tempo vai levar a implementar e ainda mais algum se continuarmos a condescender?
Vale que 2019 está à porta e é ano eleitoral.
Por isso, haja esperança. 
E, já agora, votos por votos que sejam de um Feliz Ano Novo!