Opiniao

O ano de todas as promessas…

Temos um PR pródigo em declarações quase diárias, que se confunde com o Governo. 

No limiar de um Novo Ano, reaparece sempre a tentação de proceder a um balanço, com o positivo e o negativo do ano que se despede.

Façamos o mesmo, embora o que há de positivo seja fraco consolo para a soma de ‘irritantes’ negativos.  
A primeira conclusão óbvia é que somos um país de contrastes fortes. Temos 110 milhões de euros para alimentar, durante dez anos, a feira tecnológica da Web Summit, em Lisboa, a partir de 2019, mas continua a ‘marinar’ um investimento de 21 milhões no centro pediátrico oncológico do Hospital de S. João no Porto, para retirar as crianças dos contentores, onde continuam a ser tratadas sem condições.

Temos o preço por metro quadrado dos mais caros da Europa, na habitação e escritórios em Lisboa, com transacções milionárias, mas sobram as casas ao desbarato no interior, vítimas de uma desertificação imparável.
Temos hospitais e clínicas privadas em crescimento continuado, que prestam relevantes cuidados de saúde – sem greves nem cirurgias adiadas –, mas, em contrapartida, assistimos à barafunda e à degradação continuada dos hospitais públicos, com blocos operatórios paralisados, urgências superlotadas e corredores apinhados de gente em espera, sacrificando quem mais precisa. 

Temos escolas privadas que figuram todos os anos nos lugares cimeiros dos rankings oficiais em aproveitamento dos alunos, enquanto o primeiro estabelecimento público classificado (Escola Secundária Garcia de Orta) aparece em 32º lugar. Claro que a interminável luta dos professores – pastoreados pelo inamovível Mário Nogueira, líder (vitalício?...)  da Frenprof da CGTP – não entra  nos colégios, onde as greves ficam à porta e o programa lectivo segue o seu curso,  sem sobressaltos nem vazios de aulas. 

Temos cerca de 370 mil carros a entrar (e a sair) todos os dias de Lisboa, com o inevitável entupimento dos principais eixos viários urbanos, mas o executivo camarário preocupa-se mais em tutelar os operadores de transportes colectivos – como aconteceu já com a Carris e o Metro – do que em corrigir as gritantes insuficiências que se notam no seu funcionamento e nas frotas existentes, quer à superfície, quer na rede subterrânea. 

Temos a floresta dizimada, com largas manchas consumidas pelo fogo – de Pedrógão Grande ao Pinhal de Leiria, uma mata pública, recorde-se –, sem que se tomem medidas de fundo para proteger o que resta, descontados os ‘fogachos’ de Verão  de  governantes a fingir que limpam as matas,  com as televisões por perto.

Temos um banco público, dantes lucrativo, injectado com milhares de milhões dos contribuintes para o salvar do colapso, provocado por investimentos e empréstimos ruinosos, decididos por comissários políticos ao serviço do poder do dia, sem que até hoje tenham sido responsabilizados os seus autores e tão pouco divulgada a lista dos grandes devedores. Veremos se o Parlamento o conseguirá. 

Temos a Justiça lenta, a braços com demoras processuais inaceitáveis, minada por grupos de influência corporativa, que disputam a primazia, enquanto o ‘polvo’ dos poderes ocultos infiltra  os seus peões,  de forma a que os casos  mais mediáticos fiquem em banho-maria por tempo indeterminado, arriscando-se a  ‘morrer na praia’ para regozijo de suspeitos  e de acusados poderosos,  com advogados bem pagos. 

Temos um líder da oposição invisível que, metodicamente, destrói o partido com um comportamento errático, absurdo  e incoerente, constituindo-se como o melhor aliado de António  Costa, o qual , aliás, o  descarta,   como se viu na proposta disparatada de alteração da composição do Conselho Superior do Ministério Público. 

Deixou-o avançar, simulou que apoiava a ideia e largou-o quando se apercebeu das reacções da PGR e do próprio sindicato dos magistrados do Ministério  Público, que se apressou a  marcar uma greve para Fevereiro , como resposta  ao que considerou ser uma tentativa de mudar as “regras  do jogo” , pondo em causa  autonomia daquela estrutura. 
Temos um primeiro-ministro em exercício semeando ilusões, obcecado com a legitimação eleitoral, que tudo fará para a conseguir, e que teve a habilidade de atrelar à ‘geringonça’ o PCP e o Bloco, neutralizando dois partidos de protesto. 
Ao chegar ao último patamar da legislatura, proeza em que poucos acreditavam, António Costa foi ainda beneficiário de uma conjuntura externa favorável, e de uma conjuntura interna única, com um Presidente amigo que ‘cobre’ os seus erros (como nenhum outro anteriormente havia feito em diferentes cenários governativos) e uma oposição quase inexistente.  

Temos o favor e o amiguismo cada vez mais instalados na administração pública, marginalizando ou tentando marginalizar a CRESAP, entidade criada em nome da transparência para libertar o Estado da ‘partidarite aguda’. Infelizmente, há governantes que são avessos a esse conceito, como ainda recentemente aconteceu com a secretária de Estado da Administração Pública. 

Temos uma Protecção Civil incompetente, cuja desastrada actuação nos faz sentir continuadamente desprotegidos, inchada de boys, selecionados pelo cartão partidário e pelo amiguismo, em lugar de currículo e de apetrechamento técnico para a função.

Temos anunciado um plano pomposo de obras públicas – após um prolongado jejum –, que mereceu manchete do Expresso, com o ministro do Planeamento e das Infraestruturas a negar candidamente ao mesmo jornal que se trate de eleitoralismo.

Temos uma CP arrasada por cíclicas greves, com comboios envelhecidos – sem que tenha havido a preocupação de investir atempadamente na renovação do material circulante e da ferrovia –, e, no entanto, o ministro da tutela não se inibe de afirmar que «vamos fazer Porto-Lisboa de comboio em menos de duas horas». Quando? «Na próxima década», quando já ninguém se lembrar disso. Uma boa piada…

Temos um aeroporto internacional que continua às moscas em Beja, ruidoso investimento de 33 milhões de euros de um Governo socialista liderado por José Sócrates – com o apoio entusiasmado do PCP –, quando tarda em resolver-se o imbróglio de uma alternativa para o aeroporto da Portela, em vias de saturação, por entre pareceres técnicos e ambientais contraditórios, que adiam o lançamento do Montijo para as calendas.  

Temos uma imprensa em plano inclinado, por não ter sabido encontrar alternativas para contrapor à internet e às redes sociais, com a maior parte dos títulos a perderem leitores e alguns, que já foram de referência, reféns da agenda do governo. 

Um dos piores exemplos é o centenário Diário de Notícias, hoje aniversariante, que passou a semanário numa desastrada opção pelo domingo. Um fiasco. Menos de um ano decorrido, vai antecipar, ao que parece, a edição para sábado. É muita incompetência somada de administração e direcção editorial – que, pelos vistos, só agora se deram conta de que, independentemente da bondade dos conteúdos do jornal, escolheram o dia errado, em que dois terços dos pontos de venda estão fechados.    

Temos um estado que falha vezes demais, como reconheceu o Presidente da República, seja no combate aos fogos florestais ou na estrada que colapsou em Borba – ou, ainda, no tardio socorro a um helicóptero sinistrado do INEM –, mas ninguém se mexe para corrigir uma situação de que amanhã qualquer um pode ser vítima. 

Temos um Presidente pródigo em afectos e em declarações quase diárias, que se confunde com o Executivo, comprometendo o distanciamento que lhe seria exigível. Marcelo Rebelo de Sousa abdicou do lugar de árbitro para ser um jogador permanentemente em campo, desbaratando popularidade e perdendo-se como contraponto ao Governo e um factor de equilíbrio, acima dos partidos.  

Temos promessas a esmo em ano eleitoral e mazelas a mais, escondidas e silenciadas. Só vai ao engano quem quiser.