Internacional

Trump lava as mãos do Médio Oriente

Um relatório do Departamento de Defesa dos EUA fala no reforço de influência russa e chinesa na região. A situação fica mais instável com a retirada de tropas do Afeganistão e da Síria. 

 

Um relatório do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, apresentado ao Congresso, afirma que a Rússia tem vindo a intervir junto de forças afegãs, «incluindo os talibãs», como o objetivo de «expandir a sua influência na região», e «estabelecer um tampão de segurança no norte do Afeganistão». 

Apesar das tensões entre o Governo afegão e russo, devido às relações da Rússia com os talibãs, Moscovo procura «renovar a venda de armas, serviços de manutenção e treino [militar]» que tem vindo a proporcionar a Cabul. 

O relatório considera também que a China tem conseguido avanços no país. É referido que «o envolvimento militar, económico e político da China no Afeganistão é guiado pela preocupação de que o terrorismo se espalhe». Tropas afegãs ivão receber treino na China, como objetivo de formar uma brigada de montanha que patrulhe o corredor de Wakhan, que liga os dois países.  

O relatório considera que a China também pretende «proteger os seus investimentos económicos na região». Um bom exemplo disso é o caso dos depósitos de cobre de Aynak, avaliados em mais de 50 mil milhões de dólares. Foram concessionados a um consórcio chinês há décadas, mas segundo o Instituto da Paz dos Estados Unidos têm-se mantido quase intocados, porque o contrato inicial continha compromissos irrealistas que tornariam a exploração pouco lucrativa, obrigando à sua renegociação com o Estado afegão.

A divulgação deste relatório do Departamento de Defesa surge numa altura em que James Mattis se prepara para deixar o Pentágono, antecipada a sua demissão pelo Presidente Donald Trump para 1 de janeiro. «É claro que a China e a Rússia, por exemplo, querem  moldar um mundo consistente com o seu modelo autoritário», afirma Mattis na sua carta de demissão, acrescentando:«É por isso que devemos usar todas as ferramentas do poder americano para providenciar uma defesa comum». 

Trump segue essa abordagem  intransigente em relação à China, no que toca à guerra comercial entre os dois países. Mas parece pouco interessado em garantir a estabilidade do governo de Cabul, podendo lançá-lo para os braços de Moscovo e Pequim, em busca de apoio contra os talibãs. 

O anúncio da retirada de cerca de metade das tropas americanas do Afeganistão surpreendeu o executivo do presidente Ashraf Ghani, precisamente  numa altura em que o Governo está a negociar um acordo de paz com os talibãs, que controlam ou ameaçam cerca de metade do país. 

Os rebeldes continuam a ter capacidade para realizar ataques no centro de Cabul, contra objetivos governamentais, como ficou demonstrado esta semana com um ataque ao Ministério das Obras Públicas, que matou 43 pessoas.

O enviado especial dos EUA para a paz no Afeganistão, Zalmay Khalizad, estava em conversações com os talibãs antes do anúncio da retirada e foi apanhado de surpresa, depois de ter garantido aos talibãs que era melhor negociarem porque «o compromisso americano» no Afeganistão «é firme» . 

Representantes do Governo afegão procuram desvalorizar a diminuição da presença norte-americana. Harun Chakhansuri, porta-voz do presidente Ghani, afirmou na televisão que as forças que serão retiradas «estão [apenas] envolvidas no treino e aconselhamento das forças afegãs» e que estas «são capazes de defender o país».

Este otimismo contrastou com a reação alarmada da maioria dos analistas e agentes políticos. Haroon Mir, um analista político da capital afegã, considerou que «uma retirada militar dos EUA fortalecerá a posição dos talibãs nas negociações e levará ao caos politico em Cabul». Diz que outras potências competirão por influência sobre o Afeganistão, mas que nenhuma «preencherá o vazio político e económico deixado pela saída dos EUA».

A ‘traição’ na Síria

Um vazio político que se estende à Síria, num momento em que a sua guerra civil parecia estar chegar ao fim. Neste caso, Trump, decidiu-se pela retirada total das tropas americanas no terreno, à volta de dois mil soldados.

A saída antecipada dos soldados americanos poderá reacender o conflito, permitir o massacre dos seus aliados curdos e a reorganização do Estado Islâmico. A retirada abre caminho à ofensiva turca contra os curdos, anunciada este mês pelo presidente da Turquia, Recep Erdogan. «Queremos eliminar todas as organizações terroristas da região» afirmou o presidente turco. 

A opinião entre os aliados curdos dos EUA é de estarem «à beira de de outra histórica traição», como afirmou Asli Aydintasbas, que faz parte do Conselho Europeu para as Relações Internacionais. 

O YPG já pediu proteção às forças sírias do Presidente Bashar Al-Assad que já entraram na cidade de Manbij, desde há anos sob controlo dos curdos. «É uma tendência positiva», considerou o porta-voz do governo russo Dmitry Peskov.