Opiniao

O menor denominador comum

O grande problema da ‘geringonça’ é que, com ela, o país deu a ilusão de melhorar – mas na verdade estagnou.

Até há um mês, este Governo tinha a seu favor essencialmente dois créditos:

1 - A devolução de rendimentos aos portugueses, retirados pelo Governo de Passos Coelho;

2 - A manutenção da paz social, depois do período de crispação vivido nessa época.

Ora, o primeiro começa a estar em causa por via dos sucessivos relatórios que dão os portugueses a perder rendimentos.

É verdade que houve devoluções de cortes salariais -- mas, além de já estarem também previstos no programa de Governo de Passos Coelho, embora a um ritmo mais lento, o que este Governo tem dado com uma mão tira com a outra.

Como o dinheiro não estica, os impostos indirectos vão buscar (às vezes, com juros) o que as reversões devolveram.

Quanto à paz social, isso foi verdade durante três anos; mas esta enxurrada de greves prova que a paz social só existe enquanto o PCP quiser.

E isto é um aviso para o PS: com ou sem ‘nova geringonça’, António Costa terá de fazer concessões ao PCP para não ter agitação permanente nas ruas. 

Na prática, o PS está refém do PCP.

Assim, os dois maiores ‘feitos’ da ‘geringonça’ – o aumento de rendimentos e a paz social – estão hoje em questão.

É certo que há a ideia de que se vive melhor. 

E isto porque as pessoas gastam mais.

Durante a troika, os portugueses assustaram-se, aferrolharam, não gastavam – e a poupança atingiu níveis muito altos.

Com a ‘geringonça’ – e as repetidas declarações de que tínhamos ‘virado a página da austeridade’ – as pessoas ‘descrisparam-se’ e passaram a poupar menos, a gastar mais e até a endividar-se mais.

E esse aumento do consumo dá às famílias a ilusão de que têm mais dinheiro.

O clima de relativo bem-estar que hoje se vive tem mais a ver com essa ilusão – e com a propaganda política, na qual o Presidente da República também participa – do que com a realidade. 

O que a propaganda não tem conseguido esconder são as chamadas ‘falhas do Estado’.

Falhas do Estado nos incêndios, falhas do Estado em Tancos, falhas do Estado em Borba, falhas do Estado no helicóptero do INEM, falhas do Estado nos serviços de saúde, onde todas as semanas se demitem responsáveis por falta de condições.

Isso tem sido para o Governo o mais desgastante.

Não penso, no entanto, que seja esse o principal problema da ‘geringonça’.

Até porque, em nome da seriedade, devemos reconhecer que essas falhas em muitos casos não são responsabilidade do Governo.

É demagógico responsabilizar o Governo por elas. 

O maior problema da ‘geringonça’ é outro: a impossibilidade de fazer reformas.

Com esta maioria, o PS tem as mãos e os pés atados.

Como se disse, o Governo está refém do PCP (e em menor grau do BE).

Assim, embora a fiscalidade seja asfixiante, sobretudo para as empresas, o PCP e o BE não deixam baixá-la para não beneficiar o ‘patronato’ .

Também as privatizações são impossíveis por razões ideológicas e por razões políticas -- porque no Estado as greves são mais fáceis. 

Quem está ou esteve em greve neste período?

A CP (comboios), o Metropolitano, a Transtejo (barcos), os professores, os juízes, os notários,  os enfermeiros, os anestesistas, os guardas prisionais, os estivadores…; ou seja, na esmagadora maioria, trabalhadores do sector público. 

É muito mais fácil fazer uma greve numa empresa do Estado do que numa empresa privada.

E as greves são uma arma política essencial da esquerda.

As leis laborais, cujas reformas no tempo de Passos Coelho deram excelentes resultados – como se está a ver hoje, com a recuperação do emprego –, também não podem avançar, e até há pressões para as reverter.

A nova lei das rendas, que permitiu a recuperação de muitos prédios urbanos que estavam abandonados ou em ruínas – trazendo uma nova respiração aos centros históricos das cidades –, também já andou para trás e pode andar ainda mais. É certo que houve situações chocantes, com despejos desumanos, mas não há reforma que se faça sem custos; e é sempre possível aperfeiçoar uma lei sem a subverter.

O regresso às 35 horas na Função Pública foi um tremendo disparate, como está à vista, e a esquerda ainda quer estendê-la às empresas privadas.

O grande problema da ‘geringonça’ é que, com ela, o país deu a ilusão de melhorar – mas na verdade estagnou. 

E de ano para ano será pior – porque os outros países farão reformas para se irem adaptando às mudanças impostas pela globalização, mas Portugal marcará passo.

O PCP e o BE bloquearão quaisquer reformas – e até reverterão mais algumas. 

Os três partidos juntos, PS, PCP e BE, em vez de se potenciarem, puxam-se uns aos outros para baixo – porque os acordos são sempre pelo menor denominador comum.

Os rendimentos das famílias vão continuar a descer, apesar dos lances de prestidigitação de Mário Centeno. 

E as dificuldades das empresas não pararão de aumentar. 

É esta a minha previsão.

Não há, porém, forma de fugir a ela, pois a direita não tem condições para gerar uma alternativa de governo.