Opiniao

Coletes Tuga

Os sindicatos e os partidos políticos representam cada vez menos gente 

Estamos enfiados num aperto, mas ainda não vestimos coletes – o que não significa que não os venhamos a vestir.
Só quem não conhece a França pode estranhar as manifestações e os carros a arder: os franceses não precisam de motivos especiais, pode ser um simples 14 de julho, o aumento do preço dos combustíveis ou outra coisa qualquer. 

Porém, a importação e cópia do modelo para Portugal, sem mais, não era de esperar. O povo, de quando em vez, manifesta-se. Já tivemos buzinões na ponte 25 de abril e marchas silenciosas por causa da TSU, mas fenómenos de violência urbana, incendiários e destruidores, ainda não tivemos. Pelo menos, até ver.

O governo e os partidos à esquerda suspiraram de alívio, claro. Manifestações contra a rutura dos serviços públicos, embora esta seja óbvia para todos, seriam motivo de embaraço. 

Desde que novilíngua foi adotada pela ‘geringonça’, a palavra ‘austeridade’ foi banida. A realidade de penúria dos serviços públicos é uma evidência para quem os usa – mas, repetindo todos os dias um discurso de hossanas sem aquela palavra maldita, existe a esperança tola de que ninguém note. 

O país está no fim de um ciclo. Profissões deixaram de existir, carreiras estão em revisão, novas formas de trabalhar nasceram.

Há vinte anos, os bancários formavam uma classe profissional numerosa, poderosa, socialmente relevante, prestigiada. A banca migrou para a internet, os balcões fecharam, os bancários foram despedidos ou reformados, desapareceram como classe. 

Há vinte anos, os professores atingiam o fim da carreira e aposentavam-se a ganhar uma pequena fortuna, de uns milhares de euros (em moeda corrente), e conseguiam-na sempre.

Atualmente, com a crise da Segurança Social, quer evitar-se que cheguem ao topo da carreira e que se aposentem a ganhar valores que a Segurança Social não consegue pagar. Como o Tribunal Constitucional demonstrou (com o Governo anterior sob a troika) que não podem cortar-se pensões já formadas, este Governo está a tentar, através do congelamento das carreiras (dos professores, por exemplo), evitar que essas pensões se cheguem a formar. Ou seja, são funcionários públicos que já não terão as carreiras às quais aspiravam.

A cidade de Lisboa enche-se de manhã com trabalhadores e esvazia-se à noite quando eles voltam às periferias.

Trabalha-se no turismo, nos hotéis, nos restaurantes, no comércio. O alojamento local já tem o mesmo número de camas que os hotéis. Muitos homens ganham a vida a conduzir carros para a Uber e similares. 

Os sindicatos representam cada vez menos gente e menos carreiras. Os partidos políticos não perceberam que o país tinha mudado, que as classes profissionais e sociais que representavam tinham desaparecido e que os cofres do Estado já não podem pagar as promessas eleitorais. 

Uma explosão social, maior ou menor, é expectável em fim de ciclo. Enfiados numa camisa-de-forças, é normal que os portugueses esperneiem.