Opiniao

Mário Centeno diz que o seu grande mérito foi manter reformas de Passos Coelho (e não participará num futuro Governo)

1.Foi a notícia do final do ano: Mário Centeno admitiu, sem reservas nem hesitações, que o mérito mais significativo do Governo que integra foi…não mexer nas reformas promovidas pelo Governo anterior!

Ora, esta confissão do Ministro das Finanças – ou, em rigor, do Presidente do Eurogrupo – acaba por resumir o plano de acção política de António Costa numa singela, mas tão expressiva, frase: não obstante a retórica política, a propaganda do PS e dos jornalistas dominados pelo PS, na prática, os esforços do Governo concentraram-se em manter o essencial das medidas duras tomadas pelo Governo de Pedro Passos Coelho.

Qual foi então a diferença? Mário Centeno também a revelou, embora com tergiversações justificadas pelo seu (mínimo) sentido de lealdade a António Costa: aditar às reformas do Governo anterior uma certa dose de legitimidade social que lhe acabaria por ser conferida pelas ditas “reversões” salariais e de progressões (limitadas) na função pública…Ou seja, criar a aparência de se voltar ao período do “antes da troika”, mantendo, na realidade, o que foi executado no “depois da troika”…

No fundo, executar uma política de austeridade com habilidade política (eufemismo para “mentiras políticas descaradas”) – eis o grande mérito da geringonça, segundo Mário Centeno.

2.Em circunstâncias democráticas  normais, a frase de Mário Centeno justificaria capas de jornais, notícias online em destaque, comentários desses sábios políticos que pululam nas nossas televisões (sempre os mesmos e em todas as estações…). Na verdade, o que sucedeu?

A frase de Mário Centeno foi olimpicamente ignorada – afinal de contas, não interessa aos jornalistas servidores do sistema comunista-socialista- trotskostista uma declaração política do Ministro mais poderoso do Governo a que prestam vassalagem, que, na prática, contradiz a narrativa que têm tentado vender aos portugueses.

E qual é essa narrativa que a comunicação social dominada pela extrema-esquerda e pelo extrema-PS (com destaque para o EXPRESSO e para o “DN”, que devem objectivamente fretes a António Costa…)  tentam religiosamente vender? A de que este Governo de António Costa marca uma ruptura com o Governo anterior, preocupando-se apenas com a justiça social, com os mais desfavorecidos, com a solidariedade entre os portugueses, com os serviços públicos, blá, blá, blá…

Pois bem, Mário Centeno veio repor a verdade: o Governo que lidera de facto limitou-se a gerir a aplicação de reformas que foram efectuadas por Pedro Passos Coelho!

Não foi um comentador de direita que o referiu; não foi um perigoso militante do PSD que o assumiu perante um programa visto por milhares de portugueses…não; foi o próprio Mário Centeno, Ministro das Finanças da geringonça de António Costa!

O programa em que tal declaração foi proferida é o infotainment da moda e que tão querido é pela elite da esquerda: o “Governo Sombra” da TVI 24. Como é possível que uma declaração do Ministro das Finanças que vem confessar que se limitou a manter as reformas do Governo anterior, contrariando a narrativa oficial do seu executivo ventilada nos últimos três anos, tenha passado despercebida pela elite mediática – e, já agora, pela oposição?

3.Acresce que o excelso Ministro das Finanças (que o é cada vez menos) e Presidente do Eurogrupo (cada vez mais, o cargo de que Mário Centeno verdadeiramente gosta), finalmente, admitiu que está de saída de Portugal para se concentrar na carreira internacional em que tanto aposta.

De facto, o Ministro, a páginas tantas, referiu que “até o Benfica sobreviveu depois de Eusébio sair…”. Ora, esta é a frase típica que é inventada pelos conselheiros dos Ministros na preparação dos debates e intervenções televisivas, para o caso de certas questões serem suscitadas pelos respectivos interlocutores – a evocação de Eusébio foi claramente uma indicação dos assessores de Centeno para responder à pergunta se continuaria no Governo, após as legislativas do próximo ano.

A verdade é que os intervenientes do programa televisivo não colocaram a mencionada pergunta; todavia, Mário Centeno lançou a frase na mesma…Que ideia pretendeu transmitir?

Fácil: da mesma forma que o Benfica sobreviveu à saída de Eusébio, António Costa sobreviverá à saída de Centeno! De forma mais clara: Mário Centeno quis deixar claro que abandonará funções governamentais no próximo ano. António Costa não pode contar com ele.

4.Ao contrário do que a sua imagem pública indicia, com o seu ar ternurento de “cartoon” da Disney ou do Cartoon Network, Mário Centeno é um vulcão de ambições (expressão que o Cardeal Cerejeira empregou para descrever Oliveira Salazar).

Falta-lhe em humildade o que lhe sobra em arrogância e egocentrismo: Centeno acredita que chegará a Presidente da Comissão Europeia, mais tarde ou mais cedo. E, se não o fizer, será candidato a Presidente da República de Portugal.

Tal como Cavaco Silva – o seu ídolo, embora não o possa revelar em público - , Mário Centeno afirma que é apenas um economista, não um político.

No entanto, Centeno (o homem do “déficiti”, não do “défice”) tem uma capacidade para mentir desbragadamente mais apurada do que a dos políticos profissionais.

Então não é que Centeno se atreveu a afirmar sem se rir (apenas fazendo aquele seu tique de encher a cara sempre que está desconfortável) que a economia só começou a crescer quando assumiu a pasta das finanças nacionais? É preciso topete – assim se vê, quem é que cria as “realidades alternativas”…

É a esquerda, real e fingida (como é o caso de Mário Centeno) que se diverte a criar factos alternativos, realidades virtuais que sirvam as suas conveniências políticas…

5.Que o novo ano nos traga mais seriedade e honestidade para a política portuguesa! Feliz Ano Novo!

Joaolemosesteves@gmail.com