Lugares Azuis

Onde o Mar se funde com o Céu - Sagres

É impossível ficar indiferente à linha do horizonte que está à nossa frente na ponta de Sagres! A terra, em forma de cabo, estende-se mar adentro como se se tratasse de uma passadeira que nos leva a um lugar mágico. Um lugar onde o mar se funde com o céu.

A mesma sensação temos quando estamos na ponta do Cabo de S. Vicente, no alto da falésia, a sentir o mar a bater nas íngremes escarpas e a sentir o vento que nos envolve por completo na energia emanada pela força da natureza que se apresenta neste cruzamento de mares e de continentes.

Esta localização estratégica para a navegação, de cruzamento de rotas, de passagem de norte para sul e de leste para oeste, fez com que um dos primeiros faróis do país fosse construído no Cabo de S. Vicente, numa fortaleza/convento, aproveitando o facto de o local ser ponto de referência nas cartas náuticas pelas fogueiras que os frades acendiam na torre do convento, para segurança dos navios.

Fazer a navegação neste local, entre cabos sempre com terra à vista (cabotagem), não é tarefa fácil. Quem vem na rota do Mar Mediterrâneo, se virar para norte cedo de mais, corre o risco de embater em rochas, se virar tarde de mais, corre o risco de se perder na imensidão do Oceano Atlântico. Durante o Império Romano, acreditava-se que esta ponta traçava o fim da terra habitada.

A energia mística deste privilegiado lugar dá origem ao seu nome “Promontorium Sacrum”, Sagres. Desde o neolítico que Sagres é um local de culto, que se reforça durante o Império Romano e que, com a queda de Roma e subsequentes invasões árabes, durante a perseguição de Abderramán I, no século VIII, o “Promontorium Sacrum”, Sagres, acolhe as relíquias de S. Vicente. Este facto para além de batizar o Cabo de S. Vicente e toda a Costa Vicentina, teve importantes repercussões religiosas e diplomáticas no surgimento da Portugal.

No início do século IV, o Diácono de Saragoça, Vicente, foi violentamente torturado pelos romanos para que revelasse a localização das sagradas escrituras, livros proibidos no Império Romano de então. A sua insistência em não revelar onde os tinha escondido valeu-lhe a morte devido às sequelas da tortura, tornando-se o mártir hispânico mais célebre da igreja católica.

No século XII, em plena reconquista cristã, D. Afonso Henriques, não perdeu tempo, em trazer as relíquias do mártir hispânico mais célebre da igreja católica, para Lisboa, tornando S. Vicente, padroeiro da recentemente conquistada cidade.

A força do imaginário associado a Sagres, o “Promontorium Sacrum”, tem, para os portugueses, o seu expoente máximo, no conhecido conceito da Escola de Sagres, que pretende sintetizar todo o esforço e empenho de uma nação, em tentar alcançar um objetivo marítimo, muito maior que a sua dimensão terrestre.

Quem já assistiu, em Sagres, a um incrível pôr-do-sol, que pinta a cores de fogo, o horizonte, onde o mar se funde com o céu, entende que, o mar, a natureza, conseguem, como que por magia, fazer sonhar as pessoas, fazendo-as meditar e motivando-as para alcançar fantásticos desígnios.

 

*Sócio da PwC